
S�bado passado, o sol nasceu castigando. De tanto fogo nas matas e fuma�a escura, o c�u n�o estava cruzeirense. O azul n�o resplandecia no horizonte. Mas enquanto a tarde n�o vinha, com a anunciada derrota para o Flamengo, gastei o tempo na zona rural da pacata Ipoema refletindo sobre o motivo de, mesmo em meio a tanta tristeza e revolta pela situa��o ca�tica em que jogaram o nosso Cruzeiro, n�s n�o deixarmos de am�-lo nem um segundo sequer.
Em meio � secura e a busca por respostas, vi surgir na porteira da fazenda Marco Ant�nio, um velho conhecido. Vinha ladeado pelos filhos Bebeto e o pequeno Jo�o. O segundo, chuteira aos p�s, mei�o na altura da canela e os olhos brilhando em busca de divers�o. Queria jogar futebol. Pedia a bola. Antes de lhe entregar, o pai pediu: “Jo�o, canta para o amigo do papai aquela m�sica”.
Sob o olhar fraternal da vov� Eunice, na janela do casar�o, Jo�o fungou o nariz, buscou f�lego e soltou a voz infantil para encher de m�sica o terreiro: “Existe um grande clube na cidade / que mora dentro do meu cora��o / eu vivo cheio de vaidade / pois na realidade � um grande campe�o”.
Aplaudi o pequenino cruzeirense e vi seu pai, orgulhoso, sorrir como se comemorasse um gol. No mesmo instante, fiquei a imaginar o que meu velho pai pensou quando me pegou pelas m�os, em 1987, e tomou a decis�o de me levar pela primeira vez ao Mineir�o e, subjetivamente, dizer: “Vai, filho, vai ser um cruzeirense apaixonado”.
Aprendi a ter orgulho do quanto meu pai � cruzeirense. Da� me veio a resposta para a minha inquietude daquela manh� quente em Ipoema: est� nesse orgulho – de pai para filho – a chance do nosso Cruzeiro ressurgir. Dentro do campo, ainda h� de existir em cada um dos jogadores um momento em que se perguntar�o: “Quanto orgulho meus filhos sentem de mim exatamente pelo que fiz vestindo essa camisa do Cruzeiro?”.
O orgulho de Pablo e Valentina pelo super-her�i que o papai F�bio se tornou sendo o jogador que mais vestiu a camisa inca�vel do Cruzeiro.
Quantas vezes o gigante Ded�, com o joelho costurado, ninou seu pequeno Gabriel com olhos vidrados na TV sem poder fazer nada al�m de... torcer e ter orgulho.
O que dizer do l�der Henrique, que com seu carisma e educa��o para defender o manto sagrado, inspirou suas filhas a acreditarem em seus pr�prios talentos.
Orgulho de um papai Sass�, que um dia pegou emocionado o celular e filmou os pequenos Murilo, Gael e Luizinho brincando e cantarolando o hino composto pela negritude de Jadir Ambr�sio. Sim, Sass�, seus filhos ter�o orgulho por ter visto a favela vencer por meio do seu trabalho com a camisa do Cruzeiro.
Maria Carolina e Bernardo, que sempre se orgulharam por ter um papai Thiago Neves alegre e brincalh�o pelos t�tulos conquistados com a camisa azul. O mesmo orgulho da J�lia pelo Eg�dio; da Vit�ria pelo Pedro Rocha; do Kau� pelo Robinho e do Eduardo, que ainda vir� ao mundo para bater palmas para o papai Rodriguinho correndo com as cinco estrelas estufadas no peito.
Por esse legado do meu velho pai, do Marco Ant�nio, do F�bio, do Ded�, do Henrique e de outros milh�es de pais celestes, seguirei amando esse clube. Estarei em todos os jogos. Gritando, cantando a m�sica de Jadir Ambr�sio, empurrando as cinco estrelas.
Quanto aos jogadores, sabemos que quase nenhum deles nasceu cruzeirense, como eu e o pequeno Jo�o, mas quase todos eles hoje, de certa forma, ainda podem olhar para seus filhos e ver o orgulho estampado em seus rostos exatamente pelas hist�rias pessoais constru�das, boa parte defendendo essa institui��o chamada Cruzeiro Esporte Clube.
Dos covardes e omissos da diretoria e do Conselho Deliberativo que se protegem e nos destroem n�o espero absolutamente nada. Mas de quem tem honra e hist�ria por preservar ainda espero luta.
Por isso, para a caminhada que se inicia no jogo de logo mais contra o Cear�, fica meu �ltimo pedido ao nosso escrete: enquanto n�s cantarmos de amor pelo clube de nossos pais, joguem pelo orgulho de seus filhos. S� isso.
