Dados de Abramed, COE, CEJAM e do Ministério da Saúde mostram alta recorrente de riscos relacionados a ISTs, dengue e covid-19 no período do carnaval; especialistas defendem a prevenção antes da festa para reduzir impactos e evitar diagnósticos tardios.

Dados divulgados ao longo dos últimos anos por entidades médicas e órgãos públicos confirmam que o período imediatamente após o carnaval segue um padrão anual de impacto sobre a saúde da população, especialmente no avanço de doenças infecciosas e na identificação de problemas de saúde que passaram despercebidos ao longo do verão.

Embora os agentes variem de um ano para outro, o comportamento se repete: grandes aglomerações, consumo excessivo de álcool, noites mal dormidas e mudanças bruscas de rotina aumentam a exposição a riscos evitáveis. 

Esse padrão pode ser observado de forma objetiva. Segundo publicações da Abramed, em 2023, o pós-carnaval foi marcado por alta de 20,2% na positividade para covid-19, com aceleração dos casos durante a semana da folia. Em 2024, a entidade voltou a identificar comportamento semelhante, desta vez associado ao crescimento na realização de exames e na incidência de dengue logo nas primeiras semanas do ano, movimento reforçado por informes oficiais do Centro de Operações de Emergência (COE).

Esse cenário também aparece nos dados mais recentes. Segundo o

painel de monitoramento de arboviroses do Ministério da Saúde, nos primeiros dois meses de 2025 (semanas epidemiológicas 1 a 9, período que inclui o pré e o pós-carnaval), o Brasil registrou cerca de 493 mil casos prováveis de dengue e 217 óbitos confirmados, ainda que com redução em relação a 2024. Os números indicam que a doença seguiu em circulação relevante no período da folia e nas semanas imediatamente seguintes. 

Quando o recorte é o comportamento sexual, o alerta se mantém. O carnaval é considerado pelas autoridades de saúde como o período de maior exposição ao risco para Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Dados divulgados pelo CEJAM mostram que fatores como consumo de álcool e drogas, redução da percepção de risco e aumento das interações sociais ampliam a ocorrência de relações sexuais desprotegidas durante a folia. 

Diante desse cenário recorrente, especialistas reforçam que o cuidado com a saúde começa antes do Carnaval. 

O que fazer antes da folia para reduzir riscos

Atualizar o cartão de vacinação é considerada uma das estratégias mais eficazes para reduzir riscos durante a folia. Doenças respiratórias e infecciosas se disseminam com facilidade em ambientes lotados, e estar com as vacinas em dia ajuda a prevenir infecções e evitar complicações que podem comprometer a saúde durante e após o período festivo. 

“O carnaval reúne milhões de pessoas aglomeradas, o que favorece a circulação de vírus respiratórios e outras doenças transmissíveis. Vacinas contra a influenza, hepatite A e B, HPV  e tríplice viral são fundamentais nesse contexto, porque reduzem o risco de infecção. Estar com a vacinação em dia antes da folia é uma medida de saúde pública que protege o indivíduo e ajuda a evitar surtos durante e após o carnaval”, explica Guenael.

Nesse contexto, o atendimento domiciliar surge como uma alternativa prática para garantir as vacinas necessárias antes do carnaval. “Eventos de massa aumentam a circulação de vírus e bactérias. Atualizar as vacinas e adotar medidas simples de higiene como lavar as mãos fazem diferença não só durante o carnaval, mas também nas semanas seguintes”, afirma Guenael.

Entre as vacinas que podem ser atualizadas antes do carnaval, especialistas destacam:

* Vacina contra influenza (gripe), que reduz complicações respiratórias;

* Vacina contra covid-19, especialmente para grupos de risco;

* Vacina contra hepatite A e B, fundamental na prevenção de ISTs;

* Vacina contra HPV, indicada para diferentes faixas etárias, inclusive adultos.

