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Estado de Minas EM CARTA

Congressistas dos EUA pedem que Biden retire oferta para que Brasil seja parceiro da Otan

Parlamentares do partido do presidente americano criticam governo militarizado do Brasil e exortam mudan�a de rumo na rela��o dos EUA com a gest�o de Bolsonaro


14/10/2021 13:10 - atualizado 14/10/2021 17:32

Joe Biden
Presidente Joe Biden recebeu pedido para que retire oferta a Brasil sobre parceria militar da Otan (foto: Reuters)

Um grupo de 63 congressistas dos Estados Unidos enviou nesta quinta-feira, 14/10, uma carta ao presidente Joe Biden em que pede que ele reveja a oferta para que o Brasil se torne um parceiro global da Otan (Organiza��o Tratado Atl�ntico Norte) e revogue a condi��o de aliado extra-Otan concedida ao pa�s ainda no governo de Donald Trump.

 

 

 

O status como aliado militar preferencial dado ao Brasil facilita a compra de tecnologia militar e armamentos dos EUA, garante a participa��o das For�as Armadas brasileiras em treinamentos promovidos pelo Pent�gono, al�m de outros benef�cios militares.

 

"Precisamos rever isso para assegurar que n�o estamos fortalecendo um Ex�rcito que pode ser usado para um golpe de Estado", afirmou � BBC News Brasil o congressista Hank Johnson, democrata veterano na C�mara autor do of�cio enviado � Casa Branca.

 

Segundo Johnson, "Bolsonaro j� demonstrou que est� organizando as condi��es para um golpe militar. � um cen�rio alarmante para o Brasil e nosso pa�s n�o pode contribuir com isso".

 

A carta, � qual a BBC News Brasil teve acesso com exclusividade, � endossada por mais de um quarto da bancada democrata na C�mara dos Deputados, que tem maioria na Casa.

Na missiva, os parlamentares, entre os quais expoentes do partido como Alexandria Ocasio-Cortez (conhecida como AOC), afirmam que o presidente Jair Bolsonaro fez "amea�as � jovem democracia do Brasil" e que "declarou que n�o vai aceitar o resultado das pr�ximas elei��es se elas acontecerem conforme as regras atuais", isto �, sem o voto impresso pela urna eletr�nica - mudan�a que o presidente encampou publicamente mesmo ap�s a derrota da proposta no Congresso.

"Achamos isso particularmente preocupante porque Bolsonaro trouxe mais oficiais militares para sua administra��o do que qualquer outro presidente desde que a democracia no Brasil foi restabelecida, criando conflitos entre institui��es governamentais e as for�as armadas", afirmam os 63 congressistas na carta a Biden.

Eles se referem, por exemplo, ao epis�dio noticiado pelo jornal O Estado de S. Paulo no qual o general Walter Braga Netto, ministro da Defesa, teria supostamente enviado emiss�rios para dizer ao presidente da C�mara Arthur Lira que as elei��es n�o ocorreriam se o voto impresso n�o fosse aprovado no legislativo. Braga Netto negou que tenha feito essa amea�a mas, em nota, defendeu que a "discuss�o sobre voto impresso audit�vel � leg�tima".


Jair Bolsonaro em meio a militares
Para democratas, seria contrassenso governo Biden patrocinar avan�os militares a um governo que poderia usar as for�as para desestabilizar a democracia no maior pa�s da Am�rica Latina (foto: Reuters)

Aliado militar dos EUA desde 2019

Para os congressistas democratas, seria um contrassenso do governo Biden patrocinar avan�os militares a um governo que poderia usar as for�as para desestabilizar a democracia no maior pa�s da Am�rica Latina.

A confirma��o de que o Brasil se tornara um aliado extra-Otan aconteceu em agosto de 2019, ainda na gest�o Trump, e foi recebido com comemora��o pelo governo brasileiro. "� bem-vinda nossa participa��o como grande aliado extra-Otan, que facilita muitas coisas. O mais importante � a quest�o de defesa, compra de armamento, algumas tecnologias. Alguma coisa sempre interessa pra gente. Como regra, um pa�s da Otan uma vez agredido, todo mundo est� junto", afirmou Bolsonaro � �poca.

E, apesar das diverg�ncias em temas como a agenda ambiental, o governo do democrata Joe Biden acenou com um avan�o na rela��o militar em agosto de 2021.

