"N�o faz muito tempo que consegui me identificar como negro e � um grande passo", confidencia � AFP, em plena instala��o de suas gigantescas pinturas, realizadas em papel "pardo", uma refer�ncia direta � cor de sua pele e ao lugar dos mesti�os e negros na sociedade brasileira.
Entre elas, um autorretrato, uma silhueta toda negra sobre um fundo gigantesco, reconhec�vel por seus dreads e seu moletom, e testemunho direto de sua "nova consci�ncia negra".
Ele explica: "No Brasil existe o termo 'pardo', quer dizer 'mais ou menos branco' e isso � problem�tico". Por ser a tradu��o de uma "pol�tica de inclus�o social dos negros" que de fato atesta o racismo comum, denuncia.
"Morei 31 anos na Rocinha, um lugar muito intenso, muito contrastado, tamb�m conhecido como a maior favela da Am�rica Latina (...). Venho de onde venho e isso continua me afetando, mas � redutor tomar esse �nico fio condutor para descrever minha pintura", diz, apontando que � igualmente influenciado pelo cotidiano da favela quanto "pelos mang�s, os filmes, o hip-hop dos EUA ou a moda na Europa".
Intitulada "New Power" (Novo Poder), t�tulo de seu amigo rapper BK, sua exposi��o em Paris, que permanecer� aberta at� 20 de mar�o, fala da arte "como uma nova ferramenta de promo��o social para os negros".
Faz parte da temporada "Seis continentes e mais" do Palais de Tokyo, que apresenta v�rios artistas com compromisso anticolonial e antirracista.
- "Recuperar poder" -
Poderia ser futebol, m�sica. "Para mim � a arte, a liberdade num dom�nio exclusivo, numa comunidade que n�o convive com a arte contempor�nea (...). Quando descobri e compreendi a arte pude entrar numa narrativa, minha e de pessoas negras".
Nascido em 1990, Maxwell Alexandre formou-se pela Pontif�cia Universidade Cat�lica (PUC) do Rio de Janeiro. Organizou seu batismo art�stico em 2018 no Rio com uma exposi��o que mesclou pintura e performances, ao lado de BK, que atuou como mestre de cerim�nia. E isto o levou a ser notado.
Uma primeira mostra fora do Brasil foi apresentada no Mus�e d'art contemporain de Lyon onde fez resid�ncia em 2019. Na �poca, sua obra, muito colorida, preenchia todos os cantos do suporte em papel, evocando assim a densidade humana das megal�poles da Am�rica Latina e reproduzindo cenas do cotidiano, com os moradores, a pol�cia e os �cones da cultura afro-americana.
Este trabalho, disse ele, era sobre "como a comunidade negra recupera seu poder; mostra avi�es, dinheiro, carros", todos os s�mbolos externos de riqueza.
"Desta vez � a mesma coisa, mas no contexto da arte contempor�nea: as figuras negras ocupam o 'white cube' (cubo branco), s�mbolo de um saber acad�mico das institui��es art�sticas", diz, com o olhar fixo, sentado ereto sobre um banquinho, diante de um imenso len�ol branco, vazio, ladeado por uma grande moldura dourada.
Seus personagens, pintados em tamanho natural, isolados ou em grupo, n�o t�m olhos, boca, nariz. Aparecem no meio de quadrados marrons e brancos, que recortam como um labirinto o espa�o da folha de papel e da sala expositiva, captando de passagem o visitante, com refer�ncia � sua pr�pria imagem, � sua identidade e � sua alteridade.
"Ele defende seu tema abrindo as portas da frente e convida os cariocas ao museu, lugar de poder do 'white cube'". Nome de uma famosa galeria internacional de arte contempor�nea, essa express�o "globalizada" tamb�m significa a rejei��o da onipot�ncia do poder branco na arte, comenta Hugo Vitrani, curador da mostra.
Publicidade
PARIS
Da periferia ao Palais de Tokyo: Maxwell Alexandre e a 'nova consci�ncia negra'
Publicidade
