Deve ser o filme mais controverso do ano. Com estreia mundial nesta quinta-feira (12/2), às vésperas do Dia dos Namorados em países como Estados Unidos e Reino Unido, Emerald Fennell apresenta sua versão de “O morro dos ventos uivantes”, clássico de Emily Brontë.

Divulgado como uma trama livremente inspirada na “maior história de amor de todos os tempos”, o longa funciona – desde que não seja encarado como uma adaptação fiel da obra original.

Diretora do polêmico “Saltburn”, conhecido pela cena em que um personagem lambe o ralo da banheira atrás de vestígios do homem que deseja, Fennell realiza aqui uma leitura mais erótica e carnal do clássico de Brontë.

Em entrevistas, a diretora contou que leu o romance pela primeira vez aos 14 anos e que a história a marcou profundamente. O que quis fazer agora, segundo diz, foi recuperar a sensação daquela primeira leitura.

O romance é movido por uma relação quase simbiótica entre Catherine (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi). Ele é adotado ainda criança pelo pai dela, que decide criá-lo depois de encontrá-lo sozinho durante uma caminhada.

Cathy resolve dar a ele o nome do filho morto da família. Os dois crescem juntos, mas Heathcliff logo é rebaixado a criado da casa e passa a sofrer agressões e humilhações. A exclusão molda o homem ranzinza e taciturno que ele se torna na vida adulta.

O burburinho ao redor do filme começou com a escalação do australiano Jacob Elordi para interpretar Heathcliff. Elordi, que já trabalhou com Fennell em “Saltburn” e atualmente disputa o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante com “Frankenstein”, em que vive a criatura, foi alvo de críticas, assim que o nome foi anunciado.

No romance de 1847, Heathcliff é descrito como um cigano de pele escura, em alguns trechos mestiço, de olhos negros e cabelos cacheados. A aparência é impedimento central à relação amorosa entre ele e Catherine.

Fennell rebateu as críticas dizendo que Elordi se parecia exatamente com a ilustração do Heathcliff da edição que leu na adolescência. Ela afirma que queria fazer algo que a fizesse sentir como se sentiu quando leu o livro pela primeira vez.

Os diálogos, por outro lado, se mantêm como os originais em grande parte do filme. Segundo a diretora, o texto de Brontë é insuperável e não havia porque alterá-lo.

Visualmente, o filme é grandioso. Os planos abertos foram gravados em Yorkshire, condado na Inglaterra onde Emily Brontë viveu. Para dar o tom fantasmagórico do romance gótico, há névoa, vento e muita chuva.

A escalação de Jacob Elordi como Heathcliff, personagem originalmente cigano, gerou controvérsia

Warner/Divulgação


Adaptações e fusões


A adaptação se concentra na primeira metade do romance. Alguns personagens foram excluídos e outros fundidos em um só, como o pai e o irmão de Catherine. A iluminação é baixa e quase sempre vem de feixes que atravessam as janelas ou de velas e lareiras acesas.


No início do filme, Margot Robbie surge como uma Cathy teimosa e ingênua. O visual da atriz praticamente inalterado para a personagem guarda ecos da Barbie que ela viveu no longa de Greta Gerwig, mas, à medida que a história avança, a atriz se distancia dessa imagem e passa a convencer como a personagem.


Elordi, por outro lado, não alcança totalmente o Heathcliff descrito por Brontë – rude, selvagem e de temperamento terrível. O visual tenta exalar aspereza, mas ainda há algo de galã que enfraquece a brutalidade do personagem.

Mesmo apaixonada por Heathcliff, a protagonista entende que, caso se case com ele, os dois estariam condenados à miséria. Por isso decide se casar com o vizinho rico, Edgar Linton.

Depois de um período na casa dos Linton, Cathy retorna transformada. Os cabelos antes indomáveis aparecem mais alinhados, a postura é contida e as roupas – luxuosas – demonstram a tentativa de se encaixar no novo status social.

Fennell explicita o desejo que, no livro, ficava apenas nas entrelinhas. Aqui, o erotismo é tátil. Há cenas de sexo, closes em costas suadas, claras de ovo atravessada por lentos toques de dedos.

O romance funciona como um bom “slow burn”. É o tipo de história em que o amor se constrói devagar, com tensão, olhares, aproximações e afastamentos. No caso de Cathy e Heathcliff, o sentimento opera como uma corrente invisível. Mesmo separados, continuam presos um ao outro.

Nos outros trabalhos, Fennell já foi acusada de priorizar estilo sobre conteúdo. Talvez seja esse o seu cinema. Não é uma adaptação definitiva, mas um delírio sedutor e envolvente sobre um amor que jamais soube ser saudável.


“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”
(EUA, 2026, 136 minutos). Direção: Emerald Fennell. Com Margot Robbie, Jacob Elordi, Owen Cooper, Hong Chau, Shazad Latif e Alison Oliver.

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• Estreia nesta quinta (11/2). em salas das redes Cineart, Cinesercla, Cinemark e Cinépolis, no UNA Cine Belas Artes e no Centro Cultural Unimed BH-Minas.

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