Laila Lalami acordou tarde em um dia de 2014 e olhou para o celular. Viu na tela notificação dizendo que, se quisesse chegar a tempo para sua prática de ioga, precisaria sair logo de casa. Em vez de ajudar, o aviso a incomodou. Ela se sentiu invadida pela onisciência da máquina.
Com base no incômodo, a celebrada autora marroquina-americana decidiu escrever um romance sobre a sociedade vigiada e punida por algoritmos. O texto levou uma década para tomar forma e finalmente saiu em 2025 como “O hotel dos sonhos”, que chega ao Brasil pela Record.
“Estamos entregando nossos dados para essas empresas o tempo todo”, diz Lalami. “Quis levar essa situação à sua conclusão lógica e ao seu limite absurdo”, afirma a autora, que em 2015 foi finalista do Pulitzer com “Memórias de um escravo”.
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Na distopia que Lalami criou, as pessoas não apenas compartilham sua localização e seu código genético, coisas que já fazem hoje, mas também seu inconsciente. Instalam implantes que, em tese, ajudam a dormir melhor. Nas entrelinhas dos contratos, permitem que empresas analisem seus sonhos. “Nem mesmo nossos pensamentos são privados”, diz ela.
No romance, governos têm acesso a esses dados e passam a prender pessoas com base em algoritmos capazes de prever crimes. É o que acontece com a protagonista Sara Hussein, detida por conta de um sonho. Lalami narra a rotina lenta e tediosa da protagonista e seu pesadelo punitivo.
Todas as detentas de “O hotel dos sonhos” são mulheres. “Sistemas de vigilância e controle podem ser universais, no sentido de afetar todas as pessoas, mas não são neutros”, diz a autora. Afetam alguns mais do que outros, a depender de marcadores, como gênero, raça e classe.
Expectativas de gênero
Essa é, talvez, a mensagem mais impactante do romance. Sara é punida não só por seus sonhos, alguns dos quais são violentos. Também é castigada por não se conformar às expectativas de gênero. Não fala baixo, nem abaixa a cabeça. “Como mulheres, existem expectativas sobre como temos que nos comportar”, diz Lalami. “Quando não nos adequamos a isso, chamamos a atenção.”
O livro mostra que os sistemas punitivos não são apenas aqueles que literalmente colocam uma pessoa na cadeia. Incluem mecanismos sociais que ditam, por exemplo, o que a mulher deve vestir.
Outro ponto central é a crítica de Lalami ao quanto nossa sociedade depende de sistemas de informação. Plataformas minam e revendem dados de usuários, o que a autora compara ao colonialismo do século 16. “Agora invadimos continentes não pelo açúcar e ouro, mas pela informação, nossa nova fronteira expansionista.”
O livro não é ataque às máquinas em si, mas às pessoas que as criaram.
A ideia de que os algoritmos são neutros serve, afirma Lalami, para eximir empresas de tecnologia de sua responsabilidade. Se algoritmo determina que o plano de saúde não cobre determinada operação, as firmas dizem que se trata de decisão técnica. “Mas o algoritmo foi escrito por alguém”, argumenta Laila Lalami. “Então, você pode reescrevê-lo”.
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“O HOTEL DOS SONHOS”
• De Laila Lalami
• Editora Record
• Tradução: Laura Folgueira
• 378 págs.
• R$ 69,90
• R$ 39,90 (ebook)
