
At� mesmo quando descansa, ele carrega pedra. Mas n�o reclama e se diz feliz com o of�cio aprendido no fim da adolesc�ncia e ganha-p�o da fam�lia h� mais de tr�s d�cadas. Geneir Gomes Mariano, de 56 anos, � calceteiro de profiss�o, homem cheio de t�cnica e habilidade que trabalha exclusivamente na constru��o de cal�adas portuguesas. Para quem pisa sem saber onde, � bom lembrar que essas cal�adas s�o cobertas de mosaicos nas cores preta, branca e vermelha, s�mbolo de hist�ria, charme e beleza. Belo Horizonte tem mais de 100 vias e espa�os p�blicos com esse tipo de revestimento iniciado nos anos 1920, a maior parte na Regi�o Central – o pioneiro foi o da Pra�a Rui Barbosa. No Centro, os tapetes ornamentais com motivos florais ou geom�tricos s�o tombados pelo munic�pio.
Geneir, no entanto, se sente quase uma esp�cie em extin��o, pois faltam calceteiros no mercado e a procura por eles est� cada vez maior. “A �nica exig�ncia � que o trabalhador n�o pode ter problema de coluna”, brinca o morador do Vale do Jatob�, na Regi�o do Barreiro, curvado sobre a ferramenta que assenta as pedras na obra de revitaliza��o do entorno do Circuito Cultural da Pra�a da Liberdade, na Regi�o Centro-Sul. Para compensar a falta desses profissionais, estado, prefeitura e outras institui��es se uniram para oferecer um curso de qualifica��o e requalifica��o da m�o de obra, que ter� como mestre o especialista portugu�s Fernando Fernandes.
O curso, gr�tis e com 50 vagas, 20 das quais reservadas para o Servi�o Nacional de Emprego (Sine), come�ar� na quarta-feira e ir� at� o dia 16, com aulas de oito horas nos dias �teis, mesclando palestras e muita pr�tica. As inscri��es est�o abertas, amanh� e segunda-feira, no Sine da Rua Curitiba, 832, no Centro. Para garantir a aprendizagem bem perto da realidade, a maior parte das li��es ocorrer� na cal�ada portuguesa em frente ao Arquivo P�blico Mineiro, na Avenida Jo�o Pinheiro. A empreitada � fruto da parceria entre o Instituto do Patrim�nio Hist�rico e Art�stico (Iepha/MG), vinculado � Secretaria de Estado da Cultura, Secretaria de Estado do Trabalho e Emprego, Prefeitura de Belo Horizonte, via Administra��o Regional Centro-Sul e Funda��o Municipal de Cultura, Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/se��o Minas Gerais), PUC Minas e Sindicato da Ind�stria da Constru��o Civil do Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG).
BRASILEIRAS
Segundo a historiadora Angela Maria Ferreira, diretora de Prote��o e Mem�ria do Iepha, � fundamental manter a t�cnica para preservar o patrim�nio e formar novos calceteiros, al�m de garantir emprego e renda. “O Rio de Janeiro, que tem o famoso cal�ad�o de Copacabana recriando as ondas do mar, j� promoveu uma oficina desse tipo, tamb�m com um mestre de Lisboa”, conta Angela. De portuguesas mesmo, as cal�adas t�m apenas o nome pois s�o “brasileir�ssimas”, e no caso de Minas, extra�das no pr�prio estado.

T�CNICA ADEQUADA
Quem anda na Regi�o Central de BH encontra toda sorte de desenhos nas cal�adas portuguesas, mas, invariavelmente, d� de cara com falta de pedras e outras soltas, buracos e problemas que p�em em risco a seguran�a dos pedestres, em especial os portadores de necessidades especiais. Angela diz que na maior parte isso decorre da execu��o com t�cnicas inadequadas. “Esse acervo � muito delicado, exige conserva��o. N�o � raro vermos o mau uso desse bem p�blico, carros estacionados sobre as cal�adas, o que causa grande impacto para o piso”, acrescenta Liana Valle.
Na Pra�a da Liberdade, diante do pr�dio do Museu de Minas e do Metal, o calceteiro Geneir continua a sua tarefa bem compenetrado. “At� quando descanso, carrego pedra”, faz piada, por trabalhar sentado o tempo todo. A poucos metros est� a postos Milton Gon�alves Soares, de 42, morador de Esmeraldas, na Grande BH, e h� 23 anos dedicado ao of�cio. “J� trabalhei em quase todas as ruas da capital e em Ipatinga, no Vale do A�o, Cabo Frio (RJ), Rio de Janeiro e outras. Para ser um bom calceteiro, � preciso experi�ncia e for�a de vontade”, revela Milton, enquanto mostra todo o processo em que emprega, basicamente, areia, cimento, �gua e pedra, e pede uma boa vassourada no final para dar um trato no rejunte.
De olho em tudo, o encarregado de servi�o Marcelo Rodrigues de Oliveira, da Retech –Servi�os Especiais de Engenharia, conta que os funcion�rios aprimoraram a t�cnica com oficina dada por um especialista do ramo. “A cal�ada portuguesa n�o d� lodo, o que � uma vantagem. Agora, se soltar uma pedra, as outras v�o atr�s, da� a necessidade de se empregar a t�cnica adequada”, afirma. Num dia, o calceteiro pode fazer de 24 a 27 metros quadrados e receber at� R$ 15 por metro quadrado.
T�cnica chegou na d�cada de 1920
A t�cnica de cal�adas decorativas nasceu no tempo das cavernas, onde foram encontrados pisos feitos com conchinhas e outros materiais, explica o professor do curso de arquitetura e urbanismo da PUC Minas e representante do IAB/MG Altino Barbosa Caldeira. O tempo passou e os mosaicos foram usados na Mesopot�mia, Gr�cia, Imp�rio Romano e pelos �rabes at� chegar � Pen�nsula Ib�rica, onde se formaram grandes mestres em Portugal e na Espanha. Com a coloniza��o portuguesa, a t�cnica se disseminou pela �frica, Macau (China) e Brasil. Em Belo Horizonte, a novidade chegou nas primeiras d�cadas do s�culo 20 e um dos destaques da cidade � a Pra�a Raul Soares, de inspira��o marajoara e datada dos anos 1930. Mesmo com pressa, n�o custa nada admirar os desenhos que enfeitam as ruas da cidade e, claro, ficar de olho nos buracos e deforma��es do passeio.
