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O aquecimento médio global atingiu 1,5 C pela terceira vez, em 2025, diz o relatório do Copernicus, observatório da Terra da União Europeia. Não é uma notícia trivial. O Copernicus monitora o planeta e seu meio-ambiente por meio de satélites e sensores em terra. O relatório mostra que o aquecimento ocorreu em terra e nos oceanos, acompanhando o aumento de gases-estufa acumulados na atmosfera. As emissões continuaram a crescer em 2025. O alerta dos eventos climáticos extremos que atingiram todos os continentes foram desconsiderados. O crescimento das emissões se deu pelo uso de energia fóssil e pela redução de sorvedouros naturais de CO² ocasionada pelo desmatamento e pelo degelo. Os oceanos, com menor grau de salinidade e mais quentes, não absorvem mais tanto CO² quanto no passado. Emitimos mais e perdemos capacidade de retirar esses gases da atmosfera. Uma caminhada insensata.
Quando o Acordo de Paris estabeleceu 1,5 C como limite máximo para o aquecimento global tolerável, todos estavam conscientes do aviso dos climatólogos de que, neste patamar, os eventos climáticos extremos continuariam a aumentar. Não era o ideal. Era apenas um pacto de tolerância com relação ao grau de risco representado por este aquecimento. Nos últimos três anos atingimos esse patamar de aquecimento médio global acima dos níveis pré-industriais. Estamos antecipando em uma década o agravamento do quadro climático.
O cenário não é abstrato, é concreto. Provoca mortes nas ondas de calor, temporais com enchentes, tornados e soterramentos, ondas muito fortes atingem as áreas litorâneas e matam nas praias. Tivemos invernos mais rigorosos, verões mais quentes, secas longas e sequenciais, desabastecimento de água, safras frustradas que causaram mortes por fome e perdas patrimoniais consideráveis.
O custo social e econômico dessa negligência global com a vida humana é incalculável. É a espécie humana que está em risco, não a do planeta. Este, sobrevive com um clima adverso à vida de espécies que precisam de um ambiente saudável, com oferta regular e apropriada de temperatura, água, ar despoluído e equilíbrio entre estações. Os eventos que todos resenciamos, não só onde vivemos, mas por toda parte, reportados pelas mídias e pela ciência, são graves o suficiente para provocar reação das sociedades e dos governos. Mas não é o que vemos. Reagimos mais a conflitos de interesses, oscilações econômicas adversas e outras situações na sociedade, na economia e na política que geram desconforto, indignação e dor.
As nove COPs posteriores ao Acordo de Paris, na COP21, mostraram que sequer respeitamos o que havíamos acordado: reduzir emissões, para ficarmos abaixo do limite de 1,5 C e preparar as cidades para os eventos climáticos extremos que já estavam contratados nos níveis de aquecimento que tínhamos naquela época. Enquanto os países negociavam o Acordo de Paris, o aquecimento médio global havia alcançado 1,05 C.
Desde então, só tivemos retrocessos. O principal deles nos Estados Unidos. Trump não se limitou a sair do Acordo do Clima, ele retirou financiamento da pesquisa e monitoramento do clima, desmantelou a agência de regulação ambiental e cancelou todas as políticas de contenção do uso de combustíveis fósseis. As atitudes de Trump fizeram várias empresas abandonarem seus programas de sustentabilidade e de diversidade. Vários países afrouxaram as suas respectivas ações sobre o clima.
Se mantivermos os novos patamares de aquecimento médio do triênio 2023-25, teremos duas graves consequências. A primeira é que nos moveremos para novos níveis de aquecimento, de 2,5 C-3,0C. Viveremos então eventos climáticos jamais experimentados pela humanidade nos últimos séculos. A segunda, é que teremos um quadro de eventos extremos com gravidade igual ou maior do que aqueles que marcaram o triênio 2023-2025. Há governos locais e de alguns países, principalmente da Escandinávia, que adotam políticas mais ambiciosas. É insuficiente. A única solução seria a formação de consenso global para abandonar os combustíveis fósseis e atingir carbono-zero. A partir daí investir na retirada de gases-estufa da atmosfera.
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A esperança é que os dramas que enfrentaremos provoquem pressão social sobre governos e empresas que os force a adotarem medidas que, até agora, não tomaram. Há vários anos, o relatório do Fórum Econômico Mundial, maior reunião global de empresários, governantes e especialistas, aponta o risco climático como o maior perigo existencial global a médio prazo. Risco se previne. Até agora nos contentamos com a remediação. Mas nada repara as mortes, as perdas de território com a elevação do nível dos oceanos, a desertificação.
Não devemos abandonar o princípio da esperança, e precisamos cobrar dos veículos de informação que tornem o risco climático pauta recorrente. Como cidadãos devemos escolher os políticos que defendem a mudança e rejeitar os negacionistas do clima. Os governos estão falhando. A solução ficou nas mãos da sociedade.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
