
No cl�ssico Por um punhado de d�lares (1964), de Sergio Leone, o pistoleiro vivido por Clint Eastwood chega ao conflituoso condado de San Miguel montando uma mula. Em um das cenas mais emblem�ticas, bandoleiros locais atiram nas patas do bicho, que foge, assustado, deixando-o a p�. Ele ordena que os atiradores se desculpem e, diante da negativa debochada, o ent�o jovem gal� do faroeste executa os quatro homens com r�pidos disparos. Cinquenta e cinco anos depois, aos 88 de idade, Eastwood lan�a A mula, que ele dirige e protagoniza. O longa estreia nesta quinta (14) em Belo Horizonte. Desta vez, no entanto, o animal � uma figura de linguagem.
No vocabul�rio do narcotr�fico, “mula” � o contratado para transportar cargas do produto. A mula do t�tulo � interpretada pelo pr�prio Eastwood, numa hist�ria baseada em fatos reais. O roteiro de Nick Schenk, que assina tamb�m Gran Torino (2008), partiu da reportagem “A mula de drogas de 90 anos do cartel de Sinaloa”, publicada em 2014 pelo jornalista Sam Dolnick no New York Times.
Embora se chame Earl Stone no filme, o personagem ecoa a trajet�ria de Leo Sharp. Veterano da Segunda Guerra Mundial, ele tem uma vida pacata como horticultor no estado de Illinois. Est� “quebrado” financeiramente e renegado pela fam�lia, que nunca foi sua prioridade. Velho, solit�rio, mas bom conhecedor das rodovias norte-americanas e disposto a provar a si mesmo e aos parentes algum valor, ele aceita a arriscada oferta de trabalho de levar volumes cada vez maiores de coca�na da fronteira com o M�xico at� o Norte do pa�s.
Em seu caminho, surge o agente Colin Bates, do Departamento de Narc�ticos. O papel � de Bradley Cooper, que Eastwood j� dirigira em Sniper americano (2014), outro drama inspirado em fatos reais. Muito pressionado por superiores (Laurence Fishburne vive um deles) quanto a resultados, pris�es e apreens�es, ele se dedica incansavelmente a rastrear as movimenta��es do cartel. Este, por sua vez, funciona em uma rotina de trucul�ncia e amea�as, enquadrando tamb�m o d�cil contraventor protagonista.
ENVELHECIMENTO
Classificado pelo pr�prio ator e diretor como “algo diferente de tudo que j� fez”, em um depoimento para v�deo promocional divulgado pela Warner, Clint usa a inesperada hist�ria de Leo Sharp para falar sobre envelhecimento. Nessa sua primeira atua��o desde Curvas da vida (2012), seu personagem faz um senhor boa-pra�a, que n�o entende as novas tecnologias, critica a depend�ncia dos mais jovens em rela��o aos telefones celulares e apresenta v�cios em antigos termos preconceituosos contra minorias sociais. Ainda assim, mostra disposi��o e vitalidade para se divertir �s custas do controverso “trabalho”. O bom dinheiro que ganha ele usa para ajudar na gradua��o da neta, �nica de sua fam�lia que ainda o quer bem.
A boa forma para dirigir e atuar aos 88 anos desse que � um dos artistas mais admirados do cinema norte-americano impressiona. Embora todos os traficantes da hist�ria, exceto o protagonista, sejam mexicanos e caracterizados dentro de um estere�tipo t�o batido em Hollywood quanto problem�tico por sua representatividade nos dias atuais – sobretudo para algu�m ligado ao Partido Republicano na era de Donald Trump, como � o caso de Eastwood –, A mula tem sido um sucesso. A cr�tica americana tem sido acolhedora. A Variety, por exemplo, classificou o filme como “uma hist�ria engra�ada de um velhote casualmente racista, um personagem problem�tico que o diretor Clint Eastwood sabe exatamente como tornar encantador”.
Lan�ado nos EUA em 14 de dezembro, foi a quinta maior bilheteria daquele m�s, arrecadando US$ 102 milh�es. O resultado � o quarto maior entre todos os filmes que Eastwood dirigiu e o segundo maior para um em que atuou, ao longo de sua longeva carreira, iniciada ainda nos anos 1950.
