Os or�culos gregos j� aconselhavam, centenas de anos antes de Cristo: “Conhece-te a ti mesmo”. Seguidores de filosofias e religi�es ou adeptos de pr�ticas como medita��o e ioga, por exemplo, sempre correram atr�s da autoconsci�ncia, uma entidade abstrata que, h� pouco tempo, tamb�m come�ou a despertar o interesse da ci�ncia. Principalmente no campo neurol�gico, entender o que faz uma pessoa saber que tem uma identidade �nica pode trazer implica��es para pacientes que sofreram danos cerebrais e, com isso, perderam a mem�ria ou o autocontrole.
Um estudo publicado na revista cient�fica Plos ONE indica que esse fen�meno est� relacionado a diversos circuitos neuronais e n�o pode ser atribu�do a regi�es espec�ficas. A mente, j� descobriram os pesquisadores, n�o � um conceito abstrato, mas um processo fisiol�gico. Ainda assim, bem mais complexo do que se imaginava, difundindo-se por todo o c�rebro, em vez de se concentrar em algumas poucas localidades, como proposto por outros estudos.
De acordo com David Rudrauf, pesquisador da Divis�o de Neurologia Comportamental e Neuroci�ncia Cognitiva da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, tr�s regi�es do c�rebro eram relacionadas � habilidade de se distinguir dos outros, conferindo caracter�sticas, sentimentos e comportamentos pr�prios a cada indiv�duo. O c�rtex pr�-frontal medial, o c�rtex cingulado anterior e o c�rtex insular – localizados na camada mais exterior do c�rebro e relacionados a fun��es como racioc�nio, percep��o sensorial e produ��o da linguagem – seriam os respons�veis pela autoconsci�ncia. Algu�m que sofresse grave dano nessas tr�s regi�es, acreditava-se, ficaria “como um zumbi”, nas palavras do neurologista.
N�o foi isso, por�m, que ocorreu com um homem de 57 anos estudado por uma aluna de p�s-doutorado de Rudrauf, a neurologista Carissa L. Philipp, que divide com ele a autoria do artigo na Plos ONE. O paciente, identificado como “R.”, foi v�tima de encefalite nos anos 1980 e, desde ent�o, sofre de amn�sia anter�grada. Essa condi��o � caracterizada pela perda da habilidade de se lembrar de fatos recentes, mas a pessoa continua a armazenar recorda��es anteriores ao trauma cerebral. O paciente R. se lembrava de sua inf�ncia e do tempo em que cursou a faculdade, embora com alguns lapsos, mas n�o conseguia dizer o que havia comido no almo�o. Al�m disso, a encefalite prejudicou sua capacidade de sentir cheiro (anosmia) e ele tamb�m perdeu o paladar (augesia).
Diversos exames por imagens feitos no laborat�rio de Iowa mostraram que os danos cerebrais de R. eram extensos e bilaterais. Ele tem somente 10% do tecido da �nsula e 1% do c�rtex cingulado anterior. “A massa branca estava bastante danificada, particularmente no lado direito, assim como diversas outras regi�es do c�rebro, todas elas com implica��es muito importantes para o que se acreditava serem as �reas relacionadas � autoconsci�ncia”, conta Rudrauf. O paciente, contudo, n�o se encaixava na ideia que se tem de um “zumbi”. “Fizemos diversos testes cognitivos e espec�ficos para estabelecer se ele conseguia se reconhecer e se diferenciar dos outros. A intelig�ncia dele est� dentro do normal, assim como seu perfil neuropsicol�gico”, afirma o cientista. De acordo com Rudrauf, quem n�o sabe que R. tem danos cerebrais sequer percebe que ele tem algum problema. “� primeira vista, o paciente fala, age e se comporta como um homem de meia-idade, igual a qualquer outro.”
