Luciane de Oliveira
Redatora volunt�ria da Politize!
O m�s da consci�ncia negra trouxe quest�es de suma import�ncia, como a exist�ncia de democracia racial. Esse conceito sugere que negros e brancos convivem em harmonia, com oportunidades iguais de exist�ncia. Frases como “somos um s�”, “todas as vidas importam” e “a �nica ra�a � a humana” s�o mais corriqueiras do que se possa imaginar, mas ser� que elas correspondem � verdade em um pa�s como o Brasil, onde mais da metade da popula��o � de pessoas pretas?
Discutir de maneira mais aprofundada o racismo e as formas sutis como ele se consolidou e acontece dentro da sociedade brasileira, partindo do conceito de democracia racial, � necess�rio para a desobstru��o desta percep��o j� estruturada no tecido social.
Vivemos uma invers�o da realidade brasileira sobre suas rela��es raciais, em que se v� a tentativa de eliminar qualquer possibilidade de pol�ticas compensat�rias pelo Estado para as popula��es que historicamente sofrem mais viola��es de direitos, incluindo a popula��o negra.
O Atlas da Viol�ncia, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econ�mica Aplicada (Ipea), ressalta que uma das principais express�es das desigualdades raciais no Brasil � a alta concentra��o nos �ndices de viol�ncia contra a popula��o negra. Segundo o estudo, pretos e pardos representaram 77% das v�timas de homic�dios, com uma taxa de 29,2 por 100 mil habitantes. Comparativamente, entre os n�o negros (soma dos amarelos, brancos e ind�genas) a taxa foi de 11,2. A pergunta que fica �: como transformar a ideologia racial oficial em consci�ncia, atitude e poder?.
O que muito permeia o pensamento coletivo desde o p�s-aboli��o � que as oportunidades existem de forma equilibrada na sociedade brasileira. Se um negro n�o as desfruta, a culpa seria exclusivamente dele por n�o “saber aproveitar” para tal. Portanto, uma das dimens�es psicol�gicas do mito da democracia racial � ter introjetado, tanto nos negros quanto nos n�o negros, a ideia de incapacidade e inferioridade, resultando em uma completa absolvi��o do branco e culpabiliza��o do negro pelos seus infort�nios.
A partir disso, a luta contra o racismo passou a ser exclusivamente da popula��o negra, em vez de ser uma reivindica��o da sociedade global, j� que a culpa pelo racismo seria do pr�prio negro. Nesse sentido, como forma de trazer � luz da consci�ncia um problema extremamente profundo e quase impercept�vel para boa parte da popula��o, surgem as pol�ticas afirmativas que buscam equilibrar e retratar os v�rios s�culos de discrimina��o e preconceito.
Pol�ticas de cotas, valoriza��o identit�ria, bolsas de estudo, contrata��o e promo��o no mercado de trabalho, entre outras pol�ticas p�blicas, s�o exemplos de que primeiro � preciso romper uma grande barreira para que, enfim, pretos e brancos possam competir de forma solidamente igualit�ria pelas mesmas oportunidades.
O processo se torna ainda mais dif�cil sem a participa��o consciente e ativa de todos, e n�o somente das pessoas pretas, na transforma��o do sistema racial. A solu��o para os males produzidos pelo racismo passa, necessariamente, pela luta coletiva. A conhecida frase atribu�da � fil�sofa Angela Davis � incisiva e n�o deixa d�vidas: “Numa sociedade racista, n�o basta n�o ser racista. � necess�rio ser antirracista”. O caminho � esse se quisermos, de fato, alcan�ar a tal democracia social em sua plenitude, eliminando completamente essa sociedade desigual e excludente.
