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Estado de Minas artigo

P�tria

A p�tria � um chamado da tribo, um eco primitivo de �pocas nas quais a identidade era condi��o de sobreviv�ncia


15/07/2021 04:00



Daniel Medeiros
Doutor em educa��o hist�rica e professor no Curso Positivo

o romance do espanhol Fernando Aramburu, a palavra p�tria � usada como pano de fundo para descrever os escombros de duas fam�lias arrastadas para a dor e para o sofrimento por acreditarem de maneira diferente sobre o seu significado. Como sabemos, a Espanha foi palco sangrento, devastador dessa palavra, que, junto com o voc�bulo “religi�o”, � respons�vel por mortes incont�veis.

P�tria � uma palavra que deixou de ser uma indica��o de algo, de um sentimento, de uma refer�ncia de lugar, para se tornar uma entidade espectral, capaz de criar identidades irresist�veis e, na mesma propor��o, de potencializar �dios insuper�veis.
 
 
 
 
 
Miguel de Unamuno, um dos mais importantes pensadores espanh�is, foi v�tima dessa avalanche reducionista chamada p�tria. Ortega Y Gasset, igualmente, sucumbiu � divis�o inevit�vel entre os patriotas e os n�o patriotas, sem que houvesse a menor possibilidade de passar um raio de luz na fronteira entre ambas, nenhuma “terra de ningu�m”, diante das trincheiras fortemente armadas das duas frentes que reivindicam, cada uma da sua maneira, a mesma primazia: ser o seu maior amante e defensor.

Como lembra o Pr�mio Nobel peruano Mario Vargas Llosa, a p�tria � um chamado da tribo, um eco primitivo de �pocas nas quais a identidade era condi��o de sobreviv�ncia, diante de um mundo desconhecido e profundamente hostil. Estar “entre os seus”, reconhec�-los, mesmo a dist�ncia, pelos jeitos comuns e, depois, pelos s�mbolos comuns, era um conforto e um descanso: “Ali est�o os nossos”. L�gico que o reconhecimento desse “n�s" s� � poss�vel pela exist�ncia do “eles”, e a manuten��o desse “eles" tornou-se, com o tempo, t�o importante quanto o aprendizado daquilo que definia o dom�nio do “n�s”.

A forma��o das novas gera��es, assim, exigiu um duplo reconhecimento e, para isso, as fronteiras precisavam estar sempre bem definidas, com valores excludentes, embora sempre alertas para o risco de subterf�gios e manipula��es: “Eles podem estar entre n�s”. E o mundo avan�ou assim, carregando essa sina de �dio e medo ao longo dos s�culos, com a ideia da p�tria ganhando vulto e adquirindo conceitos precisos, associando-se a um territ�rio, l�ngua, cultura, valores e times de futebol.

Poucos buscaram sobreviver a isso. Bertrand Russell, outro Pr�mio Nobel, quase teve a carreira destru�da por insistir em se manter longe do discurso belicista. Na Alemanha, o romance “Nada de novo no front” foi censurado por descrever soldados com medo e hesita��o, quando todos deveriam saber que o soldado que luta pela p�tria n�o teme a morte. Ao contr�rio, � uma honra e um dever. Por isso, o livro de Erich Marie Remarque era subversivo e perigoso, por incutir essas realidades no conceito de p�tria.

No romance de Aramburu, um homem que se recusa a pagar para os nacionalistas bascos � morto por eles. O filho de uma das fam�lias mais pr�ximas desse homem est� envolvido na sua morte e acaba preso. Muitos anos depois, o grupo terrorista desiste da luta armada e o que sobra s�o duas – entre tantas – fam�lias destru�das e amarguradas. Uma pela inutilidade da perda do marido e pai querido. Outra, pelo abandono do seu “her�i” – o filho destemido e fiel – que continuou apodrecendo na pris�o.

Os nacionalistas de Franco tinham por lema “viva a morte!”. Stalin, que construiu a bizarrice do “socialismo em um s� pa�s”, dizia que “uma morte � uma trag�dia; um milh�o de mortes, uma estat�stica”. Ningu�m diz que vive pela p�tria, mas que mata e morre por ela. Por isso, creio que a palavra p�tria deveria ter um significado a mais no dicion�rio: lugar de mortes in�teis.


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