
Ela figura no estrelato dos �cones da moda, pe�as que se tornaram simb�licas no universo fashion, como a jaqueta aviador, a camiseta ou o trench coat. A velha cal�a jeans 501 da , que est� completando 150 anos, ultrapassou os limites do tempo e da cultura e chegou aos dias atuais mantendo sua aura e tradi��o.

Imposs�vel imaginar um produto que tenha acompanhado a trajet�ria da humanidade de forma t�o camale�nica e representativa e se isto aconteceu � porque a marca soube contar e recontar sua hist�ria para que ela se tornasse conhecida e amada por v�rias gera��es. Para se ter uma ideia desse alcance, em 1999, conquistou a nomea��o “item de moda do s�culo 20” pela revista Time e vem mantendo seu sucesso como item global at� o s�culo 21.

Hoje, a Levi’s segue impactando a hist�ria com novas cria��es que, muitas vezes, derivam do 501 Originals e continua seu percurso com o objetivo de trazer um outro olhar para os f�s mais jovens da label, construindo uma nova base sem perder aspectos de sua heran�a por meio de a��es que unam personalidades influentes dessa gera��o.

Com esse intuito, haver� celebra��es em torno do anivers�rio da velha cal�a com lan�amentos de filmes que fazem parte da campanha “A maior hist�ria j� vestida” (The greastest story ever worn). S�o curta-metragens dirigidos por Martin de Thurah e Melina Matsoukas, que exploram hist�rias originais e ver�dicas de todo o mundo envolvendo o produto e seu papel em in�meros momentos.
Os filmes v�o abordar experi�ncias excepcionais, entre elas a chegada da 501 � Kingston, na Jamaica, nos anos 1970. Por�m, a mais original narrativa � a de um fiel usu�rio que pediu para ser enterrado com o seu jeans, al�m de desejar que todos os participantes do funeral estivessem vestidos como ele.
Entre f�bulas, mitos e lendas, surgem relatos de pessoas mais pr�ximas, que narram a rela��o de amor com esse �cone, como a do estilista Amarildo Ferreira, que faz parte da turma em cujas veias corre sangue azul tal a intimidade com o mundo jeanswear. Isto porque os designers que escolhem esse territ�rio s�o profissionais muito especializados: n�o basta conhecer as regras da moda ou as tend�ncias da esta��o, o of�cio exige um repert�rio t�cnico muito especial para trabalhar todos os processos de cria��o e fabrica��o.
Com passagens por muitas empresas de alcance nacional, como as mineiras Vide Bula e DTA, Amarildo ganhou uma cal�a de heran�a de uma tia, nos anos 1970, que pertenceu a um ex-namorado dela. Quando ela chegou at� suas m�os, ele, por sua vez, aplicou sobre a superf�cie v�rias das suas expertises em forma de lavagens e outros tratamentos, chegando at� a manch�-la por ocasi�o dessas experi�ncias.
Mais do que uma simples roupa, o estilista poetiza o seu relacionamento com a pe�a: lavada, recosturada, rasgada, cerzida, sua 501 � uma velha companheira de vida, uma esp�cie de trilha sonora ou di�rio, com quem dividiu v�rios momentos. “Viajou comigo pela Europa, Estados Unidos, China, Jap�o. Fomos muito longe juntos e ela sabe muito de mim, acompanhou amores, segredos, sentimentos”, observa.
Do ponto de vista t�cnico, Amarildo compara a cal�a da Levi’s a uma b�blia em termos de aprendizado: a come�ar pelas costuras em duas agulhas passando pela constru��o dos bolsos, dos passantes, do abotoamento fly button, da aplica��o dos rebites. “No final, ela � a mesma: perdeu o regulador traseiro e ficou mais reta. Pode vir no jeans 50% bruto e vai se adaptando ao corpo ou no elastano, mas no geral mant�m a constru��o original”, ensina.
