Larissa Leão - Especial para o Estado de Minas
A volta de ‘A burrice do demônio’ ao horizonte dos leitores é mais do que um gesto editorial — é a reabertura de uma ferida luminosa no coração do Brasil. Reabre o que estava silenciado, uma dor nacional, as injustiças, as desigualdades, as repressões políticas e sociais, e, ao mesmo tempo, traz à tona uma claridade crítica, uma consciência transformadora. O livro toca em uma ferida, mas em uma ferida que, exposta à luz, pode se converter em possibilidade de cura, de consciência, de ação. Não se esgota na conjuntura em que foi escrito, pois incide sobre uma matéria essencial e permanente, a paixão pela verdade, pelo pensamento crítico, pelo direito de sonhar e insurgir-se contra as forças que obscurecem a vida.
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Nos artigos que compõem a coletânea, arde uma comunhão de paixões — a psicanálise, o marxismo, a Teologia da Libertação, a literatura e a política como horizonte de justiça. Em todas elas vibra a busca incessante do Outro, entendido aqui como alteridade radical, como se cada linha fosse um modo de interrogar o mundo e de convocar sua claridade. Essa bagagem intelectual e afetiva faz da obra um verdadeiro protesto, em que pensamento e poesia se entrelaçam, sem jamais se afastar da vida concreta do povo brasileiro. Sempre haverá, por sorte nossa, homens e mulheres que recusam a apatia, que desejam mais do que a repetição da mesmice, que anseiam por um país mais justo e por uma vida mais plena. Contra a burrice organizada e institucionalizada, a palavra se levanta como claridade insubmissa. Sempre haverá, portanto, leitores de ‘A burrice do demônio’, para o bem de seu autor e para a felicidade de todos os que leem encontrem coragem e alimento para a árdua tarefa da construção da alegria e da esperança.
(...) Em suas páginas, encontramos um intelectual que recusou a compartimentação das disciplinas, preferindo a circulação viva entre clínica, filosofia, teologia, literatura e política. O que daí brota não é um saber fragmentado, mas uma escrita que respira liberdade e que insiste em lançar luz sobre o espetáculo do mundo, mesmo quando esse espetáculo é doloroso, contraditório e brutal. Se há uma dificuldade de escrever este texto, ela se deve também ao caráter intempestivo da obra do escritor. Ler Hélio Pellegrino hoje é perceber como sua voz foi silenciada por longos 36 anos — e, ao mesmo tempo, reconhecer a atualidade desarmante de seus textos. Reabrir estas páginas é como abrir janelas que estavam cerradas, permitindo que entre novamente o ar fresco de sua reflexão e a claridade de sua indignação. Prefaciar o livro é, assim, afirmar em praça pública que a psicanálise pode e deve ser um instrumento de justiça social — ciência viva a serviço do povo e da democracia. É recusar o confinamento da clínica a um território elitista e afirmar sua vocação de transformação coletiva. O reconhecimento de sua obra é também oportunidade de visibilidade ao patrono da Psicanálise Brasileira Socialmente Compromissada — figura que encarnou com inteireza a fidelidade à escuta do sofrimento humano e teve a coragem de confrontar os poderes que produzem esse sofrimento. Nessa tarefa, ele foi, e continua sendo, um dos nossos maiores baluartes.
Que o leitor perceba que a psicanálise não é prática enclausurada em consultórios ou bibliotecas herméticas — mas campo fértil de democracia, de encontro humano e de transformação social. Cada artigo é convite a compreender que a escuta, quando enraizada na dignidade humana, é também ato político e exercício de liberdade. É por isso que sua obra pode ainda hoje ajudar a sociedade, pois resgata uma psicanálise que não se isola, mas se lança ao mundo para enfrentar suas feridas, analisando e denunciando desigualdades com lucidez ímpar e defendendo a democracia.
(...) O leitor encontrará em Hélio Pellegrino uma escrita re fratária a classificações fáceis — ao mesmo tempo teórica, literária e teológica. Sua prosa se organiza no formato do en saio — gênero que lhe serve de abrigo e campo de experimentação. Escreve de modo assistemático, como quem parte do aforismo, condensando em cada texto não apenas ideias, mas princípios que carregam o núcleo de uma ciência e de uma ética. Há em sua obra o gesto de quem retoma e simultaneamente desconstrói fundamentos: a psicanálise, o marxismo, a filosofia e a Teologia da Libertação reaparecem e são postos à prova diante de temas polêmicos da atualidade, sempre atravessados por seus efeitos éticos, implicações políticas e desdobramentos sociais.
Nessa escrita, o aforismo não é ornamento — mas chave, centelha que ilumina e abre caminhos de pensamento. Por isso, ao acompanhar seus ensaios, não se lê apenas um psicanalista ou um militante político, mas um pensador que interroga e relança as próprias condições de possibilidade de uma psicanálise brasileira, socialmente compromissada e literariamente bela, aberta ao diálogo entre saberes e capaz de transfigurar o rigor científico em experiência estética. É essa tensão entre crítica e poesia, entre rigor e liberdade, que faz de sua obra um lugar fecundo para pensar tanto as dimensões da subjetividade quanto as contradições históricas do país.
Entre o riso que resiste e o pranto que denuncia, revela-se não apenas o homem que se insurgiu contra as violências de sua época — gesto que selou sua saída da psiquiatria e sua escolha pela psicanálise — mas também uma experiência que convoca o leitor a partilhar da intensidade de sua vida, em que afeto, clínica, crítica social, lucidez intelectual e poesia se entrelaçam (...). Que o leitor atravesse estas páginas como quem cruza um território de coragem, em que a escrita ousa lançar claridade sobre a sombra. Ler Hélio Pellegrino é aceitar a travessia de uma palavra que não se rende, que insiste em interrogar, em denunciar, em poetizar. É perceber que o impossível, quando nomeado, pode se transfigurar em horizonte de liberdade.”
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LARISSA LEÃO é psicóloga e psicanalista, autora de “Hélio Pellegrino: por uma psicanálise política” (Appris Editora)
