Paula Cruz Pereira
Graduanda em letras na Universidade de Bras�lia (UnB) e bolsista do CNPq
Foi divulgado o relat�rio do Programa Internacional de Avalia��o de Alunos (Pisa) 2018 e os resultados confirmam o que todos temiam: brasileiro n�o l�. A avalia��o, realizada pela Organiza��o para a Coopera��o e o Desenvolvimento Econ�mico (OCDE) com estudantes de 15 anos de 80 pa�ses, teve foco em leitura em sua �ltima edi��o. No Brasil, foram 10.691 jovens amostrados – correspondendo a uma representatividade de 68% da popula��o eleg�vel para o exame. Destes, o relat�rio mostra que apenas 2% atingiram n�veis m�ximos de profici�ncia (n�vel 5 ou 6) em qualquer das �reas avaliadas (leitura, matem�tica e ci�ncias). E, o que � mais grave, o desempenho m�dio na prova n�o apresenta mudan�a significativa desde 2009.
Em leitura, 50% dos alunos superaram o m�nimo de profici�ncia (n�vel 2): foram capazes de identificar a ideia principal de um texto de tamanho moderado, buscar informa��es com base em solicita��es expl�citas e refletir sobre o objetivo e caracter�sticas visuais simples de textos quando explicitamente inquiridos (Inep). Esse � o m�nimo definido para que o participante possa “compreender, usar, avaliar, refletir sobre e envolver-se com textos, a fim de alcan�ar um objetivo, desenvolver seu conhecimento e seu potencial, e participar da sociedade”. Metade dos jovens de 15 anos n�o atingiram esse m�nimo.
� fato que uma s�rie de quest�es socioecon�micas e culturais permeiam o assunto. O pr�prio Pisa revela que 50% dos alunos relataram ter faltado um dia de aula nas duas semanas anteriores � aplica��o da prova. O IBGE mostra que livrarias somem do mapa mais r�pido do que videolocadoras. E na Retratos da Leitura no Brasil de 2015, falta de tempo e falta de gosto s�o autodeclaradas as principais raz�es para n�o terem lido mais. Mas a pergunta que fica �: o que se pode, efetivamente, fazer frente a isso?. A meu ver, a resposta est� nas escolas. E n�o apenas no que tange � falta de acesso a livros e recursos, influ�ncia da internet e meios digitais, baixa qualifica��o e valoriza��o de professores, ou o c�none liter�rio question�vel, mas na pr�pria abordagem metodol�gica e pedag�gica.
As famigeradas aulas de literatura do ensino m�dio falam dos tipos de cantigas do trovadorismo, do bucolismo em Mar�lia de Dirceu – uma historiografia completa. Mas qualquer um que se d� ao trabalho de ir a uma sala de aula observa que se l� pouco texto de fato. Todorov, em “A literatura em perigo” (2007), preocupa-se com a estranha invers�o por meio da qual o estudante europeu � apresentado � literatura n�o mediante a leitura dos pr�prios textos liter�rios, mas intermediado por alguma forma de cr�tica, teoria ou hist�ria liter�ria. Herdamos mais ou menos esse problema.
As perguntas que emergem interessam e s�o muitas: em que momento a literatura se dissociou da leitura? E por que, quando se fala em literatura, pensamos antes em estudos te�ricos e historiogr�ficos do que simplesmente em livros?. N�o tenho as respostas, mas me parece que quisemos dar um passo maior que a perna. N�o faz sentido ensinar a an�lise de um texto antes de l�-lo, e as consequ�ncias dessa metodologia aos avessos aparecem nas provas de profici�ncia de leitura Brasil afora. � necess�rio, urgentemente, reconfigurar a rela��o do brasileiro com o texto. E a escola precisa mostrar o caminho.