Vida longa Como o colega, B�rbara Luiza Oliveira tem a mesma paix�o pela mat�ria-prima. Criada e burilada profissionalmente nesse ambiente, a estilista confessa que, em meio a tanta coisa descart�vel e passageira, saber que um produto tem vida longa h� 150 anos provoca um sentimento bom no cora��o. Ela vai al�m: “Por detr�s do jeans, h� ind�strias poderosas nas quais cole��es s�o lan�adas a cada esta��o, anos ap�s anos, em forma de novos shapes, novos tons de blue, gerando milh�es de empregos e com altas cifras de faturamento pelo planeta, o que faz com que ele se mantenha relevante e desej�vel pelo seu poder de renova��o”.
A estilista cr� que ele preserva o seu mainstream porque n�o ficou parado; ao contr�rio, acompanhou as mudan�as dos tempos atrav�s de muita pesquisa, execu��o tecnol�gica e o poder infinito e m�gico da cria��o. “E segue se expressando com relev�ncia, se aliando �s pessoas e ajudando a contar o lifestyle de cada um. Talvez o segredo esteja exatamente nesse ponto, o de ser parte importante na vida de tanta gente”, conclui.
“O motivo da longevidade desse produto ic�nico e influente em um mundo t�o vol�til, breve e inconsistente, nos enche de curiosidade e uma busca sem fim para essa f�rmula m�gica. Para n�s, designers brasileiros, em que o maior inimigo � o tempo e a possibilidade de dura��o de um produto por mais de seis meses � quase que uma vit�ria, s� posso olhar e pensar: �... tem mais do que produto a� por tr�s”, reflete a estilista Andr�a Aquino, que tamb�m pertence � fam�lia do sangue azul.
Na sua an�lise, v�rias quest�es, al�m do design, est�o envolvidas na hist�ria de uma pe�a que se tornou base para qualquer aprendiz de desenvolvimento de produtos na linha do jeans. “Acredito na somat�ria de tudo: design, gest�o, prop�sito, distribui��o, comunica��o e a inten��o de n�o querer ser t�o breve, buscando todos os holofotes que piscam todo o tempo”, enfatiza.
Publica��es A fascina��o pelo assunto se replica em estudos e publica��es, como aconteceu com a jornalista e professora Lu Catoira, que publicou dois livros – “Jeans, a roupa que transcende a moda” e “Moda jeans, fantasia est�tica sem preconceito”, ambos pela editora Ideias e Letras. O que a conquistou durante o per�odo da pesquisa foi a possibilidade da mat�ria ser estudada pelo vi�s da psicologia, sociologia, marketing, rela��es sociais, hist�ria e, por fim, da moda.
“� um signo que, apesar do tempo, continua jovem”, ressalta. Na sua opini�o, a quest�o da longevidade, que inclui o �cone 501, tem a ver com suas dimens�es simb�licas a ao fato de ele ter acompanhado diversas gera��es, desde os mineradores at� chegar � linha premium. “Estamos falando disso em pleno s�culo 21, porque o jeans continua a transcender idade, sexo, religi�o, classe social, por ser um s�mbolo jovem e at� detentor de marca e status. O marketing da Levi’s n�o descuida dos produtos, oferecendo, at� para a 501, modelos diferentes. E ainda est�o alertas � sustentabilidade e uso do algod�o org�nico”.
E imaginar que tudo come�ou em 1873, como uma patente para rebites de cobre em cal�as de trabalho para mineradores. O jeans atravessou v�rios ciclos: foi roupa ideal para vaqueiros e cowboys na vida real e no cinema, o preferido pela gera��o rebelde dos anos 50, adotado por roqueiros e hippies, presente em revolu��es e rebeli�es, conservando at� os dias atuais o estigma de liberdade e de juventude. Sua versatilidade n�o se extingue, como demonstram as marcas mineiras Cl�udia Rabelo e Patog�, que o exploram em todas as suas possibilidades e facetas.
