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Estado de Minas POL�TICA

'Vou viver comigo mesmo', diz Temer sobre seu futuro pol�tico

Menos de dois dias para deixar o cargo, Temer disse que aposta na "continuidade" de sua gest�o pelo governo Bolsonaro


postado em 30/12/2018 14:53 / atualizado em 30/12/2018 16:33

(foto: Antonio Cruz/Agência Brasil )
(foto: Antonio Cruz/Ag�ncia Brasil )

Poucas horas antes de deixar seu gabinete, no 3.º andar do Pal�cio do Planalto, o presidente Michel Temer ainda tinha ao seu lado, perto da mesa de trabalho, uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida moldada no vidro. "Vou viver comigo mesmo", afirmou ele ao jornal O Estado de S�o Paulo, quando questionado sobre o seu futuro.

Dono de alta impopularidade, Temer disse n�o acreditar que seu sucessor, Jair Bolsonaro, destrua o que foi feito at� agora sob sua gest�o e apostou na "continuidade", com adapta��es. "A gente est� saindo da Presid�ncia. A festa n�o � mais minha, n�o �?"

De perfil semipresidencialista, o vice que assumiu o Planalto em 2016, ap�s o impeachment de Dilma Rousseff, v� dificuldades para mudan�as na rela��o com o Congresso, apesar do discurso de Bolsonaro avesso � negocia��o com partidos. "N�o h� hip�tese de voc� dizer: ‘Eu sou do Executivo e vou desprezar o Congresso’. Isso nunca deu certo", argumentou Temer, que foi tr�s vezes presidente da C�mara.

O sr. entregou um caderno para o presidente eleito, Jair Bolsonaro, com a recomenda��o "N�o h� espa�o para retroceder. As mudan�as precisam continuar". Que mudan�as s�o essas?

Aquelas que eu n�o pude ultimar. Voc�s se lembram quando lan�amos Uma Ponte Para o Futuro, em 2015, que era uma contribui��o para o governo, mas foi vista como esp�cie de manifesta��o de oposi��o. Tudo o que fizemos est� nesse programa. Come�o pelo teto de gastos p�blicos, um gesto ousado. Esse teto est� dando resultado, tanto que, para o pr�ximo or�amento, nossa previs�o de d�ficit � de R$ 139 bilh�es, porque foi caindo. Depois veio a moderniza��o trabalhista, a reforma do ensino m�dio...

O futuro governo j� indicou que quer mexer na estrutura das estatais. O que o sr. acha disso?

Havia uma desmoraliza��o fant�stica das estatais. N�s recuperamos a Petrobr�s. Quando chegamos aqui, a a��o do Banco do Brasil valia R$ 15, hoje vale R$ 45. O patrim�nio p�blico aumentou tr�s vezes. Correios s� davam preju�zo. A primeira vez que deu balan�o positivo foi no primeiro semestre. E assim foi com Eletrobr�s, empresas p�blicas em geral, tudo fruto de um projeto de lei que n�s fizemos aprovar, aquela hist�ria de a empresa ser ocupada apenas por t�cnicos. Em maio de 2016, o PIB era negativo em 5,4%; em dezembro, j� era 3,6%. Este ano, n�o fosse a greve dos caminhoneiros, o PIB seria de 3,3%. Mas, de qualquer maneira, vai ser positivo. Demos aumento para o Bolsa Fam�lia, mantivemos o Minha Casa Minha Vida, o financiamento de curso superior...
O futuro governo determinou a realiza��o de pente-fino em medidas tomadas por sua gest�o. Eu n�o quero comentar isso.

As articula��es pol�ticas do governo Bolsonaro s�o feitas com frentes parlamentares e n�o com partidos. Isso funciona?

Acho que as bancadas tem�ticas votam unanimemente nos temas do seu interesse. � importante ter contato com l�deres, com as duas Casas, presid�ncia do Senado e da C�mara. Na maior parte do tempo, eu fazia reuni�o dos l�deres com os presidentes das Casas sentados ao meu lado.

E como conter o toma l�, d� c�?

N�o h� isso. Eu fiz governo semipresidencialista e soube contornar as dificuldades. Fiz o que a Constitui��o dizia, trouxe o Congresso para trabalhar comigo. Eu sentia, no Congresso, que o Legislativo � uma esp�cie de ap�ndice do Executivo. Se quiser excluir o Congresso, h� dificuldade. Voc� quer a reforma da Previd�ncia, quem � que vai votar? � o Congresso.

