“De perto, ninguém é normal.” O verso de Caetano Veloso na canção “Vaca profana” é recuperado pelo psicanalista argentino Mariano Horenstein no livro “Conversa infinita” (Quina Editora). O autor, que entrevistou dezenas de personalidades sobre psicanálise, diz que há liberdade neste encontro com a singularidade das pessoas, fora das luzes e dos flashes.
O projeto surgiu da convicção do argentino de que a psicanálise é um campo de fronteira com outros discursos. “A maioria dos psicanalistas que fizeram alguma diferença tem interlocução com várias disciplinas. Muitas descobertas surgem nessa zona de frente com o estrangeiro”, afirma Horenstein.
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Para ratificar sua visão, ele buscou escritores, artistas plásticos, escultores, filósofos, cineastas, dramaturgos, músicos, fotógrafos e arquitetos. Entrevistou Marina Abramovic, Anish Kapoor, Julia Kristeva, Jorge Drexler, Paul Auster e o próprio Caetano, entre outros.
Arte e ciência
Os interlocutores, em sua maioria, são artistas. Segundo Horenstein, há quem pense na psicanálise como forma de arte, enquanto outros a veem como ciência. Para ele, a psicanálise e a arte estão ligadas, mesmo que a teoria originada por Freud tenha rigor indiscutível em sua práxis.
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Anish Kapoor disse a Horenstein que o processo psicanalítico se assemelha muito ao processo que atravessa como criador. Considerado um dos artistas plásticos mais relevantes dos últimos tempos, o britânico fez análise por mais de 30 anos.
“O que você faz durante a exploração psicanalítica é procurar aquelas partes de si mesmo que não conhece ou não conhece muito bem, uma das duas”, disse. “É exatamente o que faz um artista.”
“Sabe-se que (Slavoj) Zizek tem uma relação com a psicanálise, que (Alain) Badiou tem uma relação com a psicanálise, assim como Nanni Moretti. Sabia disso porque conheci as obras deles”, conta Horenstein. Mas, em outros casos, descobriu a conexão por acaso, como ocorreu com Caetano Veloso.
“Eu não sabia que Caetano havia se analisado, e havia se analisado muito. Até escolheu onde viver em função de se havia ou não psicanalistas na cidade. Mas eu não sabia, porque Caetano não fala sobre isso publicamente o tempo todo”, afirma Horenstein.
Pela variedade de personalidades ouvidas, muitas entrevistas se deram “entre línguas”, nas palavras do autor. O psicanalista conta que consegue “se virar” em português, inglês e francês. Chamar um tradutor nunca era a melhor opção, pois um terceiro interfere na intimidade da conversa. Em alguns momentos, as línguas se misturavam: ele falava em uma e ouvia em outra.
Jogo de idiomas
Durante a entrevista com a cineasta israelita Nurith Aviv, em Paris, o jogo de idiomas se tornou evidente. Como o psicanalista não fala hebreu, as línguas se misturavam entre o inglês e o francês, às vezes um pouco de castelhano. Aviv misturava o hebreu e, quando fazia, “o encarnava”, comenta Horenstein.
“Conversa infinita” traz 19 entrevistas. Marina Abramovic, artista da performance, “falava o hebreu com o seu corpo”, recorda o autor.
“Muitas vezes, estou em situações em que acabo não entendendo tudo, mas, no entanto, parece algo interessante. É uma associação livre em muitos sentidos, inclusive corporal.”
Não era objetivo de Mariano Horenstein transformar as entrevistas em sessões de análise, mas algumas chegaram perto disso. Em outras (poucas), a conexão não foi alcançada. A maioria, conta, se deu em clima de intimidade, mistura entre entrevista e análise.
Isso ocorreu com o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler, radicado na Espanha. Na noite anterior, ele havia ganhado diversos prêmios e havia fila de jornalistas para entrevistá-lo.
“Começamos a conversar e, em um dado momento, ele diz algo sobre erro. Eu lhe pergunto, sem nenhuma pretensão de interpretar nada, por que tinha usado a palavra errar, no sentido de falhar. E lhe pergunto por errar no sentido de vagabundear, do nomadismo, o que tem muito a ver com a história dele. Para minha surpresa, Drexler se emocionou e tudo mudou. Ele cancelou as outras entrevistas e conversamos por muito mais tempo”, revelou Horenstein.
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“CONVERSA INFINITA”
• Livro de Mariano Horenstein
• Tradução: Julián Fuks
• Editora Quina
• 352 páginas
• R$ 67,90
