
Doutora Irene Adams, de 72 anos e sotaque carregado, fala da afilhada Marlene, de 40, com a satisfa��o de quem acompanha a realiza��o dos filhos: “Ela esteve comigo em 1989, quando nos conhecemos. Hoje, ela tem marido, filhos e acabou de ser av�. At� hoje vem fazer ‘check-up’ comigo”. Diz-se feliz pela amizade fortalecida com a menina saud�vel e crescida, retirada das ruas. Sorriso aberto, o semblante � de quem aprendeu a sorrir com a alegria do outro. No apartamento modesto, bem pr�ximo � tumultuada Avenida Cristiano Machado, pilhas de pap�is sobre mesas e bancadas da sala. “N�o repare, sou uma workaholic”, faz men��o � condi��o permanente de pouco sono e muito trabalho.
Elegante, de roupa social econ�mica – cal�a, camisa e palet� –, tem nos p�s t�nis surrado. Especialista em imunologia, com passagem por diversos pa�ses, n�o � de falar de si. Com rel�gio de pl�stico no pulso, mostra-se simples, atenta apenas ao necess�rio para levar adiante uma vida mission�ria. “N�o gasto com rel�gio caro e n�o tenho nenhum tipo de joia. O pouco me basta. Sou uma pessoa frugal”, considera-se. O carinho pelo Brasil aumentou na d�cada de 1970, em viagem com o marido, funcion�rio de multinacional, para o Rio de Janeiro. Na d�cada seguinte, no surgimento da Aids, j� era m�dica em Belo Horizonte. Tinha interesse intelectual pela doen�a e amor arrebatador pelas crian�as de rua, segundo ela, “alvo pontecial para a prolifera��o do v�rus”.
“Como m�dica, trabalhando h� tempos com doen�as autoimunes, veio a Aids, uma doen�a relativamente nova. Eu conseguia lidar bem com pacientes com c�ncer nessa situa��o potencialmente fatal, mas, com a Aids, descobri que era diferente”, conta, que tamb�m � oncologista. Irene revela que foi tocada pelo preconceito e por toda a culpa que chegava junto do v�rus HIV. Para a doutora, a pessoa com Aids precisava de muito mais que um m�dico. Emocionada, faz voltar os ponteiros da pr�pria hist�ria: “Fui uma crian�a muito doente. Lembro-me aos 4 anos quando entrava num consult�rio, sofrendo, e vinha a pessoa de branco… s� a presen�a dela j� me tranquilizava. Foi quando, pequena, decidi ser m�dica e ajudar os outros”.
O in�cio
Para a doutora, a Aids trouxe a necessidade de um novo profissional da sa�de, bom ouvinte, atento �s particularidades vindas no rastro do novo mal, que dava o que falar em todo o mundo. Em 30 de abril de 1987, durante comemora��o do Dia da Rainha, feriado importante na Holanda, Irene conheceu um casal de volunt�rios que estava no Brasil trabalhando com menores de rua. Da conversa sobre Aids e crian�as abandonadas, a pergunta: “O que aconteceria se uma crian�a de rua fosse contaminada?”. Foi o suficiente para que a holandesa abra�asse a causa e decidisse fincar ra�zes na capital mineira.
No in�cio, entre os principais aliados, a Arquidiocese de Belo Horizonte por meio da Pastoral do Menor, e o colega imunologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dirceu Bartolomeu Greco. “Foi quando conseguimos verba para um projeto de preven��o entre os meninos de rua. Nessa �poca, a pastoral ganhou espa�o no por�o da Igreja Nossa Senhora da Concei��o e os meninos compareciam por causa da casa de apoio”, diz. Das descobertas na nova miss�o, Irene destaca “a pessoa dentro da pessoa”. A m�dica mission�ria considera que mais que ajudar, � preciso acreditar nos desfavorecidos. “� preciso entender que dentro de um menor infrator tem uma pessoa que precisa de ajuda”, diz.
“Ele n�o quer muito. Quer ser tratado como pessoa. Muitos garotos voltavam com frequ�ncia para o ‘check-up’ para o contato com a cl�nica, apenas para que pudessem ser olhados sem medo. Para se sentirem respeitados. Pense bem: j� n�o t�m fam�lia e ainda vivem sob o olhar do medo e da discrimina��o. Que futuro poderiam ter? N�o � um trabalho de atendimento m�dico apenas. � a��o. � resgate”, explica. “A Aids era de menos. A doen�a, em m�dia, depois da contamina��o, leva 10 anos para os primeiros sintomas. A maioria das crian�as de rua n�o tinha essa perspectiva de vida. Imagine: todo mundo dizendo ‘voc� n�o presta’, ‘voc� � criminoso’. O menino passa a acreditar nisso, porque tem baixa autoestima”, ressalta.
