
A igreja serviu bem aos fi�is at� 1959, quando o padre Jos� Casimiro da Silva assumiu o cargo de vig�rio da par�quia. Raymundo Nery Pinto Ferreira, o sr. Mundinho, l�cido aos 102 anos, atuou como tesoureiro da Igreja do Ros�rio de 1935 a 1952 e acompanhou de perto a constru��o da nova igreja. Ele lembra que, ao assumir, o vig�rio ficou alarmado com o estado de conserva��o da edifica��o. “Ele logo constatou que seria preciso uma reforma ampla e urgente. A estrutura, constru�da quase exclusivamente com madeira, estava bastante prejudicada pelo ataque de cupins. E tamb�m j� estava sendo considerada pequena para os eventos religiosos. Ent�o, o padre prop�s a demoli��o a demoli��o da igreja e constru��o de uma mais moderna, de linhas avan�adas e maior.”
A proposta foi encaminhada de imediato a dom Oscar de Oliveira, arcebispo de Mariana, � qual a par�quia de Sant'Ana pertencia � �poca. O prelado sugeriu ao vig�rio que consultasse os paroquianos por meio de um plebiscito. Durante alguns meses, a popula��o foi informada pela r�dio, jornais e nas celebra��es religiosas.
Em 1961, o plebiscito foi realizado. Venceram aqueles a favor da constru��o da nova igreja. Foram 3.550 votos a favor e 68 contra. O projeto do novo templo foi entregue ao arquiteto Mard�nio dos Santos Guimar�es, respons�vel pelo projeto da rodovi�ria de Belo Horizonte. A constru��o teve inicio em 1962.
Raymundo lembra que a boca de urna informal, nas conversas das pra�as e bares, indicavam uma vit�ria do sim, mas ainda assim estava no ar um clima de expectativa e especula��o pelo resultado. “As pessoas n�o sentiram que estariam colocando no ch�o um patrim�nio hist�rico. O que se tinha era uma sensa��o de avan�o rumo � modernidade. Naquele tempo, as pessoas n�o tinham essa no��o de preserva��o, como existe hoje. Se fosse hoje, com certeza, a igreja antiga n�o seria demolida. Apenas aquela minoria que votou contra demonstrou indigna��o. Eu mesmo fui a favor da constru��o da nova igreja pelo fato de a antiga estar em mau estado, al�m de ser pequena para acomodar a popula��o da cidade”, explica.
MURAL A campanha foi feita fazendo uso das cores verde e vermelha. O voto verde seria pela constru��o da nova igreja. Do outro lado, os propugnadores do voto vermelho defendiam a preserva��o da antiga igreja barroca. Com a vit�ria do voto verde, surgiu um projeto arquitet�nico que buscava alinhamento com as novidades da ent�o modernidade da Igrejinha da Pampulha, em Belo Horizonte. Para tanto, a artista pl�stica Yara Tupinamb� foi convidada a pintar um mural decorativo para o altar da nova igreja, o que deu origem a uma nova rodada de debates e burburinho com repercuss�o internacional na cidade.
Quando recebeu a encomenda do trabalho, Yara conta que refletiu bastante sobre o que poderia fazer. Optou por retratar a cria��o do mundo. “Fiz a hist�ria da religi�o cat�lica. Come�a com a cria��o do mundo e a separa��o de �gua e terra. Em seguida, a cria��o de Ad�o e Eva. Da�, vem o pecado do homem e sua expuls�o da natureza. Na quarta cena, temos a anuncia��o, quando um anjo revela a Maria que ela conceber� o filho de Deus. A imagem seguinte � Jesus carregando a cruz. As duas �ltimas imagens retratam Pentecostes, com a descida do Esp�rito Santo sobre os ap�stolos de Jesus Cristo e, por fim, ap�s sua morte, uma imagem de santos da igreja saindo de seus ombros. O fiel que conhece o Evangelho vai identificar tudo isso na imagem”, diz a artista.
B�N��O
A obra de arte demandou um ano de trabalho de Yara, que contou com a assist�ncia dos alunos Silvia Gaia e Anadali Pita. O painel, batizado de A �rvore da vida, trazia Ad�o nu e Eva seminua. Quando a obra foi instalada, a artista participou de uma missa solene e logo teve in�cio a pol�mica. “Roberto Drummond fez uma mat�ria onde comentou sobre o nu na pintura. O caso acabou virando uma pol�mica, com repercuss�o nacional e internacional. Como tivemos opini�es diferenciadas na cidade, houve uma convoca��o dos bispos e, durante dois anos, v�rios deles vieram a Minas ver a obra. Como n�o conseguiram chegar a um consenso, o caso seguiu para o Vaticano, que analisou e considerou a pintura boa, em acordo com a igreja”, lembra.
Para ela, o nu faz parte da arte h� anos e n�o � ofensivo. “O Vaticano tem a maior cole��o de arte romana do mundo, onde h� v�rios personagens nus. Mas o que as pessoas precisam entender � que o nu n�o � pornogr�fico. E Ad�o e Eva, assim como os �ndios, andavam nus. Mas esse caso repercutiu bastante. E depois ainda foi parar nas p�ginas do livro Hilda Furac�o, no qual Roberto Drummond escreveu sobre as tias que entravam na igreja de costas para n�o ver o Ad�o nu”, recorda.
Artista rev� obra e sugere restaura��o
Em fevereiro, artista pl�stica Yara Tupinamb� esteve na matriz e p�de avaliar o estado de conserva��o de sua obra. “O painel est� precisando de uma pequena manuten��o. Nada dispendioso. Mas a parte de baixo foi um pouco danificada pela �gua usada na faxina, ao lavar o ch�o. Como a pintura est� na altura da mesa de celebra��o, a �gua prejudicou apenas pain�is em branco. Na parte de cima, por conta de um vazamento no teto, tamb�m � preciso um trabalho de restaura��o simples. Fora isso, o cuidado � passar, de tempos em tempos, um pano seco de leve para tirar a poeira”, aconselha a artista, que quando pintou as telas optou por cores planas e �ngulo bidimensional.
A avalia��o j� faz parte de um plano para restaurar os pequenos danos causados pelo tempo. � �poca, ela enfatizou que o acervo do templo � muito precioso e precisa ser preservado. Lembrou ainda que os vitrais alem�es, em vidros lisos e coloridos, criados por Mario Sil�sio, s�o pe�as raras, dif�ceis de serem encontradas.
Durante sua passagem, Yara limpou algumas pe�as do painel a fim de testar a viabilidade da restaura��o. E saiu satisfeita com o diagn�stico, certa de que a miss�o � poss�vel. Ela chamou tamb�m a aten��o sobre os desgastes da escultura da padroeira Sant’Ana. Yara sugeriu a instala��o de uma plataforma na base da obra feita em metalon com pingos de solda derretida, em estilo surrealista e moldada por Wilde Lacerda, para evitar o ac�mulo de po�as de �gua no local. (HS)
