
No oitavo dia de nascimento, como todo homem judeu, Jesus foi circuncidado.
Mas esta pr�tica foi abandonada pelos seus seguidores, diferentemente de outros rituais que o juda�smo e o cristianismo mant�m e ainda partilham, como a ora��o conjunta nos templos ou a celebra��o em datas semelhantes do Natal e do Hanukkah ou da P�scoa e do Pesach.
E a resposta de por que os crist�os n�o retiram o prep�cio (camada de pele que cobre a cabe�a do p�nis) dos beb�s est� na B�blia.
Segundo o Novo Testamento, a ruptura entre o juda�smo e o cristianismo no que se refere � circuncis�o ocorreu por volta do ano 50 e teve como protagonistas S�o Paulo e S�o Pedro, que tiveram uma forte discuss�o sobre o assunto.
S�o Paulo — que naquela �poca n�o era santo, mas apenas Paulo de Tarso — passou de fariseu, ou seja, fervoroso defensor da Lei de Mois�s que perseguia os disc�pulos de Jesus, a ser o mais entusiasta na propaga��o da palavra do messias em todo o mundo, diz a B�blia.
Paulo de Tarso era, como Pedro da Galileia, Jesus de Nazar� e os outros ap�stolos, um judeu. Juntos, eles formavam o grupo de crist�os judeus e, como tal, eram circuncidados.
A religi�o judaica era a �nica monote�sta at� ent�o. Os gregos, romanos e eg�pcios acreditavam em v�rias divindades.
Para o povo judeu, Elokim (Deus) havia dito a Abra�o: "Este � o meu pacto que voc� deve manter, entre voc�, eu e sua posteridade: todo homem entre voc�s deve ser circuncidado".
Al�m dos judeus, os mu�ulmanos — que acreditam no profeta Abra�o — continuaram essa pr�tica at� hoje.
Embora n�o seja mencionada no Alcor�o, a circuncis�o aparece nos hadiths (registros escritos de comunica��es orais do Profeta Maom�).
Circuncis�o na hist