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As duas quarentenas de Jos� Alberto Nemer

Artista pl�stico conta como enfrenta o isolamento, em casa, depois de passar dois meses entre CTIs e quartos de hospital. 'Quero aprender a viver o presente', anota ele no 'Di�rio da quarentena'


postado em 18/05/2020 04:00


� preciso dizer que tive duas quarentenas, uma particular, outra coletiva.

Pouco antes de o corona mostrar sua carranca, passei dois meses entre CTIs, quartos de hospital e minha cama em casa, com medica��o na veia ao longo dos dias e das noites. Recuperando-me aos poucos, fui entrando de mansinho no ritmo tamb�m recolhido da humanidade. Aos poucos, ganhando for�a, as evid�ncias do isolamento coletivo foram ocupando seu lugar, fundindo-se em meu entendimento. E tudo convergia para um sentimento de aceita��o, de entrega ao imponder�vel.

Desde a interna��o, a inten��o era de me concentrar em meu pr�prio drama, sentir as oscila��es do corpo, os efeitos dos medicamentos, entregar-me �s necessidades mais b�sicas. Descobri-me disposto a vivenciar a ansiedade, o medo, os fantasmas das incertezas. Deixei vir o tumulto e tentei buscar, em algum lugar dentro de mim, a esperan�a de que tudo passaria. Enfim, decidi promover as condi��es que mais se aproximassem de um processo de individualiza��o.

Com a quarentena, mais do que nunca, quero aprender a viver o presente, o aqui e agora. Tenho feito esfor�os para n�o lamentar nostalgicamente o que de bom j� houve e nem projetar um futuro teimoso. Uma rotina de atividades essenciais, como dormir, comer, conversar, ler, pintar, tomar sol, ouvir m�sica, me exercitar um pouco fisicamente e pronto. Nada garante – embora eu deseje muito – que esse estado de presen�a vai durar quando a alforria for declarada. Mas, quando nada, terei vivido meus 15 minutos de um monge em sua clausura.

''Pouco antes de o corona mostrar sua carranca, passei dois meses entre CTIs, quartos de hospital e minha cama em casa''

Jos� Alberto Nemer, artista pl�stico



A�, entra a casa, um cap�tulo importante.

Ao longo dos anos, tentei me fazer rodear de m�veis, objetos, tecidos e cores que me fizessem companhia. Agora, al�m de mim, estamos minha mulher, Annie, e um de nossos filhos, Mariana. Vivemos o privil�gio do conv�vio cont�nuo, principalmente que, depois de 16 anos vivendo fora, Mariana veio quarentenar longe de Barcelona e Toronto, onde mora. Cada um de n�s criou sua pequena rotina e os momentos em comum se fazem com simplicidade e prazer. Dois c�es pastores brancos, Fai�al e No�, nos fazem companhia. O primeiro, j� velho, vive as agruras da terceira idade. O outro, apesar de adulto, parece ainda fixado na adolesc�ncia.

A chamada “casa arrumada”, ou seja, os arranjos ordenados foram subvertidos, com garrafas, envelopes, receitas, vidros de rem�dio, fios soltos, esculturas, caixas de algod�o e potes de cer�mica pousados democraticamente sobre a mesma c�moda. Os espa�os est�o sendo muito mais usados. Nos fins de tarde, deitado no sof� da sala, folheio em profundidade livros grandes, edi��es caprichadas dos mais diversos assuntos.

De quase todos j� havia me esquecido. Alguns deles, confesso, abrira antes uma �nica vez, como o magistral O livro vermelho, de Jung. � a alegria de quem, com olhos lavados, se lan�a � garimpagem de seu pr�prio ambiente e � surpresa da redescoberta.

Hoje, o que tem mais funcionado � o celular, trocando mensagens e falando com parentes e amigos. � um belo pombo-correio, caloroso e reconfortante. Tenho evitado ver not�cias da pol�tica nacional ou internacional, da economia e, at�, da sa�de. N�o gosto de acompanhar as estat�sticas da pandemia, do andamento das pesquisas de vacinas, dos impasses em torno dos procedimentos mais adequados de prote��o. J� h� quem cuida disso, penso.

Alguns, com hero�smo, como o pessoal da sa�de. Exceto a participa��o em campanhas ou colabora��es pontuais, pode-se muito pouco entre quatro paredes.

Al�m do mais, uma das li��es que se podem tirar desse isolamento � tentar aplacar a febre da informa��o, o excesso delirante das vers�es. N�o preciso fazer escolhas. J� sei o que pedir, em sil�ncio, a quem nos pode ajudar.

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