Chegando a ser chamado de “mineral mágico”, o amianto, também conhecido como asbesto, foi muito utilizado na construção civil e naval por oferecer versatilidade, resistência e isolamento térmico e acústico. Porém, ele cobra um preço elevado demais: é altamente cancerígeno para o ser humano em qualquer quantidade. Gradualmente proibidos a partir de 2013 em Minas Gerais, produtos contendo esse grupo de fibras já não são mais fabricados no estado, mas somente em dezembro um projeto que propõe medidas para o descarte daqueles que continuam em uso começou a avançar na Assembleia Legislativa (ALMG). Enquanto isso, trabalhadores que tiveram contato direto com o insumo tóxico penam com o adoecimento, que pode levar décadas para se manifestar, o que ainda dificulta a busca por indenizações. “Um tio chegou a expelir pedaços do pulmão quando tossia”, conta a sobrinha de uma das vítimas, que trabalhava em uma fábrica que usava o amianto em Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

O Projeto de Lei (PL) 1.503/23, do deputado Celinho Sintrocel (PCdoB), propõe diretrizes para mapear os produtos derivados do amianto em uso atualmente, sua retirada e substituição em prédios e construções públicas estaduais, assim como a implementação de uma campanha de conscientização alertando a população sobre os riscos à saúde e a necessidade de substituição desse material, utilizado, por exemplo, em antigas telhas e caixas d'água. Em dezembro, o PL recebeu parecer favorável das comissões de Constituição e Justiça e de Saúde da ALMG. O projeto agora se encontra com a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

Em 2013, a Lei estadual 21.114 estipulou que a importação, o transporte, o armazenamento, a industrialização, a comercialização e o uso de produtos que contenham amianto, asbesto ou minerais que contenham tais substâncias deveriam ser totalmente banidos do estado até 2023. Antes, a Lei Federal 9.055, de 1995, já proibia a utilização de uma gama de amiantos, mas autorizava especificamente o crisotila. Em 2017, entretanto, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional o artigo 2º da norma federal, tornando ilegal também o uso dessa variedade.

Adalberto Pereira, que trabalhou com a substância, acaba de descobrir manchas e nódulos nos pulmões

Jair amaral/em/d.a press

O amianto, ou asbesto, é um grupo de fibras minerais naturais que pode causar câncer de pulmão, laringe e ovários, em especial o mesotelioma. Além disso, está relacionado a doenças respiratórias crônicas como a asbestose. Essas doenças demoram até 50 anos para se manifestar. Por isso, mesmo depois de quase uma década de banimento em Minas, o amianto ainda causa muito sofrimento na vida de centenas de ex-trabalhadores e suas famílias, como a de Jaqueline Pereira Rocha Almeida. “Um tio chegou a expelir pedaços do pulmão quando tossia, outro morreu há cinco anos com asbestose e perdi outro tio há três meses com câncer de intestino”, conta sobre os familiares que trabalharam na fabricação de telhas de amianto.

Ela é moradora de Pedro Leopoldo, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte onde está localizada a DVG Precon, fábrica de material de construção como telhas, blocos, tubos e argamassa, fundada na década de 1960 e que utilizava o amianto na fabricação de seus produtos. Por se tratar de um município relativamente pequeno, várias gerações de famílias locais trabalhavam na empresa: “Umas 30 pessoas da minha família trabalharam na Precon, metade já foi diagnosticada com alguma doença ligada ao amianto”, diz Jaqueline Almeida.

Vendo tantas pessoas ao seu redor sofrendo, ela buscou ajuda na Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), ONG criada com o objetivo de cadastrar pessoas que tiveram contato prolongado ou vítimas do amianto, encaminhá-las para exames médicos e oferecer consultoria jurídica.

Com espessamento da pleura, Enandes Freitas sente fadiga que lhe tolhe a capacidade de fazer esforços físicos

Jair amaral/em/d.a press


RASTRO DE DOR

Foi na sede da Abrea-MG em Pedro Leopoldo que o Estado de Minas se encontrou com Jaqueline e ex-trabalhadores da indústria do amianto. Vários dos relatos afirmavam que equipamentos de segurança, como máscaras e luvas, eram raros, principalmente nos primeiros anos de funcionamento da fábrica, e o contato com o material era direto. Parte das vítimas move processos em busca de indenização pelos danos à saúde.

Enandes Júlio de Freitas começou a trabalhar na Precon em 1973, aos 21 anos, quando ainda não havia divulgação dos malefícios do amianto. Depois de duas décadas trabalhando na fábrica, ele se aposentou. Nesse período, vivenciou situações inusitadas no trabalho. “Eu vi um caminhoneiro que chegou lá na fábrica para descarregar o amianto e falou ‘esse trem não faz mal não’ e colocou um punhado na boca. Foi naquela época que começaram a falar que era prejudicial mas ainda não tinha acompanhamento. Depois, a Precon começou a fazer exame na gente periodicamente”, lembra.

