
O ataque �s embarca��es desencadeou protestos e levou milhares de pessoas �s ruas das capitais. Belo Horizonte n�o ficou de fora e teve manifesta��es p�blicas na Pra�a da Liberdade e Pra�a Sete, no Centro. Sob as palmeiras-imperiais e diante do Pal�cio da Liberdade, homens e mulheres, civis e militares, carregavam bandeiras e faixas contra a a��o de Adolf Hitler (1889-1945) e apoiavam o envio de tropas ao front, na Europa. “O torpedeamento foi um tipo de sabotagem econ�mica, pois impediu que as mercadorias exportadas pelo Brasil chegassem aos seus destinos – os pa�ses aliados”, explica a professora de hist�ria da PUC Minas Carla Ferretti Santiago, autora da pesquisa BH nos tempos da Segunda Guerra. A estimativa � de que, durante o conflito, 50 navios tenham se tornado alvo dos alem�es.
Al�m da revolta pelos naufr�gios, h� outra vers�o bem aceita para Vargas ter declarado guerra � Alemanha, embora tardiamente, segundo a professora. O motivo seria o empr�stimo de US$ 20 milh�es, liberado pelos Estados Unidos, para a constru��o da Companhia Sider�rgica Nacional (CSN) em Volta Redonda (RJ). Com a press�o norte-americana, o Brasil, que no in�cio da guerra, em 1939, mantinha a neutralidade e depois uma posi��o amb�gua, n�o teve mais como ficar em cima do muro. E, al�m de mandar os pracinhas para a It�lia, permitiu at� que fosse constru�da uma base norte-americana em Natal (RN), ponto estrat�gico no Oceano Atl�ntico para os aliados.
O Brasil, via For�a Expedicion�ria Brasileira (FEB), mandou ao teatro de opera��es da It�lia 25.334 combatentes, dos quais 2.947 mineiros. Morreram 467, sendo 82 das Gerais. Houve vit�rias, como a conquista da cidade de Montese e do Monte Castelo, dentre v�rias outras, sendo que, em Collecchio e Fornovo, os pracinhas cercaram e aprisionaram a 148ª Divis�o de Infantaria Alem�, com quase 15 mil homens. Quem se lembra bem daqueles tempos sinistros no campo de batalha, de forma l�cida e clara, � o capit�o Divaldo Medrado, de 92 anos, que esteve � frente de um grupo de combate, a menor unidade de um regimento. Ele participou de uma das quatro tentativas de tomada ao Monte Castelo e levou 13 tiros de metralhadora no ombro – “omoplata, clav�cula e �mero”, faz quest�o de citar.
Decis�o
Na tarde de quarta-feira, reunido com ex-combatentes e familiares na sede da Associa��o Nacional dos Veteranos da FEB (AnvFeb), no Bairro Floresta, Regi�o Leste de BH, Medrado disse que a decis�o do Brasil de entrar na guerra foi correta. “Os nossos navios foram atacados na calada da noite e sem aviso pr�vio. Isso gerou revolta. Sab�amos que partir�amos para a Europa”, diz o capit�o. Para ele, guerra � uma “mis�ria”, mas, sem titubear, voltaria � luta “se as raz�es fossem as mesmas daquela �poca”. Durante o per�odo que ficou na It�lia, Geraldo Gomes dos Reis, de 92, foi motorista e conta que n�o teve medo: “Com o tempo, a gente foi se acostumando, mesmo que tivesse de dirigir � noite com os far�is apagados”.
Rafael In�cio Braz, de 91, tamb�m revela que n�o teve “um pingo de medo”, embora participasse da infantaria, tropa que faz o servi�o a p�. “N�o estava no primeiro ataque a Monte Castelo, portanto, escapei de morrer, como ocorreu com muitos brasileiros. Agrade�o a Santa Joana D’Arc. Antes de partir, minha irm� Ana Maria, devota, me pediu para rezar para ela”, recorda-se Rafael. Circulando pelo museu da AnvFeb, os tr�s mostram o amplo acervo da casa, n�o se intimidam diante da bandeira com a su�stica nazista e fazem quest�o de posar para fotos ao lado do canh�o de 155 mil�metros, de fabrica��o norte-americana, instalado no canteiro central da Avenida Francisco Sales, em frente ao n�mero 199.
Clima de paranoia
Nos tempos de guerra, mesmo a milhares de quil�metros, BH, ent�o com cerca de 215 mil habitantes, sentia os efeitos do conflito. E era evidente a total avers�o a tudo que se referisse a Alemanha, It�lia e Jap�o. “Houve um clima de eixofobia”, diz Carla Ferretti. Exemplos: dois turistas japoneses foram presos sob acusa��o de espionagem quando fotografavam o Pirulito da Pra�a Sete, e a Casa d’Italia, de encontro de imigrantes, na Rua Tamoios, sofreu ataques e foi confiscada pela prefeitura, tornando-se, depois, sede da C�mara Municipal. Lojas de alem�es viraram alvo de agress�es e das consequ�ncias da paranoia vigente, t�o logo o Brasil declarou guerra.
O clima de medo esteve presente o tempo todo. Sem chance de receber um ataque a�reo nazista, muitos belo-horizontinos agiam como se a guerra estivesse logo ali. Houve queima e depreda��o de estabelecimentos comerciais e muitos estrangeiros foram agredidos e apanharam nas ruas. A Fazenda Mikado, primeira col�nia agr�cola japonesa de BH, instalada em Venda Nova, sumiu do mapa. As autoridades policiais prenderam os homens, ordenaram o despejo imediato de mulheres e crian�as e apreenderam livros e documentos. E mais: o medo dos bombardeios fez os novos pr�dios, como o Edif�cio Acaiaca, na Avenida Afonso Pena, sa�rem das pranchetas dos arquitetos com abrigos antia�reos.
Ao lado do estresse generalizado, houve tamb�m campanhas para ajudar o Brasil a repor os navios perdidos. Uma delas, a Pir�mide Met�lica, come�ou assim que o An�bal Ben�volo foi torpedeado em agosto de 1942. Na Pra�a Sete, moradores doaram ferro-velho para constru��o de outro navio. As coletas de dinheiro ganharam as vias p�blicas, com destaque para a Campanha da Mulher Mineira pela Avia��o, com o objetivo de ajudar o pa�s a comprar avi�es de combate.
