�s v�speras dos 40 anos da revolu��o de 1979, que transformou o Ir� na primeira teocracia do mundo contempor�neo, o Ocidente ainda l� esse pa�s que trouxe a religi�o ao n�cleo central da arena pol�tica, sob o olhar dos primeiros anos da revolta, quando o chamado clero fundamentalista liderado por aiatol� Khomeini implantou a Rep�blica Isl�mica e as medidas antisseculares. Foi uma rea��o aos anos da chamada “Revolu��o Branca” do x� Mohammad Reza Pahlavi. Proibi��o de consumo de bebidas alco�licas, tutela feminina pelo patriarcado, mulheres obrigadas ao uso do hijab (len�o sobre os cabelos) para n�o “incitar” o desejo masculino, condena��o � morte de ateus, homossexuais e esposas infi�is, tentativa de destrui��o de s�tios arqueol�gicos... Esse evento, que para alguns autores marca o fim da era moderna, mudou n�o apenas a face do Oriente M�dio e Pr�ximo, mas a Europa e as Am�ricas.
Mas esse poder teocr�tico, que se apoiou inicialmente nos militares e em suas mil�cias isl�micas, ao final da guerra contra o Iraque (1980-1988) vem gradativamente perdendo espa�o. O Ir� vem se abrindo � participa��o civil, com a consolida��o de seu Parlamento e da elei��o para presidente da Rep�blica, em que pese este ainda governe sob a tutela clerical, que tamb�m “aprova” as listas de parlamentares candidatos. Ganharam terreno os chamados reformistas, mais abertos � moderniza��o da sociedade e ao di�logo com o Ocidente.
Mesmo que a amea�a do fundamentalismo-conservador religioso ganhe o mundo justo por esse aspecto caricato da Revolu��o Iraniana, hoje ela � infinitamente menor no Ir� do que, por exemplo, em pa�ses como a Ar�bia Saudita. A amea�a fundamentalista sobre o Ir� equivale, atualmente, ao risco que enfrentam pa�ses como os Estados Unidos e o Brasil, ambos afetados pelo acelerado crescimento dos movimentos religiosos neopentecostais, que avan�am principalmente nas classes mais pobres.
Velho preconceito O preconceito ao Ir� n�o � novo. A cultura ocidental sempre teve para com essa civiliza��o motivos de tens�o e cr�tica permanente. Os gregos iniciaram essa tradi��o com Her�doto, denominado Pai da Hist�ria, que tratou de batizar as guerras greco-persas de “m�dicas”. O maior imp�rio da Antiguidade aparece retratado apenas em suas expedi��es punitivas aos gregos europeus, mas jamais pelo conjunto da obra – ou seja, as conquistas persas das cidades gregas na J�nia.
Quando Alexandre da Maced�nia invadiu a P�rsia, dissolvendo o Imp�rio Aquem�nida, em 330 a.C., as suas hist�rias correram o mundo, depreciando os “parsis”, enaltecendo os hel�nicos-maced�nios. Durante o Imp�rio Sel�ucida (312 a.C. – 63 a.C.) iniciado por uma dinastia hel�nica do general Alexandre Seleuco, os persas foram arrastados a um conflito com Roma e, novamente, objeto de deprecia��o. Da mesma forma, a invas�o �rabe e mu�ulmana na P�rsia, em 633, levou europeus e toda a cristandade a jogar �rabes e persas na vala comum do islamismo, tratando-os como o “invasor” a ser contido.
Em 1979, ao amanhecer da Revolu��o Iraniana, essa adquiriu rapidamente um car�ter antinorte-americano e anti-ocidental, em contraposi��o � crescente influ�ncia desses pa�ses no Ir�, principalmente a partir de seu apoio ao golpe de Estado, em 1953. Golpe que derrubou no Ir� o governo nacionalista e eleito de Mosaddeq, naquilo que nos arquivos da CIA ficou conhecido como “Opera��o Ajax”. De fato, o golpe de 1953 e as ra�zes da Revolu��o Iraniana de 1979 est�o entrela�ados, n�o s� pela ditadura mon�rquica que se iniciou e terminou respectivamente nesses dois momentos, como pelo motivo principal que lhe empresta sentido, a quest�o da explora��o e da comercializa��o do petr�leo.
