
Trocar versos e falar sobre a import�ncia social, cultural e educativa desta express�o art�stica popular que � a literatura de cordel, hoje tombada pelo Instituto Hist�rico e Art�stico Nacional (Iphan) como patrim�nio imaterial do Brasil. Esse � um dos prop�sitos do “Encontro virtual com poetas populares”, que reunir� todos os s�bados de mar�o e abril, sempre �s 16h, 16 cordelistas de diferentes gera��es e regi�es brasileiras.
O curador do evento, Fernando Assump��o, garante que n�o � de hoje que a literatura de cordel faz seu cora��o bater na cad�ncia das rimas. Ele conta que, em 2010, atuava na equipe que batalhou, junto ao Iphan, para emplacar, em 2018, o cordel como patrim�nio imaterial da Brasil.
Agora, Assump��o sonha em tocar a Amo Cordel, associa��o fundada pelo pr�prio e j� repleta de projetos que valorizam a manifesta��o cultural. A literatura de cordel teve in�cio em Portugal, no s�culo 12, com os trovadores medievais. “Ela � uma arte em constante renova��o. Estamos animados em trazer um bem cultural desse quilate para o formato das lives, um jeito de continuar falando com as pessoas nesta crise sanit�ria mundial.”
Ele esclarece que o encontro ser� alinhavado em oito temas, com dois artistas por vez, em conversas ao vivo, mediadas por estudiosos e conhecedores deste universo. Assump��o ressalta que, para muitos, al�m do entretenimento, a literatura de cordel se consolidou no Brasil como uma express�o art�stica socioeducativa. “Com a sua linguagem simples e acess�vel, mas tamb�m artisticamente sofisticada, o cordel conta hist�rias e dissemina informa��es relevantes para popula��es inteiras em diversos recantos do pa�s.”
Assump��o explica que o cordel traz uma fun��o pol�tica em sua g�nese, pois viabiliza a compreens�o da realidade e das novidades que chegam a esses lugares. “Em Portugal, servia para informar os analfabetos.” O curador, que atua na �rea h� 15 anos, revela-se admirador da cultura popular. “Qualquer uma delas me atrai e o cordel � sofisticado, porque n�o � s� imprimir folhetos, tem todo um rigor, � como se fosse um soneto. S� � cordel se tiver m�trica, rima e ora��o, n�o � algo que s� tem est�tica. A po�tica dele sempre me atraiu, do ponto de vista da literatura e como g�nero liter�rio. O cordel tamb�m transita pelo l�dico, o jocoso e o duplo sentido e valoriza a cultura e a personalidade.”
O encontro tamb�m abordar� a produ��o contempor�nea e discutir� o mito de que o cordel � nordestino. “Ele � uma manifesta��o brasileira, embora tenha tido grande repercuss�o no Nordeste, at� por conta de algumas quest�es sociais que fizeram com que ele se adentrasse um pouco mais naquela regi�o. Ele n�o est� muito representado no Sul de Minas, pois a m�xima dele � no Nordeste e em estados como o Rio de Janeiro e S�o Paulo.”
Produ��o feminina
Com participa��o marcada para 27 de mar�o, a cordelista Ros�rio Pinto falar� sobre a produ��o feminina na literatura de cordel. “Era um universo de homens e no qual a mulher n�o tinha vez, pois ela era o objeto do poeta, a musa inspiradora. Pouco a pouco, ela come�ou a escrever, mas ainda de forma t�mida. E a escrita dela foi evoluindo at� chegar hoje, quando conquistou uma fatia desse universo da literatura de cordel.”
Ros�rio dividir� a pauta com a poeta cearense Josenir Lacerda. “Sou maranhense, mas moro no Rio de Janeiro. Meu pai tinha um forte interesse liter�rio, lia muito, e entre as suas leituras estavam os poetas populares. Fui tomando conhecimento, mas ainda muito en passant, pois ainda era crian�a.”
Depois que cresceu, Ros�rio continuou com interesse de ler sobre o cordel e passou a frequentar a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. “Comecei a escrever sobre temas que chamavam a minha aten��o e pesquisando autores. Escrevi um folheto que se chama “O poeta e o folheteiro”, no qual explico quem � o poeta de cordel, quais os da primeira metade do s�culo 20 e quais as influ�ncias deles na forma��o dos novos.” Segundo Ros�rio, o folheteiro era o sujeito que vendia os folhetos em feiras livres, eventos e portas de igrejas.
Poeta cordelista da Academia Brasileira de Literatura e da Academia Alagoana de Literatura de Cordel, William J. G. Pinto se apresenta neste s�bado (6/3), �s 16h. “Nasci em Palmeira dos �ndios (AL) e conheci o cordel em uma feira que havia todo s�bado em minha cidade, onde se reuniam poetas, cordelistas, folheteiros e at� vendedores de ervas milagrosas. Era uma feira normal de cidade do interior.”
Quando terminou o ensino m�dio, William se mudou para Macei�, onde cursou odontologia. “L� comecei a dar as minhas primeiras pinceladas na escrita do cordel, ainda na �poca da ditadura militar. Terminei o curso em 1975, e me mudei para o Rio de Janeiro no ano seguinte. E foi na Cidade Maravilhosa, l� pelos anos 1980, que tomei conhecimento da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e comecei escrever folhetos.”
O primeiro cordel escrito por Wiliam se chamava “A hist�ria de Ritinha”. “Contava a vida de uma menina que saiu de Palmeira dos �ndios e foi morar no Rio de Janeiro, onde conheceu a droga e a prostitui��o. Ela acaba perdendo a virgindade para um pol�tico que a enganara. Depois disso, mergulhou nas drogas e na prostitui��o. � uma hist�ria que foi at� encenada no teatro”, orgulha-se o cordelista.
ENCONTRO VIRTUAL COM POETAS POPULARES
Todos os s�bados de mar�o e abril, sempre �s 16h, com transmiss�o pelo Instagram e YouTube do evento
>> S�bado (6/3) – “Cantoria e causos populares”, com Ivamberto de Oliveira e Willian J. G. Pinto. Media��o: Geraldo Arag�o, poeta e pesquisador de cultura popular
>> 13/3 – “Lendas e mitos brasileiros”, com Jo�o Batista Melo e Sepalo Campelo. Media��o: C�scia Frade, professora e pesquisadora de cultura popular
>> 20/3 – “Os poetas e a produ��o da literatura de cordel no Nordeste para al�m do canga�o”, com Kl�visson Viana e Anilda Figueiredo. Media��o: Cl�udia M�rcia Ferreira, diretora do
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
>> 27/3 – “Produ��o feminina na literatura de cordel”, com Ros�rio Pinto e Josenir Lacerda. Media��o: Beth Costa, pesquisadora do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
>> 3/4 – “Patrim�nio imaterial: cordel, capoeira e samba”, com Victor Lobisomem e Severino Honorato. Media��o: M�nica da Costa, assessora de patrim�nio imaterial do Iphan RJ
>> 10/4 – “O romance na literatura de cordel”, com Moreira de Acopiara e Jos� Valter Pires. Media��o: Carolina Nascimento, pesquisadora do Observat�rio do Patrim�nio Cultural do Sudeste
>> 17/4 – “A literatura de cordel, a gaiatice e o jocoso”, com Dalinha Catunda e Lindic�ssia Nascimento. Media��o: Fernando Assump��o, curador do Encontro Virtual com Poetas Populares
>> 24/4 – “Cordel da contemporaneidade”, com Rosilene Melo e Z� Salvador. Media��o: Ricardo Lima, professor do Instituto de Artes da UERJ
