Em 1960, o Brasil conheceu Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Mineira de Sacramento, ela se mudou para São Paulo aos 33 anos e passou a viver na Favela do Canindé, às margens do Rio Tietê. Mãe solo de João José, José Carlos e Vera Eunice, sustentava a família como catadora, enquanto registrava o cotidiano daquela comunidade em cadernos e pedaços de papel encontrados no lixo.

Em 1958, o jornalista Audálio Dantas (1929-2018) foi ao Canindé fazer reportagem para um jornal paulista. Teve contato com os escritos de Carolina e decidiu publicá-los. Em 1959, matéria do repórter para a revista O Cruzeiro apresentou aquela autora especial ao Brasil.

Em 1960, chegava às livrarias “Quarto de despejo”, que se tornou best-seller. Vendeu 30 mil exemplares em apenas três dias, ganhou edições em mais de 40 países e foi traduzido para mais de 10 idiomas.

Sessenta e cinco anos depois, a história de Carolina Maria de Jesus segue atual e espelha a realidade de muitas mulheres negras no Brasil. Leitura obrigatória em vestibulares importantes, como o da Fuvest, “Quarto de despejo” ganhará adaptação para o cinema em 2026, estrelada por Maria Gal e dirigida por Jeferson De. A produção é de Clélia Bessa.

Muito além da miséria

A família de Carolina considera o filme importante por apresentar ao público a complexidade de uma artista que fez muito mais do que escrever sobre a miséria no Brasil. Além dos diários que a tornaram conhecida, é autora de poemas, peças de teatro, romances e provérbios. Gravou dois discos com sambas e marchinhas de sua autoria.

“O filme mostra Carolina como uma mulher inteira, não só como símbolo. Mostra suas contradições, sua força, seus medos e sonhos”, afirma a neta Lilian de Jesus, filha de José Carlos.

“Ela foi tratada muitas vezes como estatística ou curiosidade, quando, na verdade, era artista completa. Carolina provou que a favela pensa, escreve, cria e sente. A história dela é um farol para as mulheres negras. Mostra que é possível transformar dor em palavras e palavras em memória. Mesmo quando tudo tenta te calar, ainda assim é possível deixar marcas profundas no mundo”, diz Lilian.

Carolina Maria de Jesus escreveu poesia, romance e peça de teatro. "Quarto de despejo" foi lançado em 40 países

Festival Livro na Rua/divulgação

Jeferson De e Maria Gal têm longa relação com a obra de Carolina Maria de Jesus. O diretor assinou o premiado curta “Carolina” (2003). A atriz interpretou a escritora no teatro, em 2007. Foi a partir dessa experiência que surgiu a ideia do longa-metragem.

“Sinto falta de histórias com protagonismo negro que não seja com arma na mão”, diz Maria Gal. Produzido pela Move Maria, Raccord Produções e Buda Filmes, o longa tem coprodução da Globo Filmes.

“Carolina Maria de Jesus, para mim, ocupa o lugar de uma grande amiga, alguém com quem me relacionei de maneira muito intensa”, afirma o cineasta Jeferson De. Em um dos trechos mais conhecidos do diário, a autora afirma que “o Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome”.

“O tema principal da Carolina é a miséria e a fome, como isso se repete para a população brasileira. Esta mensagem continua extremamente atual em um país que ainda convive com a insegurança alimentar”, observa o diretor.

Desafio

Maria Gal define o papel como o maior desafio de sua carreira. A atriz passou por transformação física que incluiu corte de cabelo e emagrecimento. Perdeu mais de 10kg. A preparação de elenco contou com profissionais do Brasil e dos Estados Unidos, entre eles Ivana Chubbuck, uma das principais especialistas do setor em Hollywood.

“Carolina nos inspira a sermos protagonistas de nossas próprias vidas, a ocupar lugares de poder. Ela foi esta mulher”, afirma Gal, que completou 50 anos no último dia 10. Além do cinema, ela dará vida à mineira no carnaval de 2026, como intérprete principal do enredo da escola carioca Unidos da Tijuca.

Durante a construção da personagem, buscou-se revelar Carolina para além da miséria. “O filme procura trazer um colorido maior sobre esta mulher”, explica Jeferson De. A narrativa utiliza trechos de seus diários como base de uma trama mais complexa. Não se trata de biografia. O recorte vai do momento da escrita do livro até sua publicação.

O longa foi rodado em novembro e dezembro do ano passado. “Minha intenção é colocar a câmera e, consequentemente, o espectador o mais próximo possível desta mulher que escreve dentro do barraco”, diz o diretor.

Consciência política

O filme explora aspectos menos conhecidos da autora: o afeto, os desejos, a vaidade, a maternidade e sua consciência política. “Carolina era apaixonante, mulher vaidosa, mãe extraordinária. Questionava o poder e defendia a sororidade”, diz Maria Gal.

Lilian de Jesus afirma que o filme lembrará ao público que Carolina Maria de Jesus não é apenas passado. “Enquanto houver desigualdade, racismo, fome, miséria, preconceito racial e social e silêncio imposto, as palavras da minha avó continuarão vivas”, acredita.

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Ainda sem data de lançamento, “Carolina – Quarto de despejo” desperta expectativa. O perfil oficial do filme no Instagram supera 30 mil seguidores. Se convertido em público, esse número já garante uma estreia de sucesso.

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