Indicado a 4 Oscars, 'O agente secreto' expõe fantasmas da ditadura
Kleber Mendonça Filho transforma cinema em trincheira e usa o suspense para criticar a Lei da Anistia e o apagamento da memória do regime militar
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Roberto Ângelo de Oliveira Souza - Especial para o EM
Há filmes que nos oferecem o quadro pronto logo no início: este é o nosso herói, este é o seu desafio, este é o destino ao qual ele deve chegar. Tudo está ali, dado de antemão, como se o espectador fosse apenas seguir as instruções de montagem de um móvel já desenhado. “O agente secreto”, que recebeu quatro indicações ao Oscar na última quinta-feira, faz justamente o contrário.
O longa-metragem de Kleber Mendonça Filho nos entrega as peças soltas, sem a imagem da tampa da caixa, e nos pede para montar o conjunto apenas pelo tato, pela intuição, pelas pequenas reentrâncias que conectam uma peça à outra. A cada cena, encaixamos algo e ainda assim seguimos sem saber exatamente o que estamos montando. É só no fim que o desenho completo se revela. E quando se revela, entendemos que ele não retrata apenas um homem perseguido, mas um país inteiro ousando olhar para os próprios fantasmas.
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O primeiro fragmento que o filme nos oferece é um homem: Marcelo. Sabemos muito pouco sobre ele quando surge na tela. Ele chega suado, atento demais aos arredores, dirigindo pela estrada como quem tenta permanecer invisível. Nada é dito, mas tudo é sugerido: há algo (ou alguém) no seu encalço. Só mais adiante o filme encaixa a peça que falta e entendemos que Marcelo, cujo nome verdadeiro é Armando, criou uma inimizade com alguém poderoso dentro do regime militar. Até lá, vemos apenas a superfície: um homem fugindo, tentando não ser visto, tentando continuar existindo.
É nesse retorno à cidade natal que ele se refugia num condomínio improvisado, uma casa segura preenchida por outras vidas igualmente ameaçadas. Ali, todos usam nomes falsos, todos carregam o peso de histórias que o regime tentou mutilar. E entre eles há uma figura que se impõe – Dona Sebastiana, interpretada com uma doçura firme por Tânia Maria (uma descoberta luminosa de Kleber Mendonça). Ela é síndica, guardiã, psicóloga, zeladora da humanidade possível naquele território clandestino. Cada gesto dela ilumina o filme por dentro.
Esse Recife que acolhe Marcelo/Armando é o mesmo Recife que Kleber vem filmando há anos: uma cidade que respira memória, que armazena camadas como um arquivo vivo. Em “O som ao redor”, era o bairro como radar de tensão. Em “Aquarius”, o prédio como último bastião contra o apagamento. Em “Retratos fantasmas”, os cinemas antigos como cavernas de lembranças. “O agente secreto”, de certa forma, combina tudo isso: é um filme sobre o passado que insiste em permanecer, sobre a cidade como corpo político, sobre fantasmas que caminham entre as ruas sem jamais terem sido devidamente reconhecidos.
E é justamente no cinema – no Cinema São Luiz, esse templo afetivo da cinefilia recifense – que o filme atinge seu coração. É ali que Kleber constrói uma das sequências mais poderosas de sua carreira. Enquanto Marcelo/Armando, no andar superior, relata aos seus benfeitores os horrores que vem sofrendo (perseguição, vigilância, ameaças de morte), no térreo a plateia assiste “A profecia”, de Richard Donner. Lá embaixo, há gritos, sustos, gargalhadas nervosas; acima, há um homem tentando transformar em palavras o terror real que atravessa sua vida. O contraste é brilhante. De um lado, o horror ficcional, com sua coreografia calculada e seus sustos catárticos. Do outro, o horror histórico, sem trilha sonora, sem montagem, sem catarse. E então o filme formula, sem dizer, uma pergunta desconcertante: o que é mais terrível – o demônio que ocupa a tela ou o Estado que obstrui a vida?
Kleber transforma o cinema em trincheira, em lugar onde a luz vence a escuridão projetando imagens na tela, mas também em espaço onde a verdade finalmente ganha forma. O cinema vira metáfora e abrigo, lugar de confronto e de memória. Essa proposta ganha ainda mais força quando percebemos que a narrativa se divide entre dois tempos: o passado de Armando e o presente de duas estudantes que encontram suas fitas e tentam reconstruir sua história.
As fitas são restos, fragmentos, sobrevivências, aquilo que sobrou quando a vida dele já havia sido arrancada pela violência política. O filme sugere que a memória não basta: é preciso trabalho, investigação, vontade de enfrentar a escuridão do passado. E essa geração que escuta as fitas representa exatamente esse gesto de não se contentar com o esquecimento oficializado.
(Para quem ainda não assistiu ao filme, alerta de spoiler na próxima parte do texto)
O que torna tudo ainda mais devastador é a forma como Kleber decide filmar, ou melhor, não filmar, a morte de Armando. Em certo momento do filme, testemunhamos a execução cruel e gráfica de torturadores do regime. Uma violência mostrada sem pudor, sem amenização, quase num tom de gore, para evidenciar a brutalidade que esses homens encarnavam. No entanto, quando se trata de Armando, o gesto é outro. Sua morte não é vista. Não há perseguição, não há tiro, não há corpo caindo em câmera lenta. Há apenas uma fotografia encontrada na internet, anos depois, por uma dessas estudantes. É um apagamento que dói. E ao mesmo tempo, uma decisão profundamente ética. Retirar de nós a cena da morte de Armando é impedir que sua vida, já tão violentada, seja transformada também em espetáculo. Kleber nos furta essa imagem para devolvê-la a ele. Se o Estado brasileiro lhe roubou o direito de viver, o cinema, ao menos, não rouba o direito de morrer com dignidade.
Tudo isso conversa diretamente com o subtexto político que pulsa no filme: a ferida aberta da Lei da Anistia. Sem discursos, sem didatismo, sem slogans, “O agente secreto” expõe algo que o Brasil insiste em não encarar: ao perdoar torturadores e torturados como equivalentes, o país optou por enterrar sua memória, por embrulhar seus traumas em silêncio, por fingir que tudo se resolveu numa assinatura de papel. Mas a história não é apagável. Os mortos não descansam. E os vivos carregam cicatrizes que não se fecham. É impossível “seguir adiante” quando não se olha para trás.
No fim das contas, “O agente secreto” soa como o filme para o qual Kleber vinha se preparando desde sempre. Ele reúne a política de “Bacurau”, a memória de “Retratos fantasmas”, o rigor de “Aquarius”, a cidade viva de “O som ao redor”. Tudo isso atravessado por uma delicadeza rara, por uma crença profunda no poder do cinema e por um compromisso moral com a memória. E talvez seja essa a peça final do quebra-cabeça: quando vemos o todo, entendemos que “O agente secreto” fala menos de 1977 e mais de hoje, de um país que sempre esteve à beira de repetir seus piores erros porque nunca se deu ao trabalho de compreendê-los plenamente. O filme, então, é um memorial, uma advertência e um ato de resistência. Ele ilumina o que tentaram manter na sombra. E é justamente nisso que reside sua grandeza.
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ROBERTO ÂNGELO DE OLIVEIRA SOUZA é graduado em Comunicação Social pelo UniBH, mestre e doutorando em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG, com pesquisa dedicada à obra do cineasta Kleber Mendonça Filho