Irene conta que hoje 90% das crian�as acolhidas pela Ammor vieram de abrigos. Felicidade e orgulho se confundem no azul iluminado dos olhos. Para a doutora, imposs�vel n�o ficar feliz com o resultado da for�a-tarefa pela prote��o dos pequenos carentes. “Hoje temos o Estatuto da Crian�a e do Adolescente e o Conselho Tutelar, que movimentam toda uma rede de prote��o ao menor. Tenho muito orgulho de morar em Belo Horizonte, de ser cidad� honor�ria da cidade. Sinto-me parte dessa rede. Seria imposs�vel realizar sozinho algo dessa natureza”, considera. No entanto, para a mission�ria, os avan�os ainda est�o longe de eliminar os problemas.
“A grande maioria dos menores vem de fam�lias esfaceladas. Est�o nos abrigos porque as fam�lias continuam desestruturadas, porque n�o h� refer�ncias de uma vida diferente. Porque falta amor, respeito. Temos uma equipe que vai aos abrigos e trabalham din�micas com educadores e educandos do lugar. Uma pergunta muito importante na qual eles aprendem a pensar � ‘quem sou eu?’. � preciso que eles se reconhe�am e ganhem confian�a, acreditem num novo caminho”, sugere. Irene diz que a certeza de que seu trabalho est� na dire��o correta vem do retorno de seus afilhados. “Muitos meninos que passaram pela cl�nica, voltam. N�o para pedir dinheiro, mas em busca de um olhar de carinho.”
Fam�lia
Os filhos de sangue est�o longe. Um nos EUA, onde atua como representante comercial. A outra, engenheira, faz carreira na B�lgica. N�o s�o eles ou os netos a maior preocupa��o da doutora. S�o os filhos “adotados”, invis�veis, os que tiram seu sono. Entre 1992 e 1996, a imunologista trouxe recursos de organiza��es holandesas para as crian�as de Belo Horizonte. “O apoio foi interrompido porque eles disseram que o Brasil � um pa�s rico, que aqui o problema � a distribui��o de renda”, conta. Irene Adams critica a falta de tradi��o do brasileiro em ser volunt�rio. Lamenta a falta do h�bito de doa��es regulares aos projetos sociais que ajudam a combater as diferen�as.
“Na Holanda, nos Eua, isso � muito diferente. Meu sonho � de uma nova consci�ncia que d� sustentabilidade aos trabalhos sociais. Lutar pela cidadania dos outros � ganhar a minha cidadania. Aqui, eu n�o tenho direito ao voto, mas voc�s precisam votar muito certo. Por voc�s e por mim”, provoca. Solit�ria, imersa em mundar�u de compromissos, lazer s� tarde da noite, com os filmes Amor imposs�vel, de Lasse Hallstr�m, e Para Roma, com amor, de Woody Allen, anotados na agenda. Para encerrar a conversa, o desejo de quem aprendeu amar as crian�as de Belo Horizonte, de gra�a: “J� comprei meu abrigo no Cemit�rio do Bonfim. Quero ser enterrada na cidade onde aprendi a viver”, sorri.
SAIBA MAIS: PROJETO AMMOR
O foco do projeto est� no desenvolvimento humano de exclu�dos. As pessoas s�o motivadas a procurar atendimento m�dico pela informa��o e preven��o. Com isso, o paciente tem a autoestima resgatada, a cidadania e a conviv�ncia com a fam�lia. Em 2006, com o fechamento da Cl�nica Nossa Senhora da Concei��o (CNSC) –projeto da Arquidiocese de Belo Horizonte que acolhia pacientes com c�ncer terminal e portadores do v�rus HIV – servi�os sociais importantes ficaram sem teto. A imunologista Irene Adams resolveu integr�-los � Cl�nica Ammor. Assim, o projeto integra a��es como o Comvidha, de assessoria jur�dica; o Papel e Cia, de capacita��o por meio de oficinas de artes; a Academia de Gin�stica Movimento Sa�de, a Cooperativa Grupo Solid�rio, al�m do atendimento �s crian�as e adolescentes em risco social. Informa��es: (31) 3444-3877 e 9503-8277.