Com o tempo, a respiração ficou pesada e como os exames feitos pela própria empresa não apontavam nada de errado, ele buscou assistência da Abrea. Em 2014, os exames diagnosticaram placas pleurais, que é o espessamento da membrana pleural, camada que envolve os pulmões, e um pequeno nódulo. “Eu sinto muita fadiga. Então, tenho que parar e descansar um pouquinho para dar sequência ao que eu estou fazendo”, conta Enandes. Ele diz que mais de 15 colegas de trabalho já morreram devido a problemas respiratórios e que perdeu as contas de quantos estão doentes.

Ver tantos conhecidos morrerem pela contaminação do amianto foi demais para Eli Inácio Pereira, que se suicidou há quatro anos, quando começou a fazer os exames. “Meu pai trabalhou lá por 25 anos. Ele se suicidou quando começou a se aprofundar nos diagnósticos. Não aguentou o impacto porque ele via os colegas sofrendo com a falta de ar e outros sintomas da asbestose”, conta Adalberto Rodrigues Pereira, que também atuou na Precon por 14 anos.

Segundo ele, durante os anos em que trabalhou na Precon, sofria com quadros de pneumonia constantes, mas nenhum raio-x detectou nada no pulmão. Somente depois que deixou a empresa foi que passou por tomografia e descobriu manchas e nódulos no pulmão. Ele ainda está se submetendo a exames para chegar a um diagnóstico e faz terapia para lidar com toda a situação. “Fui encarregado lá durante alguns anos e fomos orientados a informar aos funcionários que o amianto molhado não fazia mal, só o pó. Só depois que a Abrea foi fundada que tivemos os devidos esclarecimentos”, afirma Adalberto.


DA INOCÊNCIA AO MEDO

O estrago causado pelo amianto afeta não apenas os trabalhadores, mas também suas famílias. Entre as lembranças da infância de Jaqueline Almeida estão as festas de fim de ano realizadas na própria fábrica onde o pai e os tios trabalhavam. Alheio aos perigos do amianto, um dos tios presenteava os sobrinhos com itens feitos por ele mesmo com as fibras do mineral: “Meu tio fazia minicaixas d’água com o amianto e dava de presente para os sobrinhos. Hoje ele tem um nódulo no pescoço e dificuldade de respirar por conta da asbestose”.

Ainda sofrendo pela morte do marido, João de Deus, Remir Maciel contou ao Estado de Minas que costumava ir à fábrica acompanhada dos filhos pequenos para levar o almoço do companheiro. Ela também era responsável por lavar o uniforme dele em casa. “Ele chegava em casa branquinho, com a roupa coberta de amianto. Eu tinha que raspar o amianto do uniforme. A gente não sabia que era perigoso”, lamentou, aos prantos.

João morreu há três anos por complicações das placas pleurais e da asbestose, que chegou a afetar o coração. Remir agora teme pelos dois filhos e pelo irmão, que também trabalharam na Precon. “Ele teve uma morte que só eu sei. Sentia muita falta de ar. Foi terrível. Ele acordava no meio da noite e ia para a área buscando ar”, conta. “Meu irmão também não está bem. Teve até depressão depois que meu marido morreu, de tanto medo. Já falei para eles procurarem a Abrea, mas eles não querem, têm medo de descobrir. Até eu tenho, porque também tive contato”, desabafa.

Trinta parentes de Jaqueline Almeida lidaram com o amianto e metade já tem doenças ligadas ao mineral

Jair amaral/em/d.a press


PERIGO FATAL

Confira as estatísticas sobre amianto e saúde

50

Número de países que já baniram o amianto, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)

200 mil

Estimativa de mortes a cada ano em todo o mundo causadas pela exposição ao mineral tóxico


70%

Percentual das mortes por cânceres relacionados ao trabalho que são creditadas ao contato com o amianto


3.057

Número de pessoas que morreram de doenças relacionadas ao amianto no Brasil entre 1996 e 2017, uma média de 145 óbitos por ano


2.405

Vítimas do mesotelioma, câncer raro que afeta a pleura, entre 1996 e 2017. Outras 372 pessoas tiveram asbestose no mesmo período

50%

Percentual dos pacientes com asbestose propensos a desenvolver câncer de pulmão, segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca)


• O risco de desenvolver as doenças é maior entre as pessoas expostas ao amianto durante a extração, o processamento, corte ou instalação do material

• A contaminação pode ocorrer também quando os produtos que contêm amianto se degradam ou durante demolição de edifícios e descarte de resíduos de construção.

• Evidências de que a ingestão das fibras possa gerar doenças são limitadas

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Fonte: OMS, Inca, Fundacentro, UFBA, UNB e pneumologista Andréa Silveira

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