
"Pode parecer estranho para algumas pessoas viver em cima de um cemit�rio, mas n�s estamos acostumados", afirma Ana Maria Nieto, que vive na cidade portu�ria de Arica, no Chile.
A localidade na fronteira com o Peru foi constru�da sobre as dunas arenosas do deserto do Atacama, o mais seco do mundo. Mas, muito antes da funda��o dessa cidade costeira no s�culo 16, esta �rea foi o lar do povo chinchorro.
As m�mias dos chinchorro foram documentadas pela primeira vez em 1917, pelo arque�logo alem�o Max Uhle, que havia encontrado alguns dos corpos preservados em uma praia. Mas levou d�cadas de pesquisas para determinar a sua idade.
Data��o por radiocarbono demonstrou que as m�mias tinham mais de 7.000 anos de idade — dois mil�nios a mais que as conhecidas m�mias eg�pcias.
Isso faz com que as m�mias dos chinchorro sejam a mais antiga evid�ncia arqueol�gica conhecida de corpos mumificados artificialmente.
A cultura chinchorro
- Cultura pr�-cer�mica que durou de 7000 a 1500 a.C.
- Pescadores e ca�adores-coletores sedent�rios.
- Viveram no que hoje � o extremo norte do Chile e o sul do Peru.
- Mumificavam seus mortos de forma sofisticada e inspiradora.
- Acredita-se que a mumifica��o come�ou como forma de manter viva a mem�ria dos mortos.
O antrop�logo Bernardo Arriaza, especialista no povo chinchorro, afirma que eles praticavam a mumifica��o intencionalmente. Isso significa que eles empregavam pr�ticas mortu�rias para conservar os corpos, em vez de permitir que eles se mumificassem naturalmente no clima seco — embora alguns corpos mumificados naturalmente tamb�m tenham sido encontrados no local.

Pequenas incis�es eram feitas nos corpos, os �rg�os eram retirados e as cavidades eram secas, enquanto a pele era arrancada, explica Arriaza. Os chinchorro ent�o preenchiam o corpo com fibras naturais e gravetos para mant�-lo reto e usavam varetas para costurar a pele de volta.
Eles tamb�m aplicavam espessos cabelos pretos � cabe�a da m�mia e cobriam seu rosto com argila e uma m�scara com aberturas para os olhos e a boca.



Por fim, o corpo era pintado de vermelho ou preto caracter�stico, utilizando pigmentos minerais, como ocre, mangan�s e �xido de ferro.
A abordagem e os m�todos de mumifica��o dos chinchorro eram claramente diferentes dos eg�pcios, segundo Arriaza. Os eg�pcios n�o s� utilizavam �leo e bandagens, mas a mumifica��o era tamb�m reservada para os mortos da elite. J� os chinchorro mumificavam homens, mulheres, crian�as, beb�s e at� fetos, independentemente da sua posi��o social.
Viver com os mortos
Com as centenas de m�mias encontradas em Arica e em outros locais no �ltimo s�culo, os habitantes locais aprenderam a viver ao lado dos restos mortais — e, �s vezes, sobre eles.
A descoberta de restos humanos durante trabalhos de constru��o ou quando um c�o fareja e desenterra partes de uma m�mia � algo vivido por gera��es de nativos. Mas eles passaram muito tempo sem compreender a import�ncia desses restos mortais.
"�s vezes, os moradores nos contam hist�rias de crian�as que usaram os cr�nios como bolas de futebol e como elas retiravam as roupas das m�mias, mas agora eles sabem que devem nos informar quando encontrarem alguma coisa, sem mexer no local", diz a arque�loga Jannina Campos Fuentes.
As habitantes locais Ana Maria Nieto e Paola Pimentel est�o entusiasmadas pelo fato da Unesco ter reconhecido a import�ncia da cultura chinchorro.
As duas mulheres lideram associa��es de moradores pr�ximos a dois locais de escava��o e v�m trabalhando em conjunto com um grupo de cientistas da Universidade de Tarapac� para ajudar a comunidade a compreender a import�ncia da cultura chinchorro e garantir que os preciosos s�tios arqueol�gicos sejam bem cuidados.
Existem novos planos para um museu na regi�o — onde grupos de restos mortais dos chinchorro repousam sob vidro refor�ado para serem observados pelos visitantes — a fim de oferecer uma nova experi�ncia interativa. A ideia � treinar os habitantes locais para que se tornem guias e possam mostrar a sua heran�a para outras pessoas.
Atualmente, apenas uma parte muito pequena das mais de 300 m�mias chinchorro encontra-se em exibi��o. A maioria delas est� abrigada no Museu Arqueol�gico de San Miguel de Azapa.
O museu, de propriedade da Universidade de Tarapac�, que tamb�m o administra, fica a 30 minutos de carro de Arica e oferece exposi��es impressionantes que mostram o processo de mumifica��o.
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Um museu maior est� sendo planejado no local para abrigar maior quantidade de m�mias, mas tamb�m s�o necess�rios recursos para garantir que elas sejam preservadas corretamente e n�o se deteriorem.
Arriaza e a arque�loga Jannina Campos est�o tamb�m convencidos de que Arica e seus morros vizinhos ainda escondem muitos tesouros a serem descobertos. Mas s�o necess�rios mais recursos para encontr�-los.
O prefeito de Arica, Gerardo Esp�ndola Rojas, espera que a inclus�o das m�mias na Lista do Patrim�nio Mundial da Unesco incentive o turismo e atraia mais recursos financeiros.

Mas ele sabe que tudo deve se desenvolver de maneira correta, trabalhando com a comunidade e preservando os s�tios arqueol�gicos.
"Diferentemente de Roma, que construiu sobre monumentos, os habitantes de Arica vivem sobre restos humanos e precisamos proteger as m�mias", afirma o prefeito.
Existem leis de planejamento urbano em vigor e os arque�logos est�o presentes sempre que s�o conduzidos trabalhos de constru��o, segundo ele, para garantir que os restos preciosos n�o sejam perdidos.
Esp�ndola tamb�m � categ�rico ao afirmar que, diferentemente de outras partes do Chile, onde operadoras de turismo e companhias multinacionais compraram terras para lucrar com os locais tur�sticos, o patrim�nio de Arica deve permanecer nas m�os dos seus habitantes e beneficiar a comunidade local.
A presidente da associa��o de moradores, Ana Maria Nieto, est� confiante de que a recente fama das m�mias favorecer� a todos. "Esta � uma cidade pequena, mas amistosa. Queremos que turistas e cientistas de todo o mundo venham aprender sobre a incr�vel cultura chinchorro que nos acompanha por toda a vida", conclui ela.
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