
Parece que a vida nos ensina tudo, mas para falar o �bvio, s� vivendo para saber. Trabalho desde os 17 anos, e n�o me arrependo dessa precocidade. Acontece que durante todos esses anos, as f�rias eram sempre os per�odos esperados e programados. N�o sabia da missa a metade. Minhas f�rias durante esse terr�vel per�odo de pandemia me mostraram que n�o pode existir coisa pior na vida de ningu�m. Sem trabalhar, mesmo em home office, os dias ficam completamente vazios. E a procura do que fazer acaba dando no mais f�cil, que � ligar a TV.
Curiosamente, parece que o pessoal da �rea resolveu exorcizar o interesse dos prisioneiros da COVID-19 para esse tipo de distra��o. O que vemos, o que nos oferecem, s�o os filmes repetidos ad infinitum, sem falar nos seriados. Praticamente todas as esta��es entram de vez nos seriados, e j� nem digo s�ries, que vez ou outra mostram alguma novidade, mas seriado mesmo, esses de cap�tulos seguidos por cap�tulos.
O caminho que resta � buscar novidades que nem sempre nos atraem quando a vida est� em seu seguimento normal, com obriga��es e relacionamentos funcionando dentro do habitual. Nesse busca que busca, tenho visto com frequ�ncia as s�ries americanas de decora��o, principalmente os de recupera��o de casas, que em uma semana ou pouco mais de tempo s�o totalmente transformadas, a toque de marteladas e umas maravilhosas m�quinas de aplicar pregos e parafusos, que ainda n�o vi por aqui.
Esse desmonte � mais do que f�cil, por causa da maioria das constru��es americanas, erguidas com muitas ripas de madeira e paredes de drywall. O que, por coincid�ncia, conhe�o de especular. Tenho um sobrinho que mora no Canad�, numa bela casa de quatro andares, que parece de cinema, de tanto conforto e praticidade. Quem n�o repara muito no que v� acredita que ela � constru�da como as nossas: com belas escadas, confort�veis varandas dotadas de espa�o para churrasqueira, cozinha que funciona muito bem, banheiros confort�veis.
Como fui ocupar o basement da casa, com outro h�spede, nunca vi tanto conforto: sala imensa, dotada de lareira, decorada com um aqu�rio imenso, cheio de peixes, ch�o aquecido e tudo mais que se pode esperar e encontrar numa casa daquele tipo. Por acaso, minha curiosidade bateu em uma porta extra do meu quarto, que dava para a estrutura de toda a constru��o: vi as funda��es de todos os andares escorados em ripas de madeira de v�rias larguras e espessuras e paredes que n�o levam nem tijolos, nem reboco: s�o todas feitas com drywall. Quer dizer, a constru��o n�o leva nem tijolos, nem cimento, nem nada desses materiais que estamos acostumados a usar por aqui e que s�o trabalhosos.
� por isso que gosto de ver os programas de TV com a reforma e restaura��o de casas. As duplas de profissionais requisitam os donos e seus amigos ou familiares, as paredes s�o quebradas com a maior facilidade, as modifica��es de espa�os s�o verdadeira brincadeira. O trabalho d� uma inveja danada em quem curte essa hist�ria de reformar casas. Acho a maior gra�a � que nada � aproveitado. N�o tem essa hist�ria de aproveitar arm�rios de cozinha, pe�as de banheiro, decora��o de lareira. Tudo � quebrado e jogado fora, n�o se aproveita nada. Mesmo que as pe�as estejam perfeitas. N�o tem aquela hist�ria de modificar arm�rios com uma m�o de tintura colorida ou outro qualquer puxador.
Fico totalmente encantada. Outro dia, vi a reforma de uma dessas casas em que os puxadores dos arm�rios de cozinha eram uma pequena colher produzida para ser usada dessa forma. E como as paredes v�o embora de um golpe s�, novos espa�os e novas aberturas recebem novas janelas, ou parede de vidro, uma inveja s�. Outro programa mostra reforma de jardins e espa�os que cercam as casas. Deixam evidente uma prefer�ncia dos donos das propriedades pelas pequenas quedas d'�gua, pelos toldos que ser�o usados para a montagem de uma �rea de refei��o ao ar livre e at� pelas lareiras que funcionam no jardim, nas regi�es americanas onde o frio � grande.
Dia desses, tive a experi�ncia de como � botar paredes e tetos de casa abaixo, sem a menor confus�o. Uma construtora desmanchou duas casas na rua abaixo da minha para construir um pr�dio e elas foram destru�das a toque de marreta e trator. Cada maretada que davam l� em baixo era t�o poderosa que balan�ava at� a mesa da minha sala. Aprendi a raz�o que a construtora tomou ao mandar uma equipe fotografar o fundo do meu jardim, ch�o e tudo mais. O que n�o aconteceu quando constru�ram outro pr�dio que d� literalmente para o fundo do meu jardim. S� estou esperando quando as escavadeiras come�arem a funcionar para a constru��o das funda��es do pr�dio.
