
Quem v� hoje a mulher que chama a aten��o pelas arma��es grandes e coloridas n�o imagina que ela se recusou a usar �culos por muitos anos. A mudan�a ocorreu depois da descoberta de op��es que iam al�m do b�sico. A psicanalista Claudia Figaro Garcia n�o s� enxergou os �culos como poderosos elementos de moda, que influenciam a constru��o dos looks, como tamb�m desenvolveu um m�todo de harmoniza��o para ajudar outras mulheres. “�culos subiram para a categoria de acess�rios e devem ser notados.” Assim, passou de colecionadora a designer da sua pr�pria marca, a Caxspecs.
Claudia tinha 14 anos quando descobriu a miopia e se negava a usar �culos. Como n�o se identificava com nenhuma arma��o, preferia as lentes de contato. “Usava �culos s� dentro de casa, e com a fam�lia. Nunca tirei fotografia com �culos, sempre achei muito feio.” At� que, em 2010, as lentes gelatinosas come�aram a emba�ar sua vis�o e ela teve que se acostumar com os �culos no dia a dia.
Por n�o considerar os �culos acess�rios de moda, a psicanalista passava anos com a mesma arma��o, e s� escolhia aquelas bem tradicionais. “Tinha dificuldade de comprar �culos coloridos. Era muito conservadora e muito medrosa, ent�o sempre usava o mesmo”, conta. Mas a necessidade do uso di�rio a levou a se aventurar por arma��es diferentes. Em 2013, numa viagem � It�lia, ela comprou uns �culos “gatinho” tartaruga claro e come�ou a perder o medo.

A arma��o apresentou um novo mundo a Claudia. A partir da�, ela passou a pesquisar marcas independentes, que n�o eram vendidas no Brasil, e trazer de viagens o que era diferente. Quem diria: em vez de esconder, a psicanalista buscava os �culos mais robustos e coloridos, bem exclusivos. Isso virou sua marca registrada. “No in�cio causou estranhamento, depois admira��o, e comecei a ser reconhecida no trabalho e na rua como a pessoa que n�o tem medo de usar �culos e fazer composi��es.”
Percebendo que seu estilo chamava a aten��o aonde ia, Claudia decidiu falar sobre �culos nas redes sociais. Fotografava suas pe�as e fazia curadoria de arma��es de marcas independentes pelo mundo.
N�o passava pela cabe�a dela fazer nem vender �culos, at� conhecer Ricardo Lorente, que produz pe�as a m�o sob medida. “Sempre quis ter �culos sob medida, �nicos, exclusivos. Pensei em um que tinha visto num livro, estilo anos 1950, amarelo-lim�o com haste preta, e pedi para ele fazer.” Para chegar exatamente ao que queria, ela participou do processo de cria��o da arma��o, que acabou sendo verde-oliva. Bastou postar no Instagram para receber uma enxurrada de mensagens de interessadas em comprar.
O sucesso inesperado dos �culos deu in�cio � marca Caxspecs, que trabalha com o conceito de exclusividade. A cada cole��o, � lan�ado um formato, mas as cores e os nomes (todos em franc�s) n�o se repetem. Cax � o nome do primeiro modelo. J� o modelo Carr� � da segunda cole��o, lan�ada em dezembro do ano passado. “As arma��es s�o cria��es da minha cabe�a. A Cax parece uma borboleta e a Carr� tem �ngulos retos nas pontas”, detalha. At� o fim do ano, ela deve lan�ar a terceira cole��o.

Claudia e Ricardo desenvolvem juntos os �culos. Pensam os formatos, depois escolhem as cores. “Vamos construindo o design a quatro m�os. Nunca fiz �culos e n�o desenho, ent�o tenho essa parceria com o Ricardo, que faz isso h� muito tempo, sabe o que funciona.” A partir disso, ele faz tr�s moldes para ela escolher um. “Experimento no meu rosto e tenho que ficar sem ar quando me olho no espelho.” Todas as arma��es s�o de acetato italiano, material que a psicanalista acha mais moderno, chique e estiloso. A produ��o, quase toda manual, fica a cargo do pai de Ricardo, Jaime Lorente.
Ao contr�rio do que Claudia imaginava, a pandemia n�o atrapalhou as vendas. Na verdade, a procura aumentou nesse per�odo. “Acho que a pandemia permitiu que as pessoas ficassem mais tempo em casa escolhendo o que comprar. N�o tenho lan�amento toda semana, n�o tenho estoque, ent�o chamo a aten��o pela exclusividade.” Nesse per�odo, ela fez a venda mais r�pida: em 20 minutos. Clientes de fora de S�o Paulo, algumas que moram no exterior, compram sem nem experimentar.
Vitrine
A marca n�o tem loja f�sica nem on-line, a vitrine est� no Instagram (@caxfigaro). Quando recebe novos �culos, Claudia fotografa e grava v�deos usando a arma��o. Escolhe os acess�rios que combinam, faz a maquigem e se posiona perto da janela da sala de casa, onde aproveita a ilumina��o natural. N�o segue roteiro, fala com naturalidade. “Sou a pessoa que sabe vender os �culos. Tenho uma rela��o de muita paix�o com estas pe�as, se pudesse ficaria com todas. S�o pe�as que t�m a ver comigo”, aponta a psicanalista, que conseguiu transformar os �culos em acess�rios para entrar na lista de desejos.

Claudia sempre usou muitos acess�rios, todos exagerados. Brincos, colares e an�is nunca passavam despercebidos. “Quando passei a usar �culos no dia a dia, tive que aprender a fazer harmoniza��es para que pudesse seguir o meu estilo, sempre coordenando com a roupa e os acess�rios. Foi tudo muito org�nico, nunca me espelhei em ningu�m.” Em muitas ocasi�es, ela come�a a compor seu look a partir da arma��o que escolheu usar no dia.
A partir da sua experi�ncia, a psicanalista desenvolveu o m�todo de consultoria de �culos Cax Visage. A ideia � ajudar mulheres na escolha da arma��o, respeitando desde o tom da pele e do cabelo at� a cartela de cores que tem no arm�rio e os acess�rios que gostam de usar.
Para come�o de conversa, Claudia orienta tirar da cabe�a pensamentos que ela mesma j� teve – “Arma��o tem que aparecer o menos poss�vel” e “O que pessoas v�o pensar?”. Ela tamb�m se diz contra regras de que quem tem rosto redondo deve usar �culos quadrados, e vice-versa. “�culos s�o como roupa, voc� tem que experimentar e se olhar no espelho. Se eles estiverem de acordo com o seu estilo e voc� se sentiu bem, � o que importa”, aponta a designer da Caxspecs, que tamb�m vende an�is de acetato, produzidos com as sobras dos materiais usados para fazer os �culos.
Quer montar uma cole��o de �culos? Comece por um tartaruga cl�ssico, um preto e um transparente, com formatos diferentes. “Digo que esses tr�s s�o curingas, porque combinam com qualquer acess�rio, seja dourado, prateado ou colorido.” Arma��o com cores j� � um passo adiante, que deve levar em considera��o o seu guarda-roupa. Claudia acrescenta que toda mulher tem que ter �culos “abre-portas”. O dela, australiano, comprado em Barcelona, � um gatinho grande em preto e branco. “� aquela arma��o para todo mundo olhar para voc�, para n�o passar despercebida.”
