Depois de um fim de semana marcado pelas cheias que se seguiram às chuvas intensas, previsão de mais temporais mantém em alerta os municípios mineiros às margens do Rio São Francisco. Nos últimos dias, a elevação do nível do rio provocou inundações, apreensão e prejuízos em cidades ribeirinhas. A situação mais grave foi registrada em São Francisco, no Norte de Minas, onde, segundo a Defesa Civil municipal, as perdas de lavouras, móveis, eletrodomésticos e animais nas localidades alagadas giram em torno de R$ 6 milhões.
O risco persiste. De acordo com o meteorologista Lizandro Gemiacki, do Instituto Nacional de Meteorologia, está previsto um grande volume chuvas durante a semana, com o acumulado devendo atingir 100 milímetros em praticamente todas as regiões mineiras. “A princípio, deveremos ter essa condição de chuva em quase toda a Bacia do Rio São Francisco no estado de Minas Gerais, o que deve contribuir para aumentar ainda mais o nível do rio”, estima Lizandro.
As águas das chuvas que caem em grande parte das regiões mineiras acabam chegando ao Rio São Francisco por meio dos seus afluentes, como o Rio das Velhas, que leva o volume da Região Metropolitana e da Região Central, e os rios Paracatu e Urucuia, no Noroeste do estado. O outro importante afluente do São Francisco, o Rio Verde Grande recebe a água das chuvas do Norte de Minas, onde nasce, mas o manancial deságua no Velho Chico no município de Malhada, no estado da Bahia.
No último fim de semana, a tensão nos municípios ribeirinhos começou ainda na sexta-feira, quando o Boletim de Monitoramento Hidrológico da Bacia do Rio São Francisco, emitido pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) apontou que a água atingia cotas de alerta e de inundação em diferentes municípios banhados pelo Velho Chico, orientando as medidas para a prevenção e segurança em casos de inundação. Em três cidades ribeirinhas situadas em Minas Gerais, o volume do rio passava a cota de alerta: São Francisco, Pedras de Maria da Cruz e Manga.
“A cota de alerta representa o nível atingido pelo rio que indica possibilidade elevada de ocorrência de inundação. Já a cota de inundação representa o ponto em que o primeiro dano é observado no município”, explica o serviço federal de monitoramento no boletim.
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A situação mais crítica foi verificada em São Francisco, cidade de 56,2 mil habitantes, onde, de acordo com a Defesa Civil municipal, o Velho Chico subiu 7,22 metros acima do seu nível normal na sexta-feira e inundou várias comunidades rurais, deixando 200 famílias desalojadas, além de causar danos materiais e financeiros.
O superintendente municipal de Defesa Civil de São Francisco, Romenig Barbosa Martins, informou que, na semana passada, várias localidades, ribeirinhas foram afetadas pela inundação do Velho Chico na zona rural do município, entre elas as comunidades de Ilha das Porteiras, ilha da União, Ilha do Victor e Lajedo.
Segundo ele, as cerca de 200 famílias dos locais inundados foram levadas para moradias na sede urbana do município.
PREJUÍZOS
“A Defesa Civil Municipal já vinha acompanhando o aumento do volume do rio e alertando todos os ribeirinhos, fazendo a retirada deles com antecedência, levando as pessoas para um local seguro”, relatou Romenig. Ele lembra que a município conta com o Núcleo de Proteção e Defesa Civil (Nupdec), que sempre orienta as lideranças de comunidades ribeirinhas sobre os alertas de inundação.
Ontem, Romenig disse que o volume do Rio São Francisco baixou, embora continue 5,94 metros acima do nível normal. Por outro lado, ele informou que Defesa Civil do Município tem um levantamento atualizado que aponta que os prejuízos financeiros sofridos pelas comunidades ribeirinhas com a enchente do Velho Chico foram elevados: chegaram a R$ 5.949.025,00, considerando as perdas de lavouras, mortes de animais domésticos e estrago de móveis e eletrodomésticos.
