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Raul Jungmann, ex-ministro de dois governos, morre aos 73 anos-lugardafinancas.com
LUTO NA POLÍTICA

Raul Jungmann, ex-ministro de dois governos, morre aos 73 anos

O pernambucano fez seis meses de quimioterapia, que lhe roubaram vitalidade e o paladar, uma de suas raras queixas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Jovem opositor da ditadura de 1964, membro do finado Partido Comunista Brasileiro, vereador, deputado, ministro destacado de dois governos, executor de uma reforma agrária que desagradou a ruralistas e ao MST, esquerdista com confiança do Exército, golpista de direita para o PT, operador de bastidores.

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Morto neste domingo (18/1) aos 73 anos, em Brasília, Raul Belens Costa Jungmann Pinto trazia consigo os epítetos acima e outros mais. Sua maleabilidade de camaleão político e capacidade negociadora era admirada por aliados e desprezada como falta de coerência por detratores.

Jungmann foi figura carimbada do noticiário político nacional desde os anos 1990, quando virou a cara da reforma agrária do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Sua trajetória até então havia sido no campo da esquerda, iniciada em casa.

Seu pai, Sylvio Jungmann da Silva Pinto, era um jornalista no Recife, onde Raul nascera em 1952. Após o golpe de 1964, sua militância à esquerda o levou a deixar a cidade e migrar para São Paulo, mas o filho ficou na capital pernambucana.

Filiou-se em 1974 ao antigo MDB, mas na cota dos militantes comunistas da sigla que abrigava a oposição formal ao regime. Em 1976, começou a cursar psicologia na Universidade Católica, mas não se graduou, preferindo a atuação política.

Já em 1980, com a abertura que levaria ao fim da ditadura cinco anos depois, ele filiou-se ao agora legalizado Partido Comunista do Brasil e passou a década trabalhando como consultor e dirigindo ONGs.

Jungmann brincava que "quem foi comunista nunca deixa de ser" e gostava de mandar figurinhas no WhatsApp a interlocutores que remetiam àquele tempo, como várias versões do líder soviético Lênin em poses engraçadinhas.

Responsável pela reforma agrária

Chegou à vida pública de fato em 1990, quando assumiu a Secretaria de Planejamento de seu estado. Três anos depois, chegava a Brasília. De 1993 a 1995, foi número 2 do Ministério do Planejamento. Chamou a atenção de Fernando Henrique Cardoso, chefe da Fazenda até 1994, com quem passou a conversar frequentemente. Presidente, o tucano o convidou para chefiar o Ibama.

No órgão, ganhou fama de negociador duro com grileiros, sendo elevado em 1996 ao posto de ministro responsável pela reforma agrária, onde ficou até 2002. Chegou na esteira do massacre do Eldorado do Carajás (PA), um dos períodos mais tensos no campo.

Foi efetivo em termos de assentamentos realizados, o que, somado à sua origem na esquerda, o fez ser pintado como um inimigo pelos ruralistas do Congresso. Já os sem-terra, sempre em conflito para pressionar FHC, não lhe davam trégua.

Elegeu-se em 2002 deputado pelo PPS, sucessor do PCB que havia ajudado a fundar com o também recifense Roberto Freire, um de seus padrinhos políticos, de quem se distanciou. Seu partido apoiava o primeiro governo Lula, mas Jungmann pregava independência.

"Boa fonte"

Virou um animal brasiliense de vez, com longa passagem na Câmara (2003-11 e 2015-16). Era aquilo que os jornalistas chamam de "boa fonte": sempre acessível e com interlocuções variadas, mesmo quando fora do poder.

Parte disso vinha do berço, parte dos anos de seu relacionamento com a então diretora da Globo na capital, Silvia Faria. Antes disso, fora casado com Patrícia, com quem teve os filhos Bruno e Júlia.

Adorava contar histórias e protagonizava algumas - ficou famosa a vez em que apartou a briga de um deputado petista com um colega de edifício funcional, futuro ministro, que exagerava nas estripulias sexuais.

Entre os dois períodos em Brasília, teve uma breve passagem como vereador no Recife. Na Câmara como suplente, aproximou-se do então vice-presidente Michel Temer, que já conhecia da Casa.

Participou ativamente da oposição à titular do Planalto, Dilma Rousseff, e assinou um dos pedidos que seu amigo Gilmar Mendes (Supremo) julgou procedente ao impedir a posse de Lula como chefe da Casa Civil da petista, buscando fugir das garras da Operação Lava Jato.

Ele mesmo figurou na famosa lista de propinas pagas a políticos pela antiga Odebrecht, mas o caso acabou arquivado.

Militares no poder

Não votou, contudo, pelo impeachment de Dilma por ser suplente. Temer o chamou para a espinhosa missão de comandar a Defesa. Ficou próximo do poderoso comandante do Exército de então, Eduardo Villas-Boas, o pai da volta dos fardados à política sob Bolsonaro.

Ela aconteceu, admitia Jungmann, devido à fraqueza política do governo Temer. A seu lado, ganhou peso o general Sérgio Etchegoyen, que ocupava o Gabinete de Segurança Institucional e seria seu parceiro em iniciativas privadas.

Passado o primeiro ano no cargo, Jungmann recebeu em 2018 um abacaxi ainda mais espinhoso para descascar: foi deslocado para o recém-criado Ministério da Segurança Pública, com a missão de coordenar a intervenção na segurança pública do Rio.

Os resultados foram decepcionantes, como ele mesmo dizia de forma reservada, e de quebra sob sua guarda houve o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, o mais rumoroso crime político dos últimos anos.

Jungmann se queixava da morosidade da polícia e da Justiça, infiltradas pelo que ele chama de "metástase do Estado paralelo" - as milícias, o narcotráfico e seus prepostos na política.

Ativo nos bastidores

Deixou o governo e teve papel bastante ativo nos bastidores dos quatro anos da turbulência encarnada em Jair Bolsonaro (PL), a quem nunca apoiou. Seu conhecimento dos meandros da caserna, do Supremo, do Congresso e do Planalto o tornou uma espécie de bombeiro informal durante crises.

A partir da inédita crise que derrubou a cúpula militar em 2021, sua influência refluiu, e voltou-se para o setor privado. Nunca abandonou o tema e, em um artigo publicado pela Folha em 2021, desenhou o risco de um cenário golpista muito próximo dos eventos do 8 de Janeiro.

Em 2023, assumiu a presidência da associação das mineradoras, com a missão dupla de tirar o estigma do setor na área ambiental e acompanhar as iniciativas legais sobre a tragédia de Brumadinho (MG). Operou ativamente no campo até o fim da vida, inclusive no julgamento sobre o caso em Londres.

Em meados de 2024, incomodado por duas hérnias, passou por uma bateria de exames e descobriu tumores no pâncreas e no peritônio. Em tratamento, assumiu a coordenação de conversas sobre o novo regramento legal dos militares, algo inconcluso, junto ao amigo e sucessor José Múcio (Defesa).

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Fez seis meses de quimioterapia, que lhe roubaram vitalidade e o paladar, uma de suas raras queixas. Passou para os hormônios e apresentou melhoras pontuais, mas, ao longo de 2025, o tratamento passou a ser paliativo. Deixa os filhos e Natalie, com quem vivia em Brasília.

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