Pedro Ferreira
Enviado especial
A etnia Maxakali est� dividida em quatro tribos. Al�m de Pradinho, h� �gua Boa, j� no munic�pio de Santa Helena, at� onde vai a reserva ind�gena. Tamb�m ficaram ra�zes em Top�zio, distrito de Te�filo Otoni, e em Ladainha, no Vale do Mucuri. Em qualquer lugar, os Maxakali enfrentam o mesmo problema: alcoolismo. S�o vistos vagando, esperando a oportunidade de conseguir cacha�a. “A vis�o que o povo de fora tem do �ndio � que ele bebe demais, que � baderneiro. � um problema do qual o ind�gena n�o est� livre”, disse a psic�loga da aldeia, Maria Augusta Souza Silva.
O dia na aldeia come�ou mais cedo do que de costume. O agente de sa�de ind�gena Ronildo Maxakali trabalha no posto da Vila Nova e j� saiu de l� com o rosto pintado. Ao contr�rio de muitos �ndios como ele, usou maquiagem emprestada da t�cnica de enfermagem Atila Rodrigues, e n�o tinta extra�da do urucum, genipapo e madeira. Nessas ocasi�es, funcion�rias contratadas pela Funai se pintam e se vestem como as �ndias. Os vestidos s�o costurados pelas pr�prias mulheres da aldeia, cada um mais colorido que o outro.
A enfermeira Karoline Prates conta que os �ndios da reserva moravam todos na Vila Nova, que em nada se parece com uma aldeia. As casas s�o nos moldes do homem branco, a maioria com antena parab�lica para garantir a televis�o funcionando. Hoje, a maioria foi embora. Os que ficaram se dividiram em pequenas aldeias, ao todo 12, e constru�ram suas casas com barro e sap�.
Na Vila funciona o posto m�dico e um odontol�gico, uma escola e a cozinha do projeto de combate � desnutri��o infantil, do governo federal. A comida tem supervis�o de uma nutricionista e os �ndios adultos que acompanham as crian�as tamb�m comem.
Hoje o principal sustento n�o vem da terra ou da mata: vem do Bolsa-Fam�lia. S�o poucos os que ainda ca�am e pescam. Mas h� planta��es de mandioca e batata, milho, quiabo, maxixe e ab�bora. O artesanato tamb�m � fonte de renda: eles aprenderam que pulseiras, arcos, flechas, bolsas, brincos e prendedores de cabe�a fazem sucesso entre os brancos.
Os integrante da aldeia que trabalham com sa�de e educa��o t�m sal�rio, com direito a aposentadoria. “A mata foi embora. Homem branco cortou tudo em volta da gente. Plantam capim para gado. Aqui n�o tem mais on�a, n�o tem mais arara, papagaio”, lamenta Marilton Maxakali, o fot�grafo da tribo.
Ele conta que sempre foi apaixonado por fotografia. “Ganhei uma m�quina do pessoal da UFMG, que me levou para fazer uma oficina em Belo Horizonte. Comecei a fotografar tudo na aldeia, para poder guardar a nossa cultura e mostrar para quem n�o conhece os Maxakali”, disse. Seu maior orgulho foi ter ganho R$ 25 mil com a premia��o de um curta-metragem em Goi�s. “Meu filme chama Ca�ando capivara”, disse. Antigamente, segundo ele, a tribo ca�ava para garantir a comida das festas. Agora, a carne vem do mercado.
Na escola da aldeia, as paredes s�o de troncos. Os pequenos s�o alfabetizados na l�ngua nativa e em portugu�s, mas nessa fase poucos se interessam pela fala do homem branco. O espa�o acolhe qualquer tipo de reuni�o na aldeia, como a de ontem. Marilton deixou seu equipamento fotogr�fico para cuidar da mesa da festa. As m�sicas que escolhia eram bem conhecidas. “Forr�. Eles gostam”, justificou. Embora preze pela tradi��o, ele se rende ao gosto dos irm�os de tribo. Bem que poderia ser a m�sica que inicia este texto. Mas ela faz parte das coisas do passado, encontradas apenas em um velho livro com escritas indecifr�veis para quem n�o conhece a cultura, mas com tradu��o para o portugu�s.
