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Liberada pela Justi�a, brasileira segue presa na �frica do Sul em meio � pandemia

Mulher condenada a 15 anos de pris�o deveria ter sa�do da pris�o em abril e embarcado para o Brasil no dia 4 de maio; h�, atualmente, 33 brasileiros presos no pa�s, dos quais 20 s�o mulheres acusadas de tr�fico


08/07/2020 14:59 - atualizado 08/07/2020 15:21


H, atualmente, 33 brasileiros presos na frica do Sul; apenas um foi preso por roubo, todos os demais por envolvimento com o trfico de drogas
H�, atualmente, 33 brasileiros presos na �frica do Sul; apenas um foi preso por roubo, todos os demais por envolvimento com o tr�fico de drogas (foto: Getty Images)

Depois de oito anos e quase cinco meses fora do Brasil, a baiana Rafaela* havia se preparado para passar o Dia das M�es em Salvador (BA) com a �nica filha e sua m�e, que hoje tem 73 anos. Tamb�m conheceria seus dois netos: um menino de 7 anos e uma menina que comemorou o primeiro anivers�rio no fim de maio.

Rafaela, condenada a 15 anos de pris�o por tr�fico de drogas na �frica do Sul, deveria ter sa�do no dia 28 de abril da pris�o do Female Correctional Center, em Johannesburgo - onde ela � a detenta brasileira presa h� mais tempo - e embarcado para o Brasil no dia 4 de maio. A Justi�a sul-africana j� havia decidido soltar Rafaela mesmo antes da pandemia, j� que ela cumpriu boa parte da pena e tem tido bom comportamento. Parentes e amigos da brasileira se uniram para comprar a passagem de volta, que custou 465 euros (cerca de R$ 2,8 mil).

Nos �ltimos meses, pelo menos 28 pa�ses africanos anunciaram que libertariam 83.105 presos para evitar o aumento de casos de COVID-19 entre detentos. A maior parte das libera��es (19 mil) seria na �frica do Sul, que come�ou o ano com 40 brasileiros presos, o dobro do registrado no ano anterior. H�, atualmente, 33 brasileiros presos no pa�s. Apenas um foi preso por roubo, todos os demais por envolvimento com o tr�fico de drogas. Vinte deles s�o mulheres. Desde o ano passado, tr�s brasileiras presas deram � luz na �frica do Sul.

A �frica do Sul tem 243 pres�dios e n�o h� camas suficientes para todos os presos. De acordo com o �ltimo relat�rio do Departamento de Servi�os Correcionais, at� mar�o do ano passado havia 118. 572 camas para 162.875 detentos, superlota��o que s� tem crescido nos �ltimos anos.

At� dia 28 de junho, o Departamento de Servi�os Correcionais confirmou 2311 casos de infectados pelo novo coronav�rus (1227) em detentos, sendo que 21 morreram.

Os planos de Rafaela foram interrompidos pela pandemia de COVID-19: os governos angolano e sul-africano suspenderam voos comerciais para tentar conter o avan�o do novo coronav�rus nos dois pa�ses. Ela partiria de Johannesburgo e, depois de uma escala em Angola, seguiria para S�o Paulo, onde pegaria um voo direto para Salvador.


Nos ltimos meses, pelo menos 28 pases africanos anunciaram que libertariam, no total, 83.105 presos para evitar o aumento de casos de covid-19 entre detentos
Nos �ltimos meses, pelo menos 28 pa�ses africanos anunciaram que libertariam, no total, 83.105 presos para evitar o aumento de casos de covid-19 entre detentos (foto: Getty Images)

Espera e dificuldades no Brasil

A �nica filha de Rafaela, Luiza*, atualmente vive em Salvador e aguardava ansiosamente a chegada da m�e. Est� separada, desempregada, tem 27 anos e � m�e das duas crian�as mencionadas no in�cio desta reportagem.

"Meu filho chorou quando soube que ela n�o viria (para o Dia das M�es). � bastante frustrante. Eu sonhei com ela aqui nesta data", contou Luiza.

Na �poca da pris�o da m�e, Luiza tinha 19 anos e morava em S�o Paulo, com o pai dos dois filhos. Contou que traficantes tamb�m a procuraram, chegaram a depositar R$ 500 na conta dela, e nunca mais entraram em contato. Por mais dif�cil que esteja a vida atualmente, Luiza diz que aprendeu a li��o atrav�s da puni��o aplicada � m�e. "Nenhum dinheiro vale a pena se for para voc� perder sua liberdade", disse.

Rafaela, que j� deveria ter sa�do pela decis�o da Justi�a, chegou a gastar nos �ltimos anos quase R$ 60 mil contratando dois advogados. Nascida na Bahia, morava em S�o Paulo desde 2001, onde come�ou a trabalhar como bab� na regi�o central da cidade. Um pres�dio era o �ltimo lugar onde a baiana planejava estar; o sonho era construir uma vida nova e melhor, de forma honesta.