Em visita a Bolsonaro em Bras�lia, o Conselheiro de Seguran�a Nacional dos Estados Unidos ofereceu ao Brasil a possibilidade de ser parceiro global da Otan. Embora n�o decidam sozinhos quem pode ingressar na entidade, os americanos s�o determinantes para sacramentar a entrada de um pa�s na Otan.

Reservadamente, diplomatas americanos reconheceram que a oferta foi cuidadosamente pensada: como o presidente brasileiro � afeito a temas militares, os EUA escolheram esse caminho como "agenda positiva" que pudesse aumentar a disposi��o das autoridades brasileiras em rela��o ao tema do combate ao aquecimento global e � exclus�o de empresas chinesas da rede 5G do pa�s, duas prioridades da gest�o Biden.

A oferta, por�m, aconteceu quase ao mesmo tempo em que Bolsonaro e a Marinha promoviam um desfile de blindados na Esplanada dos Minist�rios, o que foi interpretado como demonstra��o de for�a contra os demais Poderes da Rep�blica. Na mesma semana, o presidente repetiu alega��es sem prova de que a elei��o de 2018 havia sido fraudada.

Isso fez com que representantes de Biden tivessem que dar declara��es p�blicas de apoio ao sistema eleitoral brasileiro. "N�s refor�amos (a Bolsonaro) a import�ncia de n�o diminuir a confian�a (da popula��o) no processo eleitoral, especialmente porque n�o h� evid�ncias de fraudes nas elei��es anteriores", afirmou Juan Gonz�lez, assessor de Biden para a Am�rica Latina.

Gonz�lez, no entanto, descartou que fosse contradit�rio fortalecer o aparato militar do pa�s enquanto condenava manifesta��es de Bolsonaro contra o sistema eleitoral.

"Nosso ponto aqui � que temos uma ampla rela��o institucional com o Brasil. Podemos nos engajar em assuntos de coopera��o em �reas de seguran�a, de economia, e ainda assim ser muito claros em demonstrar nosso apoio de que � o povo brasileiro quem determina o resultado de suas elei��es", afirmou Gonz�lez.


Jair Bolsonaro cumprimenta o conselheiro de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan, no Palácio do Planalto
Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta o conselheiro de seguran�a nacional dos EUA, Jake Sullivan, no Pal�cio do Planalto (foto: Reprodu��o/Embaixada dos EUA)

N�o �, no entanto, o que pensa uma parte expressiva da base de Biden no Congresso. "Oferecer ao governo do Brasil a oportunidade de se tornar um parceiro da Otan seria um sinal de que os EUA n�o t�m nenhum problema s�rio com as viola��es de direitos humanos, de princ�pios democr�ticos e de quest�es ambientais que ocorrem no Brasil. Portanto, respeitosamente pedimos que voc�, no m�nimo, retorne, as rela��es EUA-Brasil ao que eram antes do governo Trump, pelo menos at� que um novo l�der, mais alinhado com os valores democr�ticos e de direitos humanos, seja eleito no Brasil", afirmaram as dezenas de parlamentares na carta ao ocupante da Casa Branca.

Eles ainda s�o mais claros no pedido: "Isso deve incluir o cancelamento da designa��o do aliado militar extra-Otan, a retirada da oferta feita ao Brasil para se tornar um parceiro da Otan e outras formas de coopera��o nociva estabelecidas durante o per�odo Trump-Bolsonaro".

A embaixada brasileira em Washington foi procurada pela BBC News Brasil para comentar, mas afirmou que "n�o se manifesta sobre carta cujo teor desconhece".

'O manual de Trump'

N�o � a primeira vez que o Congresso dos EUA tenta barrar o relacionamento militar entre Brasil e EUA. Em setembro, uma emenda ao or�amento do deputado Jesus Garcia, que agora tamb�m assina a carta, tentou impedir que dinheiro p�blico americano pudesse custear exerc�cios militares entre os dois pa�ses. A emenda, no entanto, foi derrubada.

Na carta, os congressistas relembram que Bolsonaro apoiou alega��es falsas de Trump sobre fraude na elei��o americana de 2020, e que seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, manteve reuni�es com organizadores da manifesta��o trumpista "Stop the Steal"("Pare o roubo"), que desaguou na invas�o do Congresso americano em 6 de janeiro e impediu por algumas horas que a vit�ria de Biden fosse certificada no Capit�lio.

