Aleluia Heringer
Doutora em educa��o e diretora do Col�gio Santo Agostinho
Uma escolaridade b�sica completa, iniciada aos 4 anos de idade e conclu�da aos 17, implica 14 anos da vida de um sujeito. Nesse intervalo de tempo, entram e saem de cena, com diferentes vozes, bagagens e jeito de ser, aproximadamente, 80 professores. Essa crian�a, at� o final de sua adolesc�ncia, far� parte de agrupamentos com configura��es distintas, tendo que, anualmente, fazer novas acomoda��es, recome�ar amizades e se deparar com novos problemas de conviv�ncia. Na escola, se sentir� forasteira em alguns momentos e, noutros, se sentir� plena ao encontrar seus pares ou grupos de interesses; se submeter� a regras coletivas de conviv�ncia, passar� apertos, sentir� medo, vergonha, tristeza e, algumas vezes, vai desabar em choro quando chegar em casa.
Ao ler todas essas situa��es, poder�amos imaginar quanta infelicidade esse lugar proporciona. Contudo, � a�, na escola, que esse sujeito vai se conhecer, fortalecer� sua identidade, se tornar� aut�nomo e viver� as primeiras emo��es de gostar de algu�m. Poder� ser bem ou malsucedido (nesse caso, sofrer� como se fosse o fim do mundo!).
Esse breve apanhado do cotidiano escolar, que todos n�s um dia vivenciamos e que faz parte de nossa hist�ria e constitui��o, est� sendo amea�ado pela assepsia rigorosa e de controle que, paulatinamente, instauramos na vida das crian�as e jovens. Esse movimento que se refina com o passar dos anos, a ponto de termos, no horizonte, a elimina��o da pr�pria escola, me faz perguntar para onde estamos indo, intencionalmente ou n�o.
Aldous Huxley, em 1932, publicou o livro “Admir�vel mundo novo”, em que apresenta uma civiliza��o futurista, onde tudo � controlado, desde a concep��o da vida em laborat�rios, a partir da ordem e da inexist�ncia da tristeza e dissabores. Quem faz o estranhamento desse mundo � John, personagem n�o concebido no “centro de incuba��o”, da� sendo chamado de Selvagem. Por ter sido criado em uma reserva, John era “estudado” como algo bizarro. Num dado momento da obra, Mustaf� Mond, o administrador dessa civiliza��o, tenta convencer o selvagem sobre as vantagens daquela estrutura livre dos problemas e � contestado por ele com o seguinte argumento, retirado de uma cita��o de Hamlet: “� mais nobre para a alma sofrer os a�oites do azar e as flechas da fortuna adversa, ou pegar em armas contra um oceano de desgra�as e, fazendo-lhes frente, destru�-las?”. E continua, ent�o, com uma cr�tica, ao dizer: “Os senhores n�o fazem nem uma coisa nem outra. N�o sofrem e n�o enfrentam. Suprimem, simplesmente, as pedras e as flechas. � f�cil demais”. A conversa continua e, no final do di�logo, Mustaf� diz: “O senhor reclama o direito de ser infeliz”, no que o selvagem responde: “Eu reclamo o direito de ser infeliz”, que, nesse contexto, significava conviver com diversos inconvenientes.
Volto ent�o para a educa��o. A pandemia nos obrigou ao ensino remoto, que, mesmo sendo a �nica op��o para o momento, tamb�m traz consigo cansa�o, ang�stia e muita saudade da escola. Esse per�odo � circunstancial e aguardamos com grande expectativa o dia em que poderemos retornar e nos abra�ar. N�o podemos confundir essa inquietante condi��o pela substitui��o definitiva do ambiente escolar, com tudo o que ele significa, pela educa��o domiciliar.
� bem prov�vel que uma crian�a ou jovem, no contexto seguro, controlado e livre de todos os dissabores, com tutores e amigos escolhidos de acordo com a vis�o de mundo dos pais, aprenda matem�tica, geografia, hist�ria, ingl�s, nata��o, al�m de acalmar o cora��o de pais e m�es. Est�o certos! O que precisamos refletir � o quanto esse projeto de programar para ser feliz vai roubar da vida e das hist�rias que as crian�as e jovens t�m o direito de vivenciar. Nesse caso, faz todo sentido o direito de ser infeliz.