Além da imunização, exames preventivos ajudam a identificar riscos antes da exposição intensa. Check-ups laboratoriais com hemograma, marcadores inflamatórios e avaliação metabólica — incluindo colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos — permitem identificar alterações que podem se agravar com excesso de álcool, noites mal dormidas e desidratação.

Também ganham importância os exames cardiológicos, como eletrocardiograma e avaliação clínica, especialmente para pessoas com histórico de hipertensão, arritmias ou sedentarismo. “O carnaval exige do corpo mais do que parece, principalmente em blocos longos e sob altas temperaturas”, alerta o especialista.

ISTs, Papilomavírus humano (HPV) e o papel da testagem 

A prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) — como HIV, sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites virais e HPV — passa primeiro e obrigatoriamente pelo uso de preservativo (um dos meios de prevenção mais seguros), mas envolve também acompanhamento regular da saúde. 

Segundo a ginecologista  Maria dos Anjos Neves Sampaio Chaves, é essencial separar o que é prevenção do que é rastreamento. “A vacina contra o HPV é uma ferramenta de prevenção primária, indicada para diferentes faixas etárias, inclusive adultos. Já a testagem não é algo ligado a um evento específico”, afirma. “Quando o resultado é positivo, ele indica que o vírus já estava presente, muitas vezes há algum tempo, e não que a infecção tenha ocorrido por causa de um período específico, como o carnaval”, completa. 

No cuidado com o papilomavírus humano, a testagem corresponde à genotipagem por meio da coleta de DNA HPV. Trata-se de um exame de rastreio em que, a partir da coleta de secreção, é possível identificar o subtipo do vírus, com foco principalmente nos de alto risco, que são precursores do câncer do colo do útero. Essa genotipagem pode ser realizada no consultório do médico, no laboratório ou por meio da autocoleta. O terceiro método citado foi desenvolvido especialmente para mulheres, em particular aquelas em situações de vulnerabilidade, com dificuldade de realizar o exame ginecológico com espéculo (seja por medo, vaginismo ou outras condições), ampliando o acesso ao rastreamento e permite que mais mulheres consigam iniciar o acompanhamento adequado. 

“Quando a mulher faz a testagem e recebe o resultado, o exame de autocoleta precisa ser levado ao médico, que vai definir a conduta, como a indicação de citologia ou colposcopia. De qualquer forma, após a testagem, é necessária uma avaliação médica”, explica a especialista. A autocoleta, portanto, não substitui o exame clínico, mas funciona como uma porta de entrada para o cuidado continuado. Além do HPV, a estratégia de testagem inclui exames para ISTs, que podem fazer parte de check-ups laboratoriais e permitem identificar infecções que muitas vezes evoluem sem sintomas nas fases iniciais.  

“O carnaval é uma festa linda, que convida à celebração, mas também às escolhas responsáveis. É possível brincar com qualidade e com cuidado consigo mesma. Ter informação, manter os exames em dia e adotar medidas de proteção faz parte desse autocuidado”, reforça a especialista.  

Além de vacinas e exames, medidas simples seguem sendo fundamentais: 

• uso de preservativo em todas as relações sexuais; 

• hidratação adequada; 

• moderação no consumo de álcool; 

• descanso entre os dias de folia; 

• atenção a sintomas persistentes após o carnaval. 

A lógica é semelhante à observada em estudos internacionais. Um estudo dinamarquês publicado em 2019 demonstrou que períodos festivos prolongados estão associados a alterações metabólicas relevantes logo após as celebrações, como aumento do colesterol total e do LDL. Apesar de anterior à pandemia, o levantamento segue atual pela robustez dos dados e ajuda a explicar por que excessos concentrados em poucos dias podem revelar problemas silenciosos. 

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Na prática, os dados mostram que o carnaval não cria doenças, mas expõe vulnerabilidades. Antecipar cuidados transforma a folia em um momento de celebração — sem que o preço venha semanas depois. 

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