Testes
Se a autoconsci�ncia estivesse mesmo concentrada nos c�rtex pr�-frontal medial, cingulado anterior e insular, R. n�o poderia ter se sa�do bem nos experimentos. “Quando perguntei se ele sabia quem era, ele respondeu: ‘Sou apenas um homem normal, com problemas de mem�ria’”, diz Carissa Philipp, que conduziu a maior parte dos testes. Ela nota que, como R. sofreu danos cerebrais bastante extensos, ele apresentava mais dificuldades em alguns exames do que pessoas sem problemas no �rg�o, mas os resultados n�o deixam d�vidas de que o paciente n�o perdeu a autoconsci�ncia.
Um dos testes consistia em se olhar diante de um espelho – esse � o principal instrumento de pesquisadores para avaliar o fen�meno. Ao se ver, ele se reconheceu imediatamente. Para verificar o n�vel de consci�ncia externa de R., Carissa fez uma mancha vermelha no nariz do paciente, com maquiagem. “Ele piscou um olho e continuou a contar piadas e hist�rias, sem nenhuma indica��o de que estava consciente da pintura que fizemos. Mas depois de uns 15 minutos, quando se sentou de novo em frente ao espelho, ele a notou rapidamente e limpou o nariz, para retir�-la. Ent�o, disse: ‘Estou aqui me perguntando como este nariz de palha�o veio parar aqui’.”
Na tarefa em que tinha de se reconhecer em fotografias, R. acertou em 100% das vezes. “Imediatamente, apontava para ele, mesmo quando havia retratos de pessoas parecidas. Ele ainda fazia coment�rios sobre sua apar�ncia. Dada sua profunda amn�sia anter�grada, a performance perfeita de R. nessa tarefa � algo fant�stico. Ele conseguia se identificar corretamente em fotos tiradas d�cadas depois da encefalite”, relata Carissa. “Temos um paciente que perdeu todas as �reas do c�rebro tipicamente associadas � autoconsci�ncia e, ainda assim, continua autoconsciente. Claramente, a neuroci�ncia est� apenas come�ando a entender como o c�rebro humano pode gerar um fen�meno t�o complexo quanto esse”, comentou, em nota, Justin Feinstein, coautor do artigo.
De acordo com Henrik Ehrsson, pesquisador do Laborat�rio de Estudos sobre C�rebro, Corpo e Autopercep��o do Instituto Karolinska, na Su�cia, novas pesquisas que investiguem a autoconsci�ncia s�o muito bem-vindas, pois a compreens�o do fen�meno tem importantes implica��es cl�nicas. De dist�rbios alimentares a mal de Alzheimer, entender o que coO rob� que se reconhece
O homem n�o � o �nico animal autoconsciente. Estudos com outros primatas, elefantes e golfinhos mostraram que eles tamb�m conseguem se reconhecer no espelho, o mais forte ind�cio de que um ser � capaz de compreender sua identidade e diferenci�-la da dos demais. Por�m, no m�s passado, sites e blogs anunciaram uma novidade, no m�nimo, perturbadora: um rob� humanoide teria conseguido reconhecer o pr�prio reflexo, afirmando: “Ei, sou eu!”.
A experi�ncia foi apresentada em uma confer�ncia sobre intelig�ncia artificial no Canad�. Justin Hart e Brian Scasselati, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, relataram que Nico, um rob� constru�do no laborat�rio de rob�tica social da institui��o, passou em um teste no qual deveria identificar sua m�o, refletida no espelho. “O que faz isso muito interessante � que o rob� consegue usar o conhecimento que aprendeu sobre si mesmo a fim de raciocinar sobre algo relacionado ao ambiente – no caso, o espelho –, de uma forma que rob�s n�o haviam sido capazes at� agora”, disse Justin Hart � rede brit�nica BBC.
Apesar de o feito realmente ser memor�vel no campo da intelig�ncia artificial, isso n�o significa, por�m, que o rob� seja autoconsciente como o homem e outros animais. O que Hart e Scasselati conseguiram foi, por meio de um software de reconhecimento espacial, fazer com que o rob� determinasse a localiza��o de seu bra�o (interpretado pelo androide como um objeto), que estava refletido em um espelho. J� a fala de Nico, aparentemente muito satisfeito por se ver refletido, foi apenas a consequ�ncia de um comando programado.
