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Diretor de 'O agente secreto': 'Bons filmes autorais podem ser populares'-lugardafinancas.com
CINEMA

Diretor de 'O agente secreto': 'Bons filmes autorais podem ser populares'

Kleber Mendonça Filho comenta as quatro indicações ao Oscar do filme que chegou aos dois milhões de espectadores no Brasil

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A primeira lembrança do Oscar na mente do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho é da cerimônia de 1979, que assistiu com a mãe na casa de uma amiga, numa tarde de sábado. “Acho que era a gravação do que tinha acontecido no domingo anterior”, especula. “Foi quando “Superman” (de Richard Donner), a que eu tinha assistido, ganhou Montagem ou foi efeitos especiais (prêmio especial de Efeitos Visuais). Foi também quando vi cenas de filmes que eu não podia ver na época, como “O expresso da meia-noite” e “O franco-atirador” (de Michael Cimino, vencedor na categoria de Melhor Filme naquele ano)”.

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Outra lembrança marcante do diretor de “O agente secreto”, que concorre a quatro estatuetas douradas em 2026, é o Oscar de 1991. “Tinha certeza de que ‘Os bons companheiros’”, do (Martin) Scorsese, iria ganhar múltiplos prêmios (tinha seis indicações e ganhou apenas o de Ator Coadjuvante, com Joe Pesci) e, com certeza, o de Melhor Montagem. Mas quem venceu foi ‘Dança com lobos’ (de Kevin Costner). Ali entendi que essas coisas podem não ser justas e muitas vezes não são. Aquilo me ensinou muito”, observa.


Por isso, o espírito de Kleber Mendonça para a presença de seu filme na maior premiação da indústria cinematográfica, a ser realizada em Los Angeles no dia 15 de março, é o de “participar de uma conversa” com outros realizadores de produções que se destacaram mundialmente nos últimos meses. “Estou me sentindo muito à vontade e confortável de participar dessa conversa”, revela, em entrevista ao Estado de Minas, antes de nova rodada de divulgação do longa-metragem nos Estados Unidos.


Maior sucesso de bilheteria dos longas dirigidos por Kleber, “O agente secreto” chegou a 2 milhões de espectadores no Brasil.

A popularidade do filme pode ser atestada pelas referências a personagens, figurinos, objetos de cena e sequências do longa em blocos carnavalescos como o Queimando o Filme, que percorreu as ruas do bairro de Santa Tereza, em BH, no último sábado (31/1). E em duas novas alegorias do carnaval de Olinda, uma das mais tradicionais do país. “Viramos, eu e Wagner, bonecos gigantes. Não pediram autorização, acho uma esculhambação”, brinca: “Adoro”.

Dona Sebastiana em BH: Cortejo do Bloco Queimando o filme, no Santa Tereza
Dona Sebastiana em BH: Cortejo do Bloco Queimando o filme, no Santa Tereza, no último sábado, com a personagem de Tânia Maria em "O Agente Secreto" Tulio Santos/EM/D.A. Press

O que “O agente secreto” está fazendo no Oscar? Que cinema – e que cultura – ele representa?

“O agente secreto” é um filme brasileiro que tem tido exposição internacional e uma carreira de muito prestígio. É um pouco como participar de uma conversa, numa roda de conversa — que eu acho que é o cenário de cinema: você levanta o braço, diz que tem algo a falar, chega a sua vez e você fala. Eu me sinto muito assim. Acho que fizemos um bom filme, há outros bons filmes nessa temporada, e estou me sentindo muito à vontade e confortável de participar dessa conversa.

Como viu a indicação na inédita categoria de Melhor Direção de Elenco? O que representa para você mostrar dezenas de rostos brasileiros nas telas de todo o mundo? É uma realização adicional?