Com o trabalho de bab�, conseguiu levar a filha Luiza para morar com ela em S�o Paulo, em 2002. Chegou a abrir uma loja no bairro da Liberdade, vendendo acess�rios femininos e cabelos para confec��o de perucas.

Depois de um assalto � loja, a situa��o financeira dela ficou muito dif�cil. Faltava dinheiro para repor as mercadorias roubadas, pagar fornecedores, as contas da casa e sustentar a filha.

Foi nessa �poca que um dos clientes a ofereceu US$ 10 mil para embarcar com 3 quilos de coca�na para Maputo, em Mo�ambique, com escala na �frica do Sul. A droga foi costurada no top e na cinta que ela usava. Os traficantes a deram US$ 500 para viajar. A miss�o era entregar a mercadoria a um desconhecido que saberia identific�-la. O pagamento s� viria depois do servi�o feito.

Em 22 de janeiro de 2012, Rafaela embarcou em S�o Paulo; foi presa no dia seguinte ao descer em Johannesburgo. Depois de um ano e cinco meses de espera, a brasileira foi condenada a 15 anos de pris�o. Estudou ingl�s e fez cursos oferecidos pela Universidade de Johannesburgo na cadeia para passar o tempo, manter a mente ocupada e n�o se meter em confus�o.


No ano passado, foram presas 465 pessoas de 49 nacionalidades em 19 aeroportos do Brasil; destes, 77 eram africanos, suspeitos de trfico de drogas, segundo a PF
No ano passado, foram presas 465 pessoas de 49 nacionalidades em 19 aeroportos do Brasil; destes, 77 eram africanos, suspeitos de tr�fico de drogas, segundo a PF (foto: Getty Images)

Retorno ao Brasil

Enquanto Rafaela espera que sua libera��o saia do papel, outras tr�s detentas brasileiras deixaram a �frica do Sul em um voo de repatria��o no dia 1º de julho, junto com uma beb� de 4 meses, filha de uma delas que nasceu na cadeia. Elas foram libertadas nas �ltimas semanas, mas n�o est� claro se foi por conta da decis�o do governo de soltar presos por conta da pandemia.

As tr�s brasileiras presas na �frica do Sul ouvidas pela reportagem disseram ter sido contratadas por nigerianos em diferentes capitais no Brasil para atuarem como "mulas" (assim s�o chamadas no mundo do tr�fico as pessoas que viajam transportando drogas).

Essas tr�s brasileiras tamb�m foram flagradas pela pol�cia tentando desembarcar com coca�na em Johannesburgo, s� que no ano passado. As tr�s s�o de diferentes regi�es do Brasil e se conheceram na cadeia.

Antes de voltar para o Brasil, uma delas contou ter sido presa no dia 17 de junho de 2019 ao desembarcar com um quilo de coca�na na mala no aeroporto O.R. Tambo, tendo vindo de S�o Paulo, onde morava. M�e de tr�s filhos (o primeiro nasceu quando tinha 17 anos), ela � do Par� e disse que traficantes africanos que atuam no Brasil prometeram pagar R$ 20 mil para que ela levasse a coca�na at� a cidade sul-africana. Foi a primeira viagem internacional dela.

As ex-detentas brasileiras dizem que, ao deixarem o pres�dio, foram para um hotel perto do aeroporto. Normalmente, os detentos estrangeiros libertados s�o levados para o Centro de Repatria��o Lindela, onde ficam at� embarcarem para seus pa�ses.

A BBC News Brasil localizou o hotel para onde foram as tr�s brasileiras libertadas. Apesar de terem dito que s�o de fam�lias humildes, as brasileiras contaram que as despesas estavam sendo bancadas por parentes no Brasil. O hotel para onde foram depois que sa�ram da pris�o � simples. No quarto h� duas camas de casal, banheiro e um frigobar.

As tr�s detentas contrataram o mesmo advogado sul-africano para defend�-las, conhecido entre detentos por cobrar caro, mas prometer a liberta��o dos presos. Pelo que as tr�s contaram, s� com o servi�o dele gastaram, juntas, aproximadamente R$ 100 mil no total.

No dia do encontro, elas ainda n�o tinham recebido os pr�prios passaportes. Segundo o advogado que contrataram, s� seriam entregues horas antes de embarcarem de volta para o Brasil.

A embaixada do Brasil em Pret�ria disse, por e-mail, que n�o pode, em respeito � privacidade dos cidad�os, comentar sobre casos espec�ficos. Mas ressaltou que tem acompanhado, como de costume, a situa��o de todos os cidad�os brasileiros detidos em sua jurisdi��o durante a pandemia do novo coronav�rus. Informou ainda que o acompanhamento dos processos em ju�zo, no entanto, � feito pelos advogados dos cidad�os detidos, sejam eles privados ou gratuitos e apontados pelo Estado sul-africano.

