O início de 2026 trouxe um retrato preocupante para a saúde financeira das famílias de Belo Horizonte. O nível de endividamento chegou a 89% em janeiro, alta de 1,4 ponto percentual na comparação com dezembro de 2025, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), aplicada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) e analisada pelo Núcleo de Pesquisa e Inteligência da Federação do Comércio, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio MG).

O dado indica que praticamente nove em cada dez famílias da capital mineira mantêm algum tipo de compromisso financeiro, seja financiamento imobiliário, prestação de veículo, empréstimo pessoal, carnê de loja ou cartão de crédito. Embora o percentual de consumidores com contas em atraso tenha apresentado leve recuo mensal de 0,1 ponto percentual, fixando-se em 64,7%, o cenário geral permanece pressionado.

Mais grave é o avanço do número de famílias que já admitem não ter condições de quitar as dívidas em atraso. Em janeiro, 28,6% dos entrevistados afirmaram que não conseguirão pagar seus compromissos financeiros, alta de 1,4 ponto percentual em relação a dezembro. Entre aqueles que já estão com contas vencidas, 44,2% avaliam que tampouco terão condições de regularizar a situação no mês seguinte.

A economista da Fecomércio MG, Gabriela Martins, destaca que o quadro exige cautela. Segundo ela, apesar da pequena redução no índice de inadimplência, o aumento contínuo das famílias que não conseguem pagar suas dívidas é o dado mais sensível. "Esse contexto tende a limitar o consumo nos próximos meses, pressionar o comércio e exigir maior planejamento financeiro por parte dos consumidores, principalmente em um cenário de encarecimento do custo do crédito”, afirma.

O cartão de crédito permanece como o principal vilão. Em janeiro, 96,3% dos endividados estavam comprometidos com essa modalidade. Entre as famílias que recebem dez ou mais salários mínimos, o índice chega a 99,2%. O cartão é utilizado tanto para compras parceladas quanto para despesas do dia a dia, funcionando, na prática, como complemento de renda. O problema está no custo: o crédito rotativo opera com juros médios que giram em torno de 451,5% ao ano, um dos mais elevados do mercado.

Depois do cartão, aparecem os carnês de lojas, citados por 30,6% dos entrevistados, e o financiamento de veículos, com 13,6%. O perfil das dívidas revela uma combinação de consumo corrente com compromissos de médio prazo, o que prolonga o tempo de pressão sobre o orçamento doméstico.

A percepção das próprias famílias confirma o peso dessa realidade. Quando questionados sobre o nível de endividamento, 17,2% se consideram muito endividados, 32,8% mais ou menos endividados e 39% pouco endividados. Ainda assim, 86,6% afirmam que as dívidas comprometem mais de 10% da renda familiar, e 26,9% relatam comprometimento superior a 50% do orçamento mensal. Em média, 33% da renda das famílias belo-horizontinas está destinada ao pagamento de dívidas.

O impacto é mais intenso entre os lares com renda igual ou inferior a dez salários mínimos. Nesse grupo, 67,3% têm contas em atraso, índice 18% superior ao verificado entre as famílias de maior renda, onde a inadimplência atinge 49,3%. Quando o recorte é a incapacidade declarada de pagar as dívidas, 31% das famílias de menor renda afirmam que não conseguirão quitar os débitos, praticamente o dobro do percentual observado entre as de renda mais alta (15,9%).

Entre as famílias com contas pendentes, 48% relatam atrasos superiores a 90 dias, aumento de 1,7 ponto percentual em relação a dezembro. O tempo médio de atraso é de 63,2 dias. Além disso, 79,8% das famílias possuem compromissos financeiros assumidos por período igual ou superior a 90 dias, e o tempo médio de comprometimento da renda chega a 8,1 meses. Ou seja, não se trata de um desajuste pontual, mas de uma pressão prolongada sobre o orçamento.

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A Peic traça mensalmente esse panorama com base em entrevistas realizadas com, no mínimo, mil consumidores em potencial da capital, todos maiores de 18 anos. A pesquisa tem margem de erro de 3,5 pontos percentuais. Os dados divulgados em janeiro de 2026 foram coletados nos últimos dez dias de dezembro de 2025.

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