Livros de Eugênio Bucci fazem alerta sobre a crise da democracia
'Que não se repita' e 'A razão desumana' analisam a trama golpista que desembocou no 8 de janeiro e o autoritarismo tirânico alimentado pelas big techs
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Se no livro de poesia “os dois hemisférios do meu colarinho” Eugênio Bucci recorre a neologismos e figuras de linguagem para falar sobre amor e política, em “Que não se repita” ele é literal, direto e categórico ao afirmar que a democracia brasileira sofreu sérios riscos durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022).
Em quase 200 páginas, o jornalista e advogado relembra episódios que já davam indícios de trama golpista muito antes dos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, no fatídico 8 de janeiro de 2023.
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“Retomar esse período foi um exercício necessário”, diz Bucci. “O Bernardo Mello Franco fez algo parecido com ‘Arquitetura da destruição’, que lançou recentemente, um livro muito bom. No meu caso, retomei meus artigos e dei nova penteada para compor uma narrativa cronológica”, explica.
O ministro e Goebbels
Bucci traz episódios emblemáticos, como o e-mail que o então ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, enviou às escolas públicas instando professores a gravarem alunos cantando o Hino Nacional e repetindo o slogan de campanha de Bolsonaro (“Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”).
Lembra também o vídeo inspirado em discurso do nazista Joseph Goebbels que o então secretário de Cultura, Roberto Alvim, divulgou em 2020.
Há frases no mínimo polêmicas do ex-presidente, como “vontade de encher tua boca de porrada”, dita a repórter que o questionou em uma entrevista, e “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”.
“As principais agressões contra a ordem democrática ocorreram à luz do dia, em palanques e entrevistas. O golpe não precisava do que aconteceu nos palácios naquele 8 de janeiro; ele vinha acontecendo dia a dia. É o que chamo de ‘golpe em gerúndio’”, afirma Bucci.
Em “A razão desumana: Cultura e informação na era da desinformação inculta (e sedutora)”, o autor investiga os contornos da “razão desumana” – a racionalidade técnica, autônoma e desprovida de sensibilidade que molda a cultura contemporânea.
Big techs
Para ele, o domínio do entretenimento se fortaleceu com as tecnologias digitais e a inteligência artificial. “A única maneira que a democracia dispõe para enfrentar esse desafio é a regulação”, defende.
“Educação midiática e jornalismo de checagem ajudam, mas a regulação é essencial para enfrentar as big techs, que hoje possuem valor de mercado de cinco trilhões de dólares. Ou vale o parâmetro da democracia e dos valores republicanos, ou valerá um autoritarismo cego e tirânico desse capital fundido com a técnica”, conclui.
“QUE NÃO SE REPITA”
. Livro de Eugênio Bucci
. Editora Seja Breve
. 192 páginas
. R$ 66,90
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“A RAZÃO DESUMANA – CULTURA E INFORMAÇÃO NA ERA DA DESINFORMAÇÃO INCULTA (E SEDUTORA)”
. Livro de Eugênio Bucci
. Editora Autêntica
. 152 páginas
. R$ 59,80