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Poesia, política e ensaio compõem o universo literário de Eugênio Bucci-lugardafinancas.com
LITERATURA

Poesia, política e ensaio compõem o universo literário de Eugênio Bucci

Entre o engajamento político e a intimidade do desejo, escritor apresenta três livros que revelam as tensões centrais de sua obra

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Figura recorrente no debate público sobre política e comunicação, o jornalista Eugênio Bucci, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), vem escondendo sua veia poética há um bom tempo. Em 1982, chegou a lançar o livro de sonetos “Um balde”, sob o pseudônimo de Eugênio Barata, mas nunca se assumiu, de fato, poeta.

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“Sempre escrevi poesia, mas muito raramente publiquei”, conta. “Além do livro de 1982, publiquei algumas coisas esparsas na Folha de S. Paulo e na revista The President, participei de exposições com o Philadelpho Menezes (poeta e tradutor morto em 2000), mas minha produção poética ficou represada”, afirma.

“Politicaô” e “libertímido”

Bucci, contudo, não esconde mais o lado poeta desde o final de 2025, quando lançou pela Ateliê Editorial “os dois hemisférios do meu colarinho” (escrito assim mesmo, em letras minúsculas), com 33 poemas divididos em “politicaô” e “libertímido”.


O livro encerrou a série de lançamentos do autor no ano passado, ao lado de “Que não se repita” (Seja Breve) e “A razão desumana” (Autêntica).


“Em 2025, temos um panorama interessante. ‘Que não se repita’ é narrativa essencialmente jornalística, crônica dos costumes políticos do governo Jair Bolsonaro a partir de fatos. Já ‘A razão desumana’ é um plano de linguagem reflexiva, ensaística, com mirada crítica e filosófica. E o terceiro, ‘os dois hemisférios do meu colarinho’, é a linguagem poética que lida com questões que eu queria abordar, mas eram inapreensíveis pelo trabalho jornalístico ou pela crítica racional”, explica.


As questões citadas por Bucci vão se mostrando parcialmente por meio de neologismos e tensões semânticas em “os dois hemisférios do meu colarinho”. O título já condensa a toda a proposta do livro. “Hemisférios” sugere cisão, polaridade e mundos em desacordo, no sentido figurado; “colarinho” carrega um sentido de ambiguidade social e simbólica. Pode ser o colarinho do terno ou alegoria de algo que aperta e incomoda.


Os dois hemisférios do poeta, batizados de “politicaô” e “libertímido”, não são apenas o político e o amoroso, mas também a militância e o desejo, duas formas de constrangimento do sujeito moderno. O eu lírico está apertado em ambos.

Além disso, “politicaô” parece fundir a palavra política com a gíria “caô”, apontando para a política como espetáculo, retórica e autopromoção. No poema “antipoesia a despeito de norberto bobbio”, essa ideia aparece: “miséria do meu ego pedestre/ esquerdista quando tristonho/ direitoso quando potente”.

Museu da revolução

Bucci não poupa críticas ao campo progressista, com o qual se identifica: “à esquerda/ a vaidade move a história/ o sujeito almeja ser busto em prédio público/ o vinícius caldeira brant me dizia/ – esse pessoal quer erguer o museu da revolução/ antes de a revolução acontecer”.


O poeta rebaixa o ego e faz autocrítica moral, na qual a ideologia é atravessada por vaidades e fragilidades. A figura do militante como estátua antes da história é o desejo de memória antes da transformação, desmontando a narrativa heroica da revolução.


Em “libertímido”, o sujeito é, ao mesmo tempo, libertino e tímido: deseja intensamente, mas não consegue sustentar esse desejo no tempo nem no corpo do outro.


Isso se evidencia no poema “as mortes que nos separam”, quando o eu lírico diz: “amor à primeira vista/ sei bem o que é isto/ tenho uns dez por dia/ em cinco segundos/ ou quinze/ eu me apaixono/ e já morro de abandono”.


É como se o amor estivesse submetido à lógica do consumo, mas o tom não é cínico, e sim melancólico. O sujeito “libertímido” é libertário no desejo, mas tímido na permanência e, sobretudo, consciente da própria fragilidade emocional.


“O cerne desse trabalho poético foi realizado em 2005, quando estava em Brasília, na presidência da Radiobrás, durante o primeiro governo Lula”, lembra Bucci.


Mergulho poético

“Surgiram emoções a partir de fatos que eu não tinha como elaborar sem ser em um mergulho poético. Comecei a escrever sobre política e amor, que são os dois hemisférios. Era imperativo íntimo, uma questão de sobrevivência. Guardei por anos, mas decidi publicar agora, com o retorno do Lula à presidência, sentindo um período de pacificação relativa. Na primeira parte, há entidades cruéis que zombam do engajamento; na parte ‘libertímido’, há uma mirada irônica sobre a vida íntima da minha geração”, afirma.

A poesia é vexame pessoal, acrescenta. “É um fingimento que nos aproxima da verdade. Na política, diz-se a verdade quando ela ajuda a mentir; na poesia, mentimos para melhor dizer a verdade”, compara Bucci.

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“os dois hemisférios do meu colarinho”


. Livro de poemas de Eugênio Bucci
. Ateliê Editorial
. 96 páginas
. R$ 53,60

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