ESCASSEZ NAS TORNEIRAS
Por outro lado, mesmo no período chuvoso, na zona rural do município ainda há muitas famílias que sofrem com a escassez de água potável, sendo abastecidas por caminhão-pipa – consequência da seca impiedosa que castigou a região durante mais de seis meses no ano passado.
Outra cidade ribeirinha onde o volume do rio atingiu a cota de alerta do Serviço Geológico do Brasil é Pedras de Maria da Cruz, de 10,4 mil habitantes, na região de Januária. O coordenador de Defesa Civil do Município, Arielber Lima de Jesus, disse que, na sexta-feira, o nível do Rio São Francisco na cidade atingiu 7,58 metros acima do normal.
Ele assegurou que a Defesa Civil monitorou a situação nas áreas de risco, mas não constatou problemas. De acordo com Arielber, apenas duas famílias do município tiveram que deixar suas casas devido à inundação nas vias de acesso às residências. Ontem, o Velho Chico baixou para 6,20 metros acima do nível normal em Pedras de Maria da Cruz, informou Arielber.
Em Manga, cidade de 18,8 mil habitantes, segundo o coordenador da Defesa Civil, Paulo Sérgio Nunes Cerqueira, o Rio São Francisco alcançou maior volume na quinta-feira (29/1), chegando a 7,40 metros acima do nível normal, muito além da cota de alerta do SGB para o município, que é de 7m.
Paulo Sérgio salientou que a Defesa Civil do Município acompanhou a situação, fazendo o monitoramento diário do nível manancial, além de emitir alerta pelas redes sociais e manter informados pescadores e moradores ribeirinhos. Ontem, o coordenador de Defesa Civil de Manga revelou que o nível do rio na cidade se reduziu, mas ainda estava 6,69 acima do normal e que não foram registrados problemas causados pela enchente.
Em Pirapora, informa a coordenadora municipal de Defesa Civil, Carla Diana de Souza Dias, durante o mês de janeiro, partes das ilhas fluviais do Rio São Francisco – Coqueiro e Marambaia – foram inundadas devido à enchente do Velho Chico, sem maiores consequências. Na cidade também não houve problemas.
Em Buritizeiro, município separado de Pirapora pelo Rio São Francisco, ainda no dia 22 de janeiro o nível do Velho Chico “atingiu cota máxima”, informou o coordenador municipal de Proteção e Defesa Civil, Rodrigo Cardoso da Cruz. “A água chegou bem perto das casas de alguns ribeirinhos e pessoas que vivem em ilhas fluviais”, contou Cruz. De acordo com ele, a situação é monitorada pela prefeitura, com alertas aos moradores e não houve danos. “A nossa situação está bem tranquila”, assegurou. “Mas estamos aí em atenção em relação às chuvas dos próximos dias. Se tiver necessidade, nossas equipes vão atuar”, finalizou.
Pirapora e Buritizeiro não sofrem maiores problemas com enchentes do Rio São Francisco porque ambas ficam situadas acima dos pontos em que a bacia recebe os volumes dos seus principais afluentes (rios Paracatu, Velhas e Urucuia). A jusante das duas cidades, está localizada a Usina Hidrelétrica de Três Marias, que controla a vazão do manancial, por meio de suas comportas.
Balanço do estado
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Ainda a praticamente dois meses do fim do período chuvoso 2025-2026, que começou em outubro e vai até março, Minas soma 178 eventos adversos, ocorridos em 133 municípios, em decorrência dos temperais, com 68 decretos de emergência pública já reconhecidos pelo governo, aponta boletim da Defesa Civil Estadual divulgado na manhã de ontem. De acordo com o documento, 533 pessoas tiveram que recorrer a abrigos públicos e 4 mil às casas de parentes e amigos por não ter como permanecer em suas residências, destruídas ou em risco geológico. Quatro pessoas morreram e 481 mil, além dos desalojados e desabrigados, foram afetadas de alguma maneira pelos temporais, aponta o boletim.