Quase cinco d�cadas depois da revolta do sagrado, o Ir� se livrou da condi��o de “quintal” de duas grandes pot�ncias europeias a R�ssia e depois URSS ao norte e a Inglaterra, ao sul chegando a ser ocupado por ambas durante a Segunda Guerra Mundial. Desde o in�cio da Dinastia Cajar (1789-1925) e depois Pahlavi (1925-1979) era motivo de ironias e piadas nos centros europeus do poder. Foram dinastias que viveram ao sabor dos humores de seus patronos. Exemplo disso foi o �ltimo x� do Ir�, Mohammad Reza Pahlavi, entronizado depois que seu pai, Reza X� Pahlavi, acusado pelas tropas sovi�ticas e inglesas de simpatizar-se com o nazismo, foi por elas for�ado a abdicar.
Em todos os recentes conflitos no Oriente M�dio, o Ir� se posicionou em contraponto �s for�as regressistas que ali atuam. Apoiou o combate ao Ex�rcito Isl�mico na S�ria e no Iraque, atuou, por meio do Hezbollah, contra Israel na invas�o ao L�bano e hoje � o principal pa�s na rivalidade regional aos ultraconservadores da Ar�bia Saudita.
Mesmo a situa��o das mulheres no Ir�, embora claramente discriminadas e inferiorizadas, metidas em negros xadors que lhes tomam a identidade, respondem por 60% dos 2 milh�es de alunos universit�rios no pa�s. No campo de desenvolvimento tecnol�gico, o Ir� controla todo o ciclo nuclear, � um dos poucos a produzir todo o seu arsenal militar – desde avi�es, jatos, m�sseis, tanques e at� o seu programa espacial. Al�m disso, est� entre as 20 na��es com mais pesquisa e desenvolvimento em nanotecnologia, qu�mica, ci�ncias da computa��o, e apresenta grande desempenho no campo das c�lulas-tronco.
No campo econ�mico, houve avan�os. Em 1980, um ano ap�s a revolu��o, o Ir� detinha um Produto Interno Bruto (PIB) estimado com Paridade de Poder de Compra (PPC), segundo o FMI, de US$ 115 bilh�es; em 2015, foi a US$ 1,382 trilh�o, ocupando a 19ª posi��o mundial. Se o PIB nominal era US$ 94 bilh�es em 1980, em 2014, registrava US$ 403 bilh�es.
Durante esse per�odo, o Ir� atravessou uma guerra contra o Iraque que praticamente destruiu as suas principais cidades ao Sul do pa�s, al�m de danificar boa parte de sua infraestrutura petrol�fera, de portos e estradas, ainda enfrentando um boicote econ�mico das principais economias mundiais. O �ndice de Desenvolvimento Humano (IDH - 2015) foi de 0,774, j� considerado elevado e maior que o brasileiro, de 0,754, no mesmo ano.
� fato que o Ir� tamb�m luta hoje com contradi��es derivadas de seu desenvolvimento recente, em que as tradi��es nas quais se ancorou para rejeitar fortemente o dom�nio econ�mico externo v�o gradativamente se transformando em um estorvo para as suas camadas e classes sociais mais educadas e refinadas. As leis e as institui��es – leia-se Ex�rcito e clero tradicionalista –, que foram a ossatura para o pa�s transitar da situa��o anterior para a atual, v�o se tornando obsoletas face � nova realidade que vai se impondo. � um pre�o a se pagar pelo sucesso e que j� se fez sentir como na recente Revolu��o Verde, na qual se chocam o Ir� que nasce e o antigo que n�o quer deixar de existir. O perigo que corre � de novamente as for�as que sinalizam um reencontro com valores que deveriam ser universais – como direitos humanos e civis – voltarem as suas costas ao grosso da popula��o, transformando esse movimento de elite em algo que foi a “Revolu��o Branca” de Reza Pahlavi: um encontro com as trevas.
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