Odoyá, Rainha do Mar!
A imagem de Iemanjá com pele branca, cabelos longos e lisos, e traços europeus é amplamente difundida no Brasil, especialmente nas celebrações de Ano Novo. Estampada em estátuas, imagens e quadros, essa figura de sereia se popularizou no imaginário coletivo, mas distancia-se profundamente de suas raízes africanas.
Essa representação é resultado de um longo processo de embranquecimento e sincretismo religioso. Iemanjá é uma Orixá do panteão iorubá, originária da Nigéria, onde é cultuada como a mãe de quase todos os Orixás, uma figura poderosa associada aos rios e à fertilidade. Sua imagem original é a de uma mulher negra, robusta e maternal.
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Com a chegada dos africanos escravizados ao Brasil, a imposição do catolicismo forçou a associação dos Orixás a santos católicos como forma de preservar suas crenças. Iemanjá foi sincretizada principalmente com Nossa Senhora dos Navegantes e outras representações de Virgem Maria, todas figuras brancas da iconografia cristã.
Na prática, um dos exemplos mais famosos de sincretismo religioso é Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes, duas divindades que estão intimamente ligadas ao mar, celebradas em 2 de fevereiro.
A fusão com o imaginário das sereias europeias, seres mitológicos de beleza idealizada, completou a transformação. Essa nova imagem se tornou comercialmente atrativa e mais "aceitável" para uma sociedade estruturalmente racista, que historicamente valoriza padrões de beleza europeus em detrimento dos africanos.
Vozes de resistência
Um pesquisador que questiona o embranquecimento de Iemanjá é Vilson Caetano, antropólogo da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele argumenta que o processo de embranquecimento da orixá reforça o racismo estrutural brasileiro, ao substituir traços negróides por características europeias, o que representa uma violência cultural e uma imposição do olhar colonizador. Caetano também destaca que isso nega o protagonismo das mulheres negras na sociedade e explica o incômodo causado por representações negras de Iemanjá em contextos tradicionais, como festas no Rio Vermelho, em Salvador:
- “O embranquecimento de Iemanjá representa uma violência ao negar o protagonismo que as mulheres negras desempenharam desde sempre na nossa sociedade. Para nós, Iemanjá é um orixá guerreiro, que vai à luta, que está liderando povos e grupos e está dentro do processo civilizatório. O embranquecimento da imagem de Iemanjá é uma imposição do olhar do colonizador.”
- “O embranquecimento da imagem de Iemanjá faz parte do processo perverso de negação da presença da população negra, de origem africana, na sociedade brasileira.”
- “Causa incômodo porque ainda há muita resistência a reconhecer Iemanjá como uma entidade africana. Houve todo um processo histórico de embranquecimento e de apagamento da nossa história.”
Outra estudiosa é Helena Theodoro, pesquisadora em história comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela associa o embranquecimento da imagem de Iemanjá ao processo de colonização do Brasil, que impôs uma visão de superioridade europeia sobre povos africanos e indígenas, comparando-o ao branqueamento da imagem de Jesus Cristo:
- “Houve uma demonização das religiões negras e indígenas a partir do que a Europa situou como sendo civilizado, humano. Nesse contexto, o humano é europeu, branco de olho azul.”
- Ela compara o processo ao embranquecimento da imagem de Jesus Cristo, destacando que “a imagem de Iemanjá branca tem raízes no processo de colonização do Brasil, que impôs uma visão de superioridade europeia sobre os povos indígenas e africanos.”
Antonio Baruty, pesquisador do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (Neabi) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), critica o embranquecimento como desrespeito à ancestralidade africana, ligado ao sincretismo e à perseguição histórica às religiões de matriz africana. Embora citações diretas mais extensas dele sejam menos acessíveis em fontes públicas recentes, ele associa o fenômeno ao apagamento cultural imposto pelo colonialismo e pela umbanda branca, reforçando a necessidade de resgate da negritude das divindades.
Celiana Maria dos Santos, pedagoga do Instituto Federal da Bahia (Ifba), em sua dissertação de mestrado "A Rainha do Mar – Quem é Yemanjá no imaginário dos pescadores do Rio Vermelho?", questiona a representação branca de uma orixá africana, destacando o estranhamento causado pela influência europeia e da umbanda, que relega a negritude a segundo plano.
O impacto do apagamento cultural
A imagem de Iemanjá varia conforme as tradições locais, mas geralmente é representada como uma mulher majestosa, muitas vezes vestida em tons de azul e branco, segurando símbolos como conchas e peixes.
O embranquecimento de Iemanjá não é apenas uma mudança estética; representa um apagamento da identidade e da força da cultura afro-brasileira. Ao retratar a Orixá com traços brancos, nega-se sua origem e enfraquece-se a conexão dos seus devotos com a ancestralidade africana.
Esse fenômeno reforça a ideia de que elementos da cultura negra só são validados quando adaptados a um padrão branco. Isso contribui para a manutenção do racismo estrutural, invisibilizando a riqueza e a importância das religiões de matriz africana em sua forma original.
Atualmente, existe um movimento crescente de comunidades religiosas e ativistas para resgatar e valorizar a representação negra de Iemanjá. O objetivo é reafirmar sua verdadeira identidade como uma divindade africana, celebrando a beleza, a força e o legado do povo que a trouxe para o Brasil.
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Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