Bolsonaro ter� de rever esse posicionamento? Na pr�tica, n�o mudam as coisas?

N�o muda a rela��o Executivo-Congresso. N�o h� hip�tese de voc� dizer: "Sou do Executivo e vou desprezar o Congresso". Isso nunca deu certo. As bancadas que foram chamadas ouviram o presidente Bolsonaro dizer: "Olha, vou precisar muito de voc�s". Ele � do Parlamento. Quem vive 28 anos l� sabe como s�o as coisas. Tenho a convic��o de que ele saber� trabalhar com as bancadas partid�rias.

O MDB vai entrar na base aliada?

Acho que o MDB deve apoiar sempre as teses importantes para o Pa�s. N�o importa se est� no governo ou n�o. Se ficar independente, apoiar� o que for de interesse do Brasil. Aqui n�s temos um h�bito cultural equivocado. Quando se est� na oposi��o acha que � preciso destruir o governo.

Depois de dois anos e sete meses no comando do Pa�s, e com tudo o que o sr. enfrentou, que conselho daria a Bolsonaro?

Ele me perguntou: "Que conselho voc� me d�?". Eu disse: "Olha, eu n�o dou conselho para presidente eleito. Se quiser que d� palpite, eu dou".

E qual seria?

� preciso aprovar a reforma da Previd�ncia, porque completa-se um ciclo. Outra coisa que eu gostaria de fazer mais para frente seria a simplifica��o tribut�ria. Mas o fundamental seria a Previd�ncia. E eu n�o faria fatiada porque, cada vez que voc� propuser uma reforma da Previd�ncia, ter� resist�ncias. Eu n�o estou fazendo prega��o, porque parece at� atrevimento dar palpite em rela��o ao governo novo. Mas, como opini�o, se voc� pegar aquilo que j� foi feito e levar para o plen�rio, fica mais f�cil. N�o tem como fugir dessa quest�o da idade, do corte de privil�gios. Se come�ar do zero, � claro que haver� as mais variadas resist�ncias.

Mas parece que n�o querem sua proposta.

N�o vejo isso. Acho que eles acabam se ajustando. Quando resolvi lan�ar a reforma, havia diverg�ncias. N�s chegamos a um ponto comum. Tenho absoluta convic��o de que isso ocorrer� tamb�m no governo eleito.

O presidente eleito afirmou que � horr�vel ser patr�o no Brasil e que vai aprofundar a reforma trabalhista. Ele n�o est� desviando o foco de mudan�as mais importantes?

N�o me parece, n�o. S� essa express�o do presidente eleito revela que n�s asfaltamos o terreno, porque as a��es trabalhistas reduziram mais de 50%.

Acha que a interven��o federal no Rio deveria ser prorrogada?

A� vai depender do novo governo. Mas n�o foi s� interven��o que fizemos. Veja que eu contei com o aux�lio das For�as Armadas, com as chamadas GLO (Garantia da Lei e da Ordem). Quem � que teve a coragem de assumir a quest�o da coordena��o, integra��o da seguran�a no Pa�s? Quem botou a m�o na ferida fui eu (batendo na mesa). Criamos o Minist�rio da Seguran�a e um Sistema �nico de Seguran�a P�blica. Pela primeira vez houve a��es integradas, com resultados espl�ndidos. A interven��o deu resultados. Houve redu��o de 12,6% nos homic�dios. Foram 5.800 vidas poupadas.

Mas a pol�cia matou mais...

� porque teve de enfrentar a criminalidade, n�o �?

A crise fiscal nos Estados n�o afeta a quest�o da seguran�a?

Eu acho que o tema da seguran�a � muito presente no pr�ximo governo. Acho que vai seguir. Pessoalmente, acho que o governo vai ser uma continuidade do que foi feito, com as naturais adapta��es. N�o tenho d�vida. Dizer que o governo vai destruir o que este governo fez eu n�o acredito.

Mas a pol�tica externa � diferente. O ministro Paulo Guedes disse que n�o vai dar prioridade ao Mercosul, o Brasil pode abandonar o Acordo do Clima de Paris...

No mundo globalizado, n�s temos de sustentar a ideia do multilateralismo. N�o podemos desprezar a China, que � o nosso maior parceiro comercial. Com a Argentina n�s temos um super�vit comercial significativo. E temos de manter as rela��es mais s�lidas com os Estados Unidos. O Brasil ainda n�o tem potencial econ�mico, pol�tico, internacional que permita um isolamento.

O sr. vai procurar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para discutir um novo centro ou at� cria��o de um partido?

