Após a proibição do uso de carroças em Belo Horizonte (MG), a cidade começou a testar carrinhos elétricos para substituir a tração animal no transporte de cargas. A medida prevê que os veículos sejam repassados aos trabalhadores por meio de empréstimo (comodato) e faz parte de um plano de transição que inclui capacitação, exigência de habilitação e acompanhamento social dos carroceiros. 

Desde 22 de janeiro, está em vigor na cidade a proibição do uso de carroças, conforme a legislação municipal aprovada em 2021 e atualizada posteriormente, que antecipou o fim da tração animal para 2026. A PBH afirma que a transição será feita de forma gradual, com oferta de alternativas de trabalho e apoio social aos trabalhadores que dependiam da atividade.

 

Segundo a prefeitura, cerca de 500 carroceiros já estão cadastrados no município, número que ainda deve aumentar com a abertura de um novo cadastro. O decreto prevê três frentes principais: a cessão do triciclo motorizado para quem tem ou vai tirar habilitação; apoio para acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), no caso de idosos ou pessoas com deficiência; e a oferta de cursos de qualificação profissional na área de zeladoria urbana e outras frentes de trabalho.

Para conduzir o veículo elétrico, será exigida Carteira Nacional de Habilitação (CNH), categoria moto. A prefeitura vai firmar parceria com o SEST/SENAT para custear todo o processo de habilitação, incluindo exames médicos e psicológicos, aulas teóricas e práticas e as provas no Detran-MG. A licitação para a aquisição dos veículos deve começar após a publicação do decreto, com expectativa de avanço em até 30 dias. 

O prefeito Álvaro Damião (União) afirmou que, no início, houve receio por parte dos carroceiros, que temiam perder a fonte de renda. “Muita gente pensava: ‘Será que estão pensando só no animal e não em mim?’. Isso aqui é profissão, foi com isso que muita gente cuidou dos filhos. Mas agora eles estão vendo que a prefeitura tem por eles o mesmo carinho que tem pelos animais. Eles vão perceber claramente que essa mudança é boa pra todo mundo”, disse.

Segundo Damião, além de reduzir custos, o novo modelo melhora a segurança e as condições de trabalho. “O custo de energia é de cerca de R$ 6 a R$ 7 a cada 100 quilômetros. É mais barato, mais seguro e mais eficiente do que manter um animal. O veículo é mais compacto, anda mais rápido e dá mais segurança para quem está dirigindo e para o trânsito”, afirmou. 

Os triciclos serão cadastrados e monitorados pela prefeitura para evitar venda ou repasse irregular. Sobre a aplicação de multas a quem insistir no uso de carroças, Damião explicou que existe uma liminar suspendendo as penalidades, e que o processo será feito em etapas, respeitando a decisão judicial.

O que vai acontecer com os animais?

Durante o processo de transição, a prefeitura cadastrou 612 animais, que passaram por microchipagem, vacinação e vermifugação. Os carroceiros poderão optar por manter a guarda dos animais desde que não sejam mais usados para tração, fazer a doação voluntária. Nos casos de maus-tratos ou recolhimento, uma organização da sociedade civil parceira ficará responsável pelos cuidados, sob coordenação da Subsecretaria de Bem-Estar Animal. “A gente não quer separar o carroceiro do animal. Ele pode ficar com o animal para cuidar, só não para puxar carroça. Isso, pra nós, é até prioridade”, disse o prefeito.


Como é o carrinho elétrico

O modelo testado pela PBH é fabricado pela empresa Fusco Moto Segura. Segundo o diretor e fundador da empresa, Vladimilson Reis, a autonomia média do veículo é de cerca de 100 km por carga, podendo chegar a 140 km. Dependendo do trajeto em cidades com muitas ladeiras, como Belo Horizonte, esse alcance pode ser um pouco menor. 

O carregamento pode ser feito em tomada residencial de 20 amperes. Uma carga completa consome cerca de 7 kWh e custa, em média, entre R$ 6 e R$ 8, variando conforme a tarifa de energia. O tempo de recarga é de aproximadamente cinco horas em tomada 220V. “Na prática, é difícil alguém gastar uma carga inteira em um único dia, mesmo quem roda muito, como entregadores de gás. O custo-benefício é muito bom pra quem depende do veículo pra trabalhar”, explicou.

A velocidade máxima do triciclo é de 52 km/h. O preço varia conforme a configuração e os acessórios, como tipo de carroceria ou sistema de basculamento, ficando entre R$ 55 mil e R$ 70 mil. A empresa tem atualmente oito modelos elétricos na linha. A produção leva cerca de 15 dias, mas, como a fábrica fica na Zona Franca de Manaus (AM), o prazo total de entrega pode chegar a 30 dias, considerando o transporte.

 

Transição social e urbana

A PBH afirma que a mudança busca equilibrar bem-estar animal, inclusão social e melhoria urbana. Além de reduzir o sofrimento dos animais, a prefeitura aposta que os novos veículos vão trazer mais segurança ao trânsito e melhores condições de trabalho para quem atua na coleta e transporte de materiais pela cidade. 

“Essas pessoas ajudam a cidade, participam do sistema de limpeza urbana. São parceiras da prefeitura. Agora, além de parceiras, vão ser tratadas com dignidade: sem sol na cabeça, sem chuva, com segurança e qualidade de vida”, resumiu o prefeito.

Outras experiências

Cidades no interior de Minas também já estão testando a substituição da tração animal por veículos elétricos. Em Tiradentes, no Campo das Vertentes, a prefeitura se prepara para iniciar, até o dia 27 de fevereiro, a entrega das primeiras 10 charretes elétricas. A medida marca o início da substituição definitiva da tração animal nos tradicionais passeios pelas ruas históricas do município, que vem usando um modelo circulando pela cidade desde novembro de 2024.


Já Caxambu, no Sul do estado, proibiu o uso de veículos de tração animal para passeio e transporte. A lei, sancionada neste ano, passa a valer em 4 de maio de 2026. O projeto foi discutido com os charreteiros e prevê incentivos e alternativas para que os trabalhadores permaneçam no mercado. Aqueles que atenderem às exigências legais poderão receber apoio financeiro para adquirir novos equipamentos e dar continuidade à atividade turística.

A cidade, uma das mais importantes no Circuito das Águas, vem usando carruagens elétricas em passeios-teste. Veja nos vídeos abaixo.

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