A embaixada brasileira disse tamb�m que continua mantendo contato com as autoridades sul-africanas e que at� o momento nenhum brasileiro se beneficiou da decis�o do presidente Cyril Ramaphosa de soltar presos por conta da pandemia.

A reportagem procurou o Departamento de Servi�os Correcionais da �frica do Sul, que por sua vez disse que, por envolver estrangeiros, o assunto � de responsabilidade do Minist�rio das Rela��es Internacionais, tamb�m procurado pela BBC News Brasil. Mas at� agora n�o houve resposta sobre a liberta��o das tr�s brasileiras presas no ano passado e a perman�ncia na pris�o da detenta que j� deveria ter sido libertada.

Combate ao tr�fico nos aeroportos brasileiros

A reportagem entrevistou, em Pret�ria, o respons�vel pela Pol�cia Federal brasileira no continente africano, Marcelo Diniz Cordeiro, que afirma que medidas contra o tr�fico entre os dois pa�ses tamb�m tem sido tomadas no Brasil. No ano passado, foram presas 465 pessoas de 49 nacionalidades em 19 aeroportos do Brasil. Entre eles, 268 brasileiros. Desses presos, 77 s�o africanos (de 12 pa�ses), principalmente da Nig�ria (40).

"O continente africano tem representado cada vez mais uma possibilidade para as organiza��es criminosas distribu�rem a droga produzida na Am�rica do Sul. Parte fica aqui no continente (africano), mas a maioria vai depois para grandes centros, como Europa, �ndia e Emirados �rabes", disse o delegado.

A maioria dos presos (130) � jovem, tem entre 16 e 30 anos. Mas, na lista, h� tr�s idosos com mais de 70 anos que tamb�m foram presos tentando deixar o Brasil com drogas no ano passado. O aeroporto com mais pris�es foi o de Guarulhos.


Aeroporto internacional Oliver Tambo, em Johanesburgo, foi onde grande foram presos grande parte dos brasileiros detidos na frica do Sul
Aeroporto internacional Oliver Tambo, em Johanesburgo, foi onde grande foram presos grande parte dos brasileiros detidos na �frica do Sul (foto: Getty Images)

Uma comiss�ria de bordo, que pediu para n�o ser identificada, contou � reportagem que a tripula��o � orientada a acionar a pol�cia se algum passageiro apresentar comportamento estranho, como n�o comer ou beber durante a viagem. Muito provavelmente isso acontece quando ele ingeriu a droga e n�o bebe nem �gua no voo.

De acordo com o delegado da PF, h� uma constante troca de informa��es com autoridades africanas. Ele contou, por exemplo, que partiu do Brasil a informa��o que levou a pol�cia da �frica do Sul a apreender mais de 700 kg de coca�na em um navio em Porto Elizabeth no ano passado. A embarca��o estava sendo monitorada pelas autoridades brasileiras.

Em 2019, quase 67 toneladas de coca�na foram apreendidas em portos brasileiros, quantidade maior que a soma de apreens�es nos tr�s anos anteriores. Toda essa coca�na estava destinada a mais de 20 pa�ses, principalmente para Holanda, B�lgica e Espanha. Mas tamb�m havia coca�na sendo enviada para a Nig�ria, Gana e Serra Leoa. A a��o da Pol�cia Federal brasileira impediu que esses pa�ses recebessem 3,4 toneladas de droga pelo mar.

"O Brasil n�o produz, apenas exporta a coca�na que vem de outros pa�ses sul-americanos", lembrou o delegado.

O tr�fico no oceano Atl�ntico h� s�culos liga os continentes europeu, africano e americano, seja para transportar escravos, pedras preciosas ou drogas.

As apreens�es em portos d�o in�cio a investiga��es que, depois de um tempo, podem levar a pol�cia aos respons�veis pela carga. Nesses casos, nem sempre h� presos em flagrante, o que j� � mais comum quando os traficantes usam mulas que tentam sair do Brasil de avi�o.

"Temos contato com policiais de v�rios pa�ses. O Brasil tem enfrentado o problema com veem�ncia e cada vez mais estamos nos capacitando e tamb�m treinando policiais de pa�ses africanos. Mas outros pa�ses tamb�m precisam combater o aumento do consumo de droga", disse o representante da PF na �frica.

O delegado lembra que h� pa�ses com pris�es em p�ssimas condi��es e leis bem diferentes das brasileiras - no Egito, por exemplo, onde 11 dos 13 brasileiros que est�o presos foram condenados a pris�o perp�tua. Por�m, por serem estrangeiros, tiveram a pena convertida em 25 anos de pris�o, segundo a embaixada brasileira no Cairo.

"O dinheiro oferecido pelas organiza��es pode at� ser atraente, mas quem faz isso pode ser preso em um pa�s onde h� pena de morte para o crime", disse o delegado.

*Nome fict�cio para preservar a identidade das personagens



(foto: BBC)

(foto: BBC)

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