
Quantas vezes ouvimos ou dissemos, nas �ltimas semanas, que devemos cuidar e nos preocupar com aqueles a quem amamos? Ao ficarmos em casa, evitamos trazer para a fam�lia os agentes da doen�a, por exemplo? Ouvimos tamb�m precis�es de todos os lados e or�culos de que a humanidade vai mudar. E ser� para melhor, diz a maioria. E est� a� uma coisa na qual acredito. Sou otimista e, apesar de absolutamente todos os trope�os que a humanidade insiste em dar, sei que estamos evoluindo.
N�o h� nada de apocal�ptico nisso. Apenas a realidade. O mundo continuar� sua marcha fren�tica logo que formos liberados para circular, mas muita gente sair� de casa mexido o suficiente para enxergar os outros de modo diferente, para dar valores diferentes ao que, at� outro dia, acreditava ser imposs�vel viver sem. Estamos vendo que � poss�vel sim, viver sem muita coisa, sem fazer muito do que faz�amos e ainda assim ser felizes.
Lembrei-me de uma passagem atribu�da a Jesus, em Mateus e em Marcos, no qual o Mestre foi alertado de que “vossa m�e, e vossos irm�o est�o l� fora e vos chamam”. “Quem � minha m�e e quem s�o meus irm�os?”, perguntou estranhamente. N�o � preciso acreditar em Jesus, ou se de fato isso tenha acontecido, para refletir sobre um dos significados dessas s�bias palavras.
De quem devemos cuidar mesmo? Daqueles a quem amamos, nos respondem as mensagens com suas m�sicas e imagens com potencial de nos levar �s l�grimas. Mas para mudarmde fato para melhor, como preveem muitos, temos que alargar este leque, n�o �? Estamos percebendo que n�o � s� aos m�dicos que devemos aplaudir no meio desse caos.
Todo dia que vejo que o caminh�o de lixo passou na minha rua, sinto um al�vio semelhante ao que sentiria se o m�dico dissesse que meu filho n�o est� doente. Toda vez que deixo alguma coisa essencial na casa de meus pais, agrade�o porque algu�m continua fazendo entregas nos supermercados e sacol�es, os frentistas est�o firmes e fortes nos postos de combust�veis, o pessoal da Cemig e da Copasa de plant�o para eventuais desastres que acontecem, com ou sem amea�a de v�rus. Cuidar de toda essa gente, e muitas outras, que tamb�m amamos ou dever�amos aprender a faz�-lo, � perceber que todos t�m um enorme valor pessoal e n�o apenas suas fun��es essenciais.
E j� que me atrevi a falar de Jesus, deixo aqui mais uma de suas passagens como provoca��o para nossas mentes, agora com tempo de sobra para refletir. Mateus relata que certa vez Ele fora questionado sobre por que seus disc�pulos insistiam em violar a tradi��o dos antigos e “s�bios” ao n�o lavar as m�os antes das refei��es. Jesus aproveitou o momento para chamar a aten��o de todos para o fato de que, muitas vezes, lavar as m�os n�o passa de um rito e que mais valem nossas a��es no bem comum que simples interven��es higi�nicas.
Que n�o fiquemos, ent�o, presos apenas � necessidade vital e real de lavar as m�os atualmente. Essa simples a��o jamais ser� suficiente para nos manter longe daquilo que pode nos fazer mal. Precisamos nos lembrar de que nosso inimigo maior n�o � o v�rus. Ele � nosso inimigo comum. Meu maior inimigo sou eu mesma. E o seu?
