
Ouro Preto – Nos arm�rios de madeira caprichosamente preservados, h� frascos com subst�ncias que, em pleno s�culo 21, podem surpreender ou deixar muita gente, no m�nimo, curiosa. Vamos l�: sob o r�tulo decorado com rosas mi�das est�o as raspas de ponta de veado, enquanto ao lado, identificado pela etiqueta escrita a caneta-tinteiro, fica o vidro com tintura de Cannabis indica. Mais adiante, os olhos atentos descobrem os besourinhos verdes conhecidos cientificamente por cant�ridas e, em tempos idos, fundamentais na composi��o de poderoso afrodis�aco.
Diante das prateleiras com tantas “preciosidades” naturais, destaques de um dos v�rios ambientes do Museu da Farm�cia, em Ouro Preto, o professor Victor Vieira de Godoy, de 71 anos, explica a finalidade das duas primeiras mat�rias-primas, que pertenceram a uma antiga “pharmacia” da cidade e foram doadas � institui��o. Se as raspas de ponta de veado, retiradas em lascas do chifre do animal, entravam nas f�rmulas de medicamentos de combate � tosse e � diarreia, a Cannabis indica era “receitada” como calmante.
“Sabia que a maconha (Cannabis sativa) s� foi proibida no Brasil na d�cada de 1930?”, pergunta o professor aposentado da Escola de Farm�cia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), na Regi�o Central, e um dos criadores do equipamento cultural e cient�fico localizado no Centro Hist�rico da cidade, a poucos metros da Pra�a Tiradentes. Apaixonado pela profiss�o e pelos laborat�rios, universo que faz os olhos brilharem, Victor est� lan�ando o livro A Escola de Farm�cia de Ouro Preto – A mem�ria sublimada, contando a hist�ria dos 180 anos da institui��o de ensino, completados em 4 de abril.
Se considerada de forma isolada, sem estar vinculada � medicina, a Escola de Farm�cia de Ouro Preto � a primeira da Am�rica Latina e, desde 1839, funciona continuamente. Para celebrar a data e apresentar ao mundo um acervo de valor incompar�vel, o profissional formado em 1973 mergulhou fundo durante meses nas pesquisas a fim de se dedicar � obra com fotos de arquivo, outras tantas feitas por ele e pelo filho, Lucas de Godoy, reprodu��es de gravuras antigas e esmero editorial que entrega ao leitor uma obra de arte.
CORES VIVAS

Presentes no estandarte da Escola de Farm�cia (antes Pharmacia) de Ouro Preto, o verde, o vermelho e o amarelo fazem todo o sentido nessa trajet�ria fascinante e ainda desconhecida de muitos brasileiros, pois representam “as compet�ncias e anseios dos farmac�uticos”. O professor abre o exemplar nas primeiras p�ginas e mostra o verde simbolizando a vegeta��o local: “O verde da clorofila, elemento vital das plantas, de onde era extra�da a quase totalidade das subst�ncias com a��o farmacol�gica dos medicamentos daquela �poca (s�culo 19), caracteriza os mist�rios da natureza”.
J� o vermelho marca uma das pe�as mais espetaculares do museu e ganhou realce logo no in�cio – trata-se do rosto de uma mulher, esculpido em cera para aulas de anatomia, com a face direita aberta para deixar � vista termina��es nervosas e m�sculos. “� o vermelho da corrente sangu�nea, que transporta o medicamento at� seu local de a��o, demonstrando o conhecimento do corpo humano”. E tem o amarelo, “cor ardente, atributo do poder, s�mbolo da eternidade”, representando conhecimento t�cnico, anseios de sobreviv�ncia e reconhecimento da profiss�o farmac�utica pela sociedade”.
O subt�tulo do livro, A mem�ria sublimada, tem a ver com a qu�mica dos elementos e os mist�rios da passagem do tempo, numa met�fora das a��es e transforma��es. Compreendida como a mudan�a do estado s�lido para o estado gasoso, sem passar pelo l�quido, a sublima��o, para quem trabalha com arquivos hist�ricos, pode ser a forma de aquecer o interesse pelo conhecimento. “Os fatos se solidificam e voltam � vida, para, na sequ�ncia, como vapor, pousar nas p�ginas dos livros. J� a mem�ria � o jeito que se tem de tentar parar o tempo, esse incontrol�vel”. Em resumo, � a for�a da pesquisa movendo a vida e refinando o conhecimento para a posteridade.
Explicando que h�, sobre Ouro Preto, um foco maior no s�culo 18, quando ocorreram o apogeu e decad�ncia do ouro, e pouco no 19, Victor revela que seu maior interesse, ao escrever o livro, foi contar a hist�ria e mant�-la viva. “No s�culo 19, 95% dos medicamentos eram de origem vegetal, e apenas 5% de origem mineral e animal”. Caminhando pelas depend�ncias do Museu da Farm�cia, torna-se um grande prazer ver os variados frascos, caixas e potes, saber a utilidade de instrumentos centen�rios e respirar num ambiente que remete aos alquimistas, �s pessoas que conheciam as ervas e sabiam do seu poder de cura.
RESIST�NCIA

“No Brasil, na primeira metade do s�culo 19, longe do litoral e em meio �s montanhas, a escola foi criada, aqui, para ensinar a farm�cia e a mat�ria m�dica, especialmente a brasileira. Enfrentando a proibi��o do governo central, esta iniciativa de pol�ticos, educadores e profissionais de sa�de deu origem ao primeiro curso de farm�cia a funcionar desvinculado das faculdades de Medicina na Am�rica Latina”, relata o autor. Pela sua longevidade, a Escola de Farm�cia de Ouro Preto se transformou numa testemunha da luta pela melhoria das condi��es de vida no Brasil, a partir de seu compromisso com a pesquisa, produ��o e uso adequado dos medicamentos”.
No museu, visitante ter� muito o que ver, pois o acervo guarda mais de 40 mil amostras de plantas que registram a mem�ria vegetal de Minas e est�o diretamente envolvidas, de alguma forma, em fatos hist�ricos como a Revolta do Ano da Fuma�a, a Revolu��o Liberal de 1842, a Guerra do Vinho e a Proclama��o da Rep�blica, que completa 130 anos em 15 de novembro. No livro, h� v�rias curiosidades. Uma delas � que nasceu, no laborat�rio da Escola de Farm�cia de Ouro Preto, na d�cada de 1920, a f�rmula do guaran� Ant�rctica, pelas m�os do pesquisador Pedro Batista de Andrade. “Os tr�s principais refrigerantes do mundo foram criados por farmac�uticos”, diz o professor.
Servi�o
Museu da Farm�cia
Rua Costa Sena, 171, no Centro Hist�rico de Ouro Preto (atr�s do Museu da Inconfid�ncia)
Hor�rio: de segunda a sexta-feira, das 13h �s 17h
Telefone: (31) 3559-1630
Entrada gratuita
Livro: A Escola de Farm�cia de Ouro Preto – A mem�ria sublimada, pode ser adquirido no museu (R$ 90), na livraria Outras Palavras, em Ouro Preto, e nos sites da livrarias Martins Fontes e Travessa. Toda a renda � revertida para o Museu da Farm�cia