"Estou cada vez mais preocupada que o presidente Bolsonaro esteja tentando executar o 'manual de Trump' para minar a democracia do Brasil, e n�o confio que ele v� transferir o poder pacificamente caso os resultados das elei��es (de 2022) favore�am seus oponentes. � extremamente importante que o governo Biden, e todo o governo dos Estados Unidos, se envolvam neste assunto agora e explicitem claramente as consequ�ncias de qualquer tentativa de derrubar a vontade do povo no Brasil", afirmou � BBC News Brasil a congressista Rashida Tlaib.

N�o passou despercebido pelos parlamentares americanos o interesse de ex-assessores de Trump, como o estrategista Steve Bannon e o ex-porta-voz Jason Miller, no pleito do Brasil no ano que vem. Bannon chegou a dizer que essa ser� a "segunda elei��o mais importante do mundo".

A carta dos deputados americanos se soma � recente manifesta��o do presidente da Comiss�o de Rela��es Exteriores do Senado dos EUA, o democrata Bob Menendez, e outros tr�s senadores, que pediram a Biden que deixe claro que "haver� s�rias consequ�ncias" em caso de ruptura democr�tica no Brasil.


Jair Bolsonaro ao lado de Donald Trump
Jair Bolsonaro exaltava ent�o presidente norte-americano Donald Trump, derrotado por Joe Biden nas elei��es de novembro passado (foto: Reuters)

Ap�s a divulga��o da carta de Menendez, o embaixador do Brasil Nestor Forster enviou resposta ao gabinete do parlamentar. "Lamento observar que Vossa Excel�ncia parece estar mal informado sobre o estado das institui��es democr�ticas brasileiras", afirmou Forster.

Mas mesmo senadores que n�o assinaram nenhuma das duas cartas expressaram preocupa��o com a sa�de da democracia brasileira � BBC News Brasil. O senador Brian Schatz afirmou � reportagem que v� "com alguma ansiedade" o que tem acontecido no pa�s.

"N�s queremos manter um di�logo e vamos fazer isso, mas vimos coisas recentemente que nos trouxeram s�rias preocupa��es em rela��o �s liberdades dos brasileiros e � democracia propriamente. E vamos nos manter firmes em defender nossos valores".

Schatz e seu colega Blumenauer acabam de propor ao Congresso dos EUA uma lei que pode punir o Brasil pelo desmatamento ilegal com a interrup��o da venda de produtos de origem bovina aos americanos. Esse ano o Brasil deve se consolidar como o quarto exportador de carne de boi ao pa�s.

Ryan Berg, cientista-pol�tico especialista em regimes autorit�rios na Am�rica Latina do Centro de Estrat�gias e Estudos Internacionais (CSIS, na sigla em ingl�s), nota que um n�mero crescente de parlamentares democratas t�m visto paralelos entre a invas�o no Capit�lio em 6 de janeiro nos EUA, e acontecimentos como as manifesta��es bolsonaristas de 7 de setembro, na qual o presidente afirmou que descumpriria ordens judiciais de um dos ministros do STF.

"N�o h� qualquer amor por Bolsonaro no Congresso americano, especialmente entre os democratas mais � esquerda. E h� uma parcela dos parlamentares realmente trabalhando para que Biden isole Bolsonaro", afirma Berg.

Juliana Moraes, diretora executiva da U.S. Network for Democracy in Brazil, que mant�m intenso di�logo com os parlamentares americanos sobre o Brasil, nota por�m que a carta atual obteve ades�o sem precedentes em rela��o a qualquer comunica��o referente � gest�o Bolsonaro. "E isso s� aconteceu porque entre os parlamentares que assinam h� democratas progressistas e moderados".

Johnson concorda com a an�lise. "Eu e meus colegas estamos desconfort�veis de ver o comportamento de Bolsonaro que nos remete tanto ao de Trump e que amea�a afundar o Brasil no mesmo caminho que Trump tentou nos levar. Conseguimos defender nossa democracia, com institui��es que t�m mais de 233 anos de idade. Mas tememos o que pode acontecer com institui��es democr�ticas brasileiras, de pouco mais de 30 anos, sob o mesmo tipo de ataque".

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