Estou sempre com o presidente FHC. Acho que precisamos de uma grande reforma pol�tica. � fundamental para reduzir o n�mero de partidos. Falo at� pelo MDB. N�o temos partido pol�tico. S�o siglas partid�rias que v�o se amontoando. Discutir uma coisa dessa natureza vale a pena. N�o sei se � criar mais um partido. Agora, se esse "mais um" significar a agrega��o de 10, 15 siglas, a� vale a pena.

O sr. falou em pacificar o Pa�s, que continua dividido. Bolsonaro conseguir� essa concilia��o?

O Brasil continua dividido e � ruim. Mais do que pensar em um novo partido seria pensar num grande pacto de unidade nacional, reunindo v�rios partidos, PCdoB, PSB, MDB, DEM, PSL, lideran�as, n�o importa de que tend�ncia sejam. � uma intera��o entre Executivo, Legislativo e Judici�rio. Acho que o pol�tico � mais ou menos como artista: serve de par�metro. Se o cidad�o v� que os tr�s Poderes est�o unidos, isso j� � um exemplo. Quando acaba a elei��o, voc� tem de partir para outro momento, no qual situa��o e oposi��o devem buscar o bem comum.

O que o sr. vai fazer quando deixar o governo?

Vou viver comigo mesmo. Nunca tive tempo para isso. S� vivi comigo mesmo quando ia de avi�o, de Bras�lia a S�o Paulo, e escrevia poemas no guardanapo. Vou voltar para o meu escrit�rio de advocacia e ver para onde a vida me leva. Penso em escrever outro livro. Fran�oise Sagan escreveu um livro chamado Bom dia, tristeza. Voc� percebe que era a vida dela.

O sr. elogiou Dilma Rousseff dizendo que ela era "honesta e correta". O sr. chegou a ser chamado de conspirador e golpista. Arrepende-se de algo?

N�o. Voc� disse bem: cheguei a ser chamado, mas nunca agi como tal. Tinha diverg�ncia pol�tica, voc�s sabem que ela (Dilma) me isolava. Mas, no plano pessoal, acho que ela era uma pessoa honesta e correta.

Mas neste per�odo em que o sr. ocupou a Presid�ncia, sentiu algum arrependimento?

Eu me arrependo um pouco de uma coisa, que � trivial, mas importante. Tenho o h�bito de receber todo mundo. Eu n�o me dava conta de que, �s vezes, marcava seis ou sete audi�ncias e recebia 20 pessoas. Atendia sem agenda. A� houve aquele epis�dio do rapaz (Joesley Batista) que foi me gravar. A reforma da Previd�ncia seria aprovada em 2017, mas a� houve aquela trama, muito bem urdida, e toda a den�ncia que eu fiz veio � luz com a pris�o dos indiv�duos que me detrataram.

O sr. j� disse que foi pego pelo �ngulo moral em investiga��es e agora est� deixando o cargo com uma terceira den�ncia, no inqu�rito dos Portos. Como responde?

H� uma diferen�a entre a figura do presidente e do cidad�o comum. � uma maravilha fazer coisas contra o presidente. Quando voc� sai do foco pol�tico e vai para o foco exclusivamente jur�dico, e � o que vai acontecer a partir de 1.º de janeiro, as coisas mudam. Voc� vai debater o que est� no processo.

Quando perder o foro, h� quem diga que o sr. poder� enfrentar pedido de pris�o preventiva.

N�o tenho a menor preocupa��o. Zero. Come�ou uma onda de que eu teria assinado o decreto (dos Portos) para favorecer uma empresa chamada Rodrimar. Mandaram uma certid�o e essa empresa n�o � beneficiada. A rigor, o que deveria ter sido feito com esse inqu�rito?

A Procuradoria-Geral diz que s�o rela��es antigas...

� verdade, crime da amizade. Ali�s, posso dar uma rela��o de umas 50 pessoas que conviveram comigo, me ajudaram nas campanhas eleitorais, fizemos sociedade advocat�cia. Poderiam investigar 50, 60 pessoas, entendeu?

Mesmo com a baixa popularidade que tem hoje, o sr. acredita que pode ter o trabalho reconhecido depois, como ocorreu com o ex-presidente Itamar Franco?

Acho. H� poucos dias, fui almo�ar num restaurante de classe m�dia, em S�o Paulo. Voc� sabe que, quando sa�, fui aplaudido? Falei: "Puxa vida, eu posso ir a restaurante, n�o � verdade?". As informa��es s�o do jornal O Estado de S. Paulo.


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