
Um dos grandes zagueiros do futebol brasileiro, campe�o em todos os clubes que passou, Proc�pio Cardoso completa amanh� 80 anos. Para ele, � momento de recordar a carreira, como jogador – participou das duas primeiras conquistas expressivas do futebol mineiro em n�vel nacional: o Brasileiro de Sele��es, com a camisa de Minas Gerais, em 1963; e a Ta�a Brasil, com o Cruzeiro, em 1966 – e treinador. Proc�pio dirigiu os tr�s da capital sendo que, no Atl�tico, est� atr�s apenas de Tel� Santana entre os t�cnicos que mais comandaram a equipe. Nesta entrevista ao Estado de Minas, ele relembra momentos importantes de sua trajet�ria, como a contus�o que sofreu em lance com o Rei do Futebol: “Pel� foi maldoso comigo, quebrou minha perna”.
O come�o
Meu pai era procurador de Justi�a, em Salinas. Depois que ele morreu, eu, que era arrimo de fam�lia, vim pra BH, trabalhar e estudar. Surgiu a chance de jogar no juvenil do Renascen�a. Eu era ponta de lan�a. Quando o time profissional do clube estava sendo montado para o Mineiro de 1958, o ex-volante G�rson dos Santos, que foi meu �dolo no Botafogo, foi contratado como t�cnico. Resolvi que veria a apresenta��o dele. Quando cheguei, estavam s� o presidente Alcides Diamantino e o seuVicente, t�cnico do juvenil, na arquibancada. Assentei-me com eles. Nada de o treino come�ar. O G�rson dos Santos se aproximou e disse que faltavam jogadores, justamente dois beques. O seu Vicente sugeriu que eu completasse o grupo e o presidente incentivou. O roupeiro Cristiano veio com o uniforme. Para minha surpresa, meu parceiro de zaga foi o G�rson dos Santos, que meu deu dicas o tempo todo. Virei zagueiro.
Rev�lver
Em 1966, estava no Atl�tico. Vencemos o Renascen�a por 2 a 0, s� que o Cruzeiro tinha goleado por 5 a 0. A torcida n�o aceitou, nem alguns dirigentes. Depois do jogo, um deles foi ao vesti�rio e disse que n�o ir�amos receber o bicho pela vit�ria e que t�nhamos de nos apresentar �s 7h, em Lourdes, para aprender a jogar. Eu era o capit�o e disse que quanto ao bicho, tudo bem, mas que ningu�m treinaria �s 7h. Na sa�da, um convidado do Atl�tico tentou me agredir. No dia seguinte, um emiss�rio da diretoria foi � minha casa e disse que eu tinha de ir ao clube, todos os jogadores estavam l�. Botei um terno e peguei o rev�lver que tinha sido do meu av�. Um cara invadiu o vesti�rio, para me bater. Ent�o, eu disse bem alto que, se ele estivesse sozinho, bateria nele. Mas se fossem mais, mostrei a arma, seria na bala. O cara desapareceu, por�m, no Galo eu n�o podia mais ficar. Recebi um telefonema do presidente do Cruzeiro, Fel�cio Brandi, que disse que ia me contratar. E ele fechou o neg�cio.
Tima�o celeste
Quando cheguei ao Cruzeiro, fiquei maravilhado. Tost�o e Dirceu Lopes eram incr�veis. Ainda tinha Piazza, Evaldo, Neco, Natal, Hilton Oliveira, Raul... Estava novamente com meu concunhado, William. Um time desconhecido no Brasil, que acabou campe�o nacional batendo o Santos de Pel� duas vezes, em BH e em S�o Paulo. Foi demais. Antes do jogo, falei com o nosso t�cnico, Airton Moreira, que quem tinha de marcar o Pel� era o Piazza e que eu e William, os beques, ficar�amos na sobra. Aprendi isso no S�o Paulo, no Fluminense e no Palmeiras, quando enfrentava o Santos. Mas ele n�o quis ouvir. Mesmo assim, vencemos.
Contus�o e retorno
Pel� foi maldoso comigo, quebrou minha perna. Pegou no joelho esquerdo. N�o me lembro do momento direito, pois desmaiei. Quando acordei, estava no hospital. A dor era insuport�vel. Minha r�tula tinha parado na coxa. Fui operado mais de uma vez. Queria voltar, mas parecia imposs�vel. Resolvi estudar educa��o f�sica. E l�, fui me adequando ao problema do joelho. Reuperei movimentos e elasticidade. No fim, estava disputando o campeonato da UFMG. Jogava de atacante. Entrei para o Rapos�o, time de conselheiros do Cruzeiro. Eles foram ao Fel�cio pedindo para que eu fizesse um teste para voltar ao profissional. Deram-me a chance. No primeiro jogo, contra o Vasco, no Maracan�, tive muito apoio do Perfumo e do Z� Carlos. Na primeira bola, dei uma caneta em Roberto Dinamite. Ganhei o pr�mio de melhor em campo, dado por ningu�m menos que Jo�o Saldanha.
Desejo de vingan�a
O jogo seguinte seria no Pacaembu, contra o Santos. O que eu mais queria era me vingar do Pel�. Pularia com os dois p�s nos joelhos dele. Eu dividia o quarto com o Z� Carlos e sempre fui religioso. A� o Z� Carlos me questionou: “Que neg�cio � esse de ler a B�blia e querer quebrar o Pel�?”. Tentei argumentar, mas ele me passou uma descompostura. Foi melhor pra mim. Dormi uma noite tranquila. No dia seguinte, o Pel� me cumprimentou e pediu desculpas. E eu o perdoei.
O t�cnico
Virei treinador no Cruzeiro, em 1977. Era a final contra o Atl�tico, em melhor de tr�s. O Galo venceu o primeiro jogo, 1 a 0. O Fel�cio me chamou na sala do Yustrich, que era o treinador, e me perguntou o que eu achava que era necess�rio para vencer o cl�ssico. Disse que Eduardo e Jo�ozinho n�o tinham de ficar defendendo. Que Nelinho precisava ter liberdade para atacar. E que tinha de anular Cerezo, Paulo Isidoro e Reinaldo. O Yustrich ficou uma fera. O Fel�cio, ent�o, disse que n�o o demitiria, pois ele tinha problemas financeiros, mas que eu trabalharia junto dele. Nada seria oficializado. Eu escrevia as instru��es e ele, o Fel�cio, lia para os jogadores. O Yustrich s� ficava no banco. Depois do Mineiro, fui efetivado.
