
A estrat�gia do presidente russo, Vladimir Putin, parecia bem definida. Em poucos dias, mais de 150 mil soldados de Moscou invadiriam a Ucr�nia por todos os lados, asfixiariam Kiev, derrubariam o governo de Volodymyr Zelensky e assumiriam o comando da ex-rep�blica sovi�tica. Desde os primeiros bombardeios, na noite de 24 de fevereiro, o Kremlin n�o contava com a resili�ncia das tropas ucranianas e com o esp�rito de combatividade dos civis, dispostos a pegar em armas e a fabricar coquet�is molotov. Na v�spera de completar um m�s, a guerra de Putin se transformou em um fiasco militar, com tanques e ve�culos de combate incendiados ficando pelo caminho.
Ontem, o Pent�gono informou que o contingente russo na Ucr�nia encolheu para abaixo de 90% de sua for�a original e reconheceu o impacto da resist�ncia no front. “Est�o perseguindo os russos, tirando-os de lugares onde j� haviam estado previamente”, afirmou o porta-voz, John Kirby, ao citar reveses das for�as de Moscou particularmente em Mykolaiv (Sul), uma esp�cie de escudo da cidade portu�ria de Odessa. O Departamento de Defesa norte-americano tamb�m anunciou que militares ucranianos tentam retomar territ�rio na cidade de Kherson, na mesma regi�o.
Um contra-ataque ucraniano nos flancos norte e ocidental de Kiev teria sido bem-sucedido em impedir que os russos cercassem a capital, que tornou a adotar toque de recolher. Os soldados da Ucr�nia fincaram a bandeira do pa�s sobre um pr�dio da cidade de Makariv, 65 quil�metros a oeste de Kiev, antes em poder dos invasores.
“Creio em uma estimativa um pouco mais alta e que as baixas (mortos, feridos e deser��es) russas possam chegar a um ter�o do contingente mobilizado para a guerra, ou cerca de 45 mil soldados”, explicou ao Estado de Minas o ucraniano Peter Zalmayev, diretor da Eurasia Democracy Initiative, uma organiza��o n�o governamental baseada em Kiev e voltada � promo��o da democracia e dos direitos humanos no Leste da Europa e no C�ucaso. “� um golpe muito significativo. Isso ajuda a explicar o fato de Moscou tentar intimidar os ucranianos com a vers�o de que dezenas de milhares de s�rios, de combatentes do Hezbollah e de mercen�rios chechenos estariam a caminho da Ucr�nia. Os russos est�o desesperados, pois seu poderio de combate reduziu-se bastante.”
Olexiy Haran, professor de pol�tica comparativa da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla (Ucr�nia), lembrou � reportagem que os soldados russos receberam alimentos suficientes para tr�s dias. “A guerra n�o acabou e, agora, eles enfrentam imensas baixas em solo. Creio que a R�ssia tentar� iniciar uma nova ofensiva contra Kiev e talvez em Donetsk, a fim de obter alguma vit�ria no front, enquanto continua a negociar. � prov�vel que Moscou intensifique os bombardeios a civis e de infraestrutura cr�tica”, comentou.
Em entrevista � CNN, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, acusou a m�dia ocidental de propagar desinforma��o e admitiu que Putin “ainda n�o alcan�ou seus objetivos” na Ucr�nia. “Esta � uma opera��o s�ria, com prop�sitos s�rios. As principais metas desta opera��o s�o acabar com o potencial militar da Ucr�nia... � por isso que nossos soldados atingem apenas alvos militares... O Ex�rcito russo n�o ataca civis. Outra meta � assegurar que a Ucr�nia deixe de ser um centro anti-R�ssia e se torne um pa�s neutro. (...) Queremos nos livrar dos batalh�es nacionalistas, que fazem de civis escudos humanos”, afirmou. “Um terceiro objetivo visa certificar que a Ucr�nia reconhe�a a Crimeia como parte indissol�vel da R�ssia e o fato de que as Rep�blicas Populares de Luhansk e Donetsk s�o Estados independentes.”
