
Para fugir do monotema que tem tomado conta de nossas conversas, vou contar um caso interessante que poderia ser classificado como uma inacredit�vel coincid�ncia, mas que eu particularmente acredito pelo simples fato de que aconteceu comigo.
No in�cio dos anos 1990, eu e meu marido, rec�m-casados, decidimos fazer uma viagem � Europa por 30 dias. Juntamos o dinheiro, colocamos as mochilas nas costas e compramos bilhetes do Europass, que na �poca nos dava o direito de rodar de trem entre as fronteiras quantas vezes quis�ssemos pagando uma �nica taxa.
Fizemos um roteiro de seis pa�ses, incluindo principalmente aqueles nos quais t�nhamos amigos com os quais pud�ssemos encontrar e compartilhar nossas experi�ncias.
Fizemos um roteiro de seis pa�ses, incluindo principalmente aqueles nos quais t�nhamos amigos com os quais pud�ssemos encontrar e compartilhar nossas experi�ncias.
Em determinado momento, fomos para Londres, onde uma amiga desde os tempos de col�gio estava morando havia quase dois anos. Ela fora com o intuito de aprender e apurar o ingl�s, mas acabou vivendo em meio a brasileiros e hisp�nicos, o que comprometeu e muito esse objetivo espec�fico de sua empreitada. Para dificultar ainda mais o exerc�cio da l�ngua, o namorado que conhecera por l� era paulista.
Fomos, os dois casais, caminhando pelas ruas centrais de Londres, s� me recordo de que era no entorno de Piccadilly Circus, regi�o onde nossos anfitri�es conheciam um restaurante bem t�pico de jovens estudantes, ou seja, barato e bom para nossos par�metros.
Ao chegarmos no local, fomos encaminhados por uma mo�a a uma mesa compartilhada. Sentados e j� se alimentando se encontrava um casal de ingleses, se n�o, com base no aspecto f�sico, europeu. O casal mal nos viu, ou, se nos viu, preferiu nos ignorar.
Por�m, meu marido, observador nato, do tipo que consegue ver o que tem no ch�o, no c�u e no ar ao mesmo tempo, interpelou-o pegando uma sacola de loja que estava no ch�o, entre ele e nossa desconhecida companheira de mesa. Claro que o casal deu um salto, principalmente porque foi surpreendido com o que meu marido fez. Ele enfiou a m�o na sacola, retirou um p� de sapato que l� estava e perguntou em ingl�s. “� de voc�s? ”
Mas ao ouvir o que ele disse em sequ�ncia, o casal entendeu o que estava ocorrendo. “� que eu vi o outro p� dele ca�do no canto de um passeio h� tr�s quadras daqui.” Custando a acreditar no atrevimento do brasileiro e na veracidade da hist�ria que ele contara, a mulher enfiou as m�os na sacola e percebeu que com ela havia apenas um dos p�s.
Acreditando na fama de que ingl�s costumava n�o mexer naquilo que n�o lhe pertencia, meu marido refez o trajeto voltando cada passo junto ao casal e, claro, conversando e contando casos. N�o fosse a perspic�cia dele e uma bela dose de sorte, a inglesa teria perdido o cal�ado que acabara de ganhar do namorado no dia em que ele tinha preparado tudo para pedi-la em casamento. E os seis ganhamos uma bela hist�ria para contar, principalmente quando se deseja descontrair um ambiente e mudar o rumo da prosa.