Significa exatamente isso que você perguntou. Acho que cada filme traz uma quantidade potencialmente interessante, importante e relevante de “caras”. Quando vejo um filme britânico, espero ver as caras da Grã-Bretanha. Dependendo do cineasta, posso até adivinhar que tipo de rostos vamos ver. A mesma coisa com filmes da União Soviética ou da Austrália — onde se torna dramático, porque tem a população branca e a população dos nativos, as First Nations.

Tudo isso é algo em que penso muito quando faço um filme, porque sou brasileiro e tenho uma admiração enorme, sou completamente fascinado pelo povo brasileiro. Então, desde “O som ao redor”, penso muito nas caras, nos corpos, no tipo de gente que vai aparecer. Eu me sentiria preso, claustrofóbico, se mostrasse só um tipo de brasileiro. E isso vale para todos os lados. Poderia ser só branco, o que acho que seria realmente problemático, porque a nossa sociedade não é branca; ela é mista, é mestiça. Eu gosto sempre de mostrar a nossa diversidade, a diversidade de vocabulário humano que sinto andando na rua, vivendo no Brasil.

Sempre estive muito feliz desde o processo de casting feito com Gabriel Domingues. Antes de filmar, nos ensaios e na montagem, eu já estava ciente de que o filme era uma janela muito honesta, uma visão de Brasil. Mas agora, com toda a repercussão e a indicação nessa categoria especial de casting, não tenho nem palavras. É como se fosse a prova de um sucesso de visão, uma visão de país que me agrada muito no cinema e que venho construindo há muito tempo, desde os curtas-metragens. “O som ao redor” tem essa multiplicidade de caras; “Aquarius” também, mesmo sendo focado na personagem de Sônia (Braga), ela interage com muita gente. “Bacurau”, codirigido por Juliano Dornelles, foi onde realmente acho que consegui meu ‘mestrado’. É um filme que tem um tesouro humano cristalino. E agora, isso está muito evidente e comentado em “O agente secreto” com essa indicação.


Você falou, ao receber o Globo de Ouro, que os jovens realizadores norte-americanos devem registrar o que está acontecendo no país deles neste momento. O que o fez fazer essa incitação?

Na verdade, a dedicatória foi para os jovens cineastas. É claro que penso, em primeiro lugar, no Brasil: meninos e meninas que estão desenvolvendo ideias, pensando em fazer cinema, em pegar uma câmera e fazer alguma coisa, escrever.

Mas, como eu estava nos Estados Unidos, também dediquei aos jovens cineastas de lá. Porque acho que, toda vez que existe um momento de crise, abrem-se janelas muito largas para você olhar para esse momento. Isso geralmente nos traz muitas possibilidades de tensão, de dramaticidade. Acho que é um grande momento para fazer cinema, para fazer observações sobre a vida em sociedade.

Eu realmente me lembro de quando estava na universidade, ou saindo dela, e de como queria desenvolver ideias e fazer filmes. A sociedade é uma fonte inesgotável de histórias. E a sociedade, quando está doente, também é uma fonte — talvez ainda mais forte — para desenvolver histórias. Foi por isso que dediquei aos jovens cineastas.


Seus dois longas de ficção mais recentes não se passam nos dias de hoje. O projeto ficcional que você pretende desenvolver, no Recife pré-nazismo, também não. Filmar o tempo presente, na sua visão, pode ser menos estimulante do que recriar o passado ou imaginar um futuro próximo? A realidade tem sido mais forte do que a ficção?

Talvez eu esteja, de fato, me sentindo muito atraído pela ideia de desconfigurar o presente. Fazer um filme como “Bacurau”, que se passa no futuro, coloca você um grau acima da realidade, o que é muito prazeroso e muito saudável também. Em “Bacurau”, uns dois anos antes das placas de carro mudarem, nós já tínhamos entrado em contato com as autoridades no Brasil e pegamos o desenho das placas que mudariam, a placa do Mercosul, e já colocamos em “Bacurau”. Mas isso é um exemplo muito pragmático, né?

Acho que a própria ideia de borrar a lógica da sociedade – piorá-la de alguma forma, repensá-la – e também fazer a mesma coisa em direção ao passado, é algo que me estimula muito. Mas isso não descarta a possibilidade de eu querer fazer um filme que se passe no presente e, da mesma maneira, borrar a realidade do presente com o cinema. Tenho um interesse muito grande em unir o realismo extremo com o cinema extremo. Acho que essa união é algo que me estimula muito e que, de certa forma, faz parte dos meus filmes.

Qual foi a sequência mais complexa de filmar? E qual a sua cena favorita?

O filme todo foi muito complexo de filmar. Mas acho que o ‘complexo’ de ter 110% de processamento e raciocínio é a sequência de Elsa entrevistando e pegando o depoimento de Armando no apartamento do (Cinema) São Luiz.. Aquilo ali tinha uma responsabilidade enorme minha. Acho que os atores também sentiam essa responsabilidade, mas eu estava ali como diretor, roteirista e montador, administrando cada olhar, cada palavra, cada frase.

Pedi ao Wagner que pensasse muito. Porque, quando estamos lembrando, a gente pensa, para, e já está vendo o que está pensando antes de falar. Então, antes mesmo de ele falar, vemos que ele está pensando; tem algo muito forte acontecendo ali. E também pela maneira como o Armando assume que conta a história na ordem errada. Às vezes, a emoção apressa a chegada de uma informação, e depois você diz: “Eu contei na ordem errada. Um dia antes a gente foi jantar...”

É também uma sequência que se passa em três tempos históricos: 1977, 1974 e 2024/2025, no futuro. E tem um momento que acho que ilustra muito bem a sua pergunta: eles estão conversando, a plateia no (Cinema) São Luiz faz uma gritaria por causa de “A profecia”, eles param de conversar, viram a cabeça e ouvem. E a Flávia, no futuro, também ouve e vira a cabeça.

Então, foi a sequência mais complexa, ao meu ver, e exigiu uma concentração muito grande de todos nós: de Felipe Fernandes e Leonardo Lacca como diretores assistentes, dos atores, de Evgenia (Alexandrova, diretora de fotografia). Foi realmente uma grande conquista ter filmado e a montagem ter dado certo.

Mas eu destacaria também a perseguição a pé no final, no Centro da cidade. De maneira parecida com a entrevista no apartamento, cada plano ali precisava ser carregado de tensão, brutalidade, violência e energia. Não é fácil manter essa peteca no ar.

O produtor Rodrigo Teixeira afirmou que não vê o Brasil de volta ao Oscar nos próximos anos. Concorda com a visão dele? O que é preciso fazer para ter uma presença constante em festivais como Cannes e em prêmios como Globo de Ouro e Oscar?

Eu não tive acesso ainda à nova safra, mas uma coisa que falei em algumas entrevistas é que eu queria muito que um cineasta, uma realizadora, estivesse terminando a montagem ou trabalhando na mixagem de um filme importante que, daqui a um ano, será muito respeitado e representará o Brasil em vários festivais. Existem muitas outras maneiras de o cinema brasileiro ser prestigiado e reconhecido. E eu acho que temos ido muito bem. Tivemos “O último azul” (de Gabriel Mascaro), que teve uma performance espetacular no Brasil, 200 mil espectadores, e ganhou Urso de Prata em Berlim. Existem muitas maneiras de fazer sucesso.

 Wagner Moura e Kleber Cavalcante Filho sorriem e seguram troféus do Globo de Ouro que receberam em janeiro de 2026
Brasil no Globo de Ouro 2026: Wagner Moura com o troféu de Melhor Ator em Filme/Drama, e Kleber Cavalcante Filho com o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro Wagner Moura/Instagram/11/1/2026

Sobre o Oscar, eu não sei... Acho que o Oscar exige uma combinação de vários fatores. “O agente secreto” é um filme fora da caixa, autoral, brasileiro, com quase três horas, mais de 60 personagens, múltiplas camadas narrativas. Mas é também o filme de um cineasta que vem construindo uma carreira. Meus outros filmes tiveram muito prestígio. Esse filme foi adquirido pela Neon, esteve no Festival de Cannes, na França, ganhou muitos prêmios e tem tido uma carreira realmente muito forte. Então, ele se encaixa nessa trajetória, mas não necessariamente os filmes têm a obrigação de se encaixar nela. O que quero dizer é que existem muitas maneiras de ser um sucesso.

Roterdã acabou de apresentar, pela primeira vez em première mundial, “Yellow Cake”, de Tiago Melo. Vamos ver o que acontece com esse filme, mas já é um dado muito interessante em termos de cinema brasileiro. A gente tem agora cinco filmes em Berlim. Então, temos que dar uma olhada.

Sobre o Oscar, para mim, é algo tão particular, tão específico, que realmente não sei o que dizer. Mas espero que o cinema brasileiro seja muito visto este ano no Brasil e fora dele.


“O agente secreto” chegou aos 2 milhões de espectadores no Brasil. Imaginava que o filme pudesse ser o seu maior sucesso de bilheteria? Como o crítico Kleber Mendonça explicaria esse sucesso?

É importante que eu responda esta pergunta. Porque, mesmo que a retomada (da produção audiovisual no país) tenha sido marcada por “Carlota Joaquina” (de Carla Camurati) – que eu acho que é um filme autoral – e pelo sucesso de “Central do Brasil”, que é um filme autoral de Walter (Salles), acho que nos anos 1990 e 2000 estabeleceu-se um abismo entre o cinema autoral e o cinema comercial brasileiro. O cinema comercial conquistava o público – principalmente as comédias, que começaram a se chamar “comédias globais” – e os filmes autorais brasileiros conquistavam prestígio, mas não conquistavam público.

Eu nunca acreditei nisso. Sempre achei que bons filmes autorais podem ser filmes populares. E temos muitos exemplos: “Memórias do cárcere” (de Nelson Pereira dos Santos), acho que foi um filme que foi um sucesso popular; “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia” (de Hector Babenco) é um sucesso popular; “Dona Flor e seus dois maridos” (de Bruno Barreto) é um sucesso popular. Mesmo na minha carreira de curtas, fiz filmes que eram muito pessoais, mas conquistaram sempre prêmios de público e de crítica. “Recife frio” foi um grande sucesso de crítica e de público.

 Dançarinos de frevo se apresentam no tapete vermelho do Festival de Cannes 2025, a convite da equipe do filme O agente secreto
Equipe de 'O agente secreto' chegou ao tapete vermelho de Cannes acompanhada de grupo pernambucano de frevo, em maio de 2025, e deixou o festival francês com dois prêmios: Melhor Diretor, para Kleber Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura Valery Hache/AFP

A ideia de que o cinema autoral implica fazer um filme opaco e distante das pessoas... Às vezes alguns filmes têm esse perfil, mas eles podem também (atingir o grande público). E os 2 milhões de “O agente secreto” me deixam muito feliz porque é exatamente o que eu sempre quis colocar em prática. No lançamento, “O som ao redor” foi colocado no escaninho do “filme pequeno de arte”, porque foi lançado com um orçamento pequeno. Com um lançamento desses, ele imediatamente precisa, por obrigação, vestir a roupa do filme pequeno de arte.

“Aquarius” já teve um lançamento maior, começou a balançar a grade, fez quase 400 mil espectadores. “Bacurau” furou a bolha. Mas eu sempre me senti um pouquinho frustrado dos filmes não desempenharem esse papel. Tenho essa ânsia, que é uma questão de mercado, não do filme em si.

Agora, com “O agente secreto”, acho que é uma prova disso. É o nosso maior lançamento. Conseguiu um prestígio internacional muito grande e agora chega a 2 milhões de espectadores. A gente deve, em breve, fazer três vezes mais que o “Bacurau”. Estou muito feliz desse filme tão pessoal, tão particular, tão brasileiro, com tantas camadas de história, tantos sotaques, ter esse resultado.

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