Doutrina
Peskov tamb�m disse que a R�ssia somente usar� armas nucleares em caso de “amea�a existencial”. “Temos uma doutrina de seguran�a interna, e ela � p�blica, voc� pode ler nela todas as raz�es para o uso de armas nucleares. Se for uma amea�a existencial ao nosso pa�s, ent�o podem ser usadas de acordo com nossa doutrina.” Por sua vez, Zelensky homenageou “os her�is que surgem de milh�es de ucranianos comuns”, instou a popula��o a se levantar contra os invasores e avisou: “N�s faremos com que eles (russos) se lembrem de que n�o s�o bem-vindos”.
Em fala ao Parlamento da It�lia, Zelensky pediu aos parlamentares italianos a ado��o de san��es mais contundentes contra os oligarcas russos que passam suas f�rias na It�lia e advertiu sobre a escassez de alimentos e a crise migrat�ria que a guerra pode deflagrar. Depois de conversar algumas horas antes com o papa Francisco para pedir sua media��o, Zelensky foi ovacionado durante seu discurso por videoconfer�ncia aos deputados e senadores do Parlamento italiano.
Para Olexiy Haran, o tempo est� a favor da Ucr�nia. “Os russos poder�o usar armas qu�micas ou biol�gicas. Se Putin for louco o bastante, n�o descartaria a utiliza��o de armas nucleares t�ticas. Seria o cen�rio mais desastroso.” O especialista n�o acredita que a R�ssia conseguir� a independ�ncia da regi�o de Donbass (Leste) ou da Pen�nsula da Crimeia, anexada por Moscou em 2014. "� poss�vel uma f�rmula diplom�tica, a qual assegure que a Ucr�nia n�o se associar� � Organiza��o do Tratado do Atl�ntico Norte (Otan). A escolha entre os cen�rios mais preocupantes e os mais otimistas depende do cen�rio militar e do impacto das san��es financeiras sobre a R�ssia”, acrescentou.
Em Kiev, o cientista pol�tico Mykola Volkivskyi – ex-assessor do presidente do Parlamento (2014-2021) – experimentou a primeira emo��o positiva desde o in�cio da guerra. Na noite de ontem, ele e a fam�lia se reuniam para celebrar o 85º anivers�rio da av�. Ele relatou ao EM que os moradores costumam ficar em casa e somente saem para se deslocar at� os abrigos antia�reos. “N�s passamos muito tempo em esta��es de metr� profundas e em outros esconderijos. As for�as inimigas foram esmagadas e cercadas no Norte. Nossas tropas quebraram as linhas de suprimento e de log�stica. As tropas russas est�o lentamente gastando toda a muni��o. O inimigo ser� derrotado em solo, mas os ataques de avi�es e helic�pteros representam uma grande amea�a aos civis”, desabafou.

DEPOIMENTO
“Os russos matam inocentes”
“Todos os dias atendemos entre dois e cinco chamados de emerg�ncia ap�s bombardeios russos. � chocante saber que os russos atacam bairros residenciais. Eles est�o lutando contra a popula��o civil. A R�ssia � o agressor. O Ex�rcito de Putin est� matando cidad�os inocentes, assassinando nossas mulheres, crian�as e idosos. Est� destruindo nossa infraestrutura e nossos lares.
Trabalho no Servi�o Civil da Ucr�nia para Emerg�ncias desde 1997. Desde o come�o da guerra, em 24 de fevereiro, tenho trabalhado de forma ininterrupta e acompanhado os socorristas para documentar os crimes de guerra da R�ssia. Tamb�m ajudo nossa equipe de psic�logos a tranquilizar as pessoas. Todos os dias, vamos apagar inc�ndios e registrar a devasta��o causada pelos bombardeios.
Nessa foto, tirada em 15 de mar�o, consolo uma senhora chamada Svetlana Usenko. Ela estava muito amedrontada depois que um m�ssil caiu em um pr�dio vizinho de onde mora. Svetlana me disse que sentia medo e perguntou-me o que aconteceria depois. E ela apenas chorou. Eu respondi a ela apenas uma coisa: que n�s sobreviveremos e que reconstruiremos o nosso pa�s depois da vit�ria. Naquele dia, tivemos cinco chamados simult�neos relacionados a bombardeios em Kiev.”
- Svitlana Vodolaga, Porta-voz do Servi�o Civil da Ucr�nia para Emerg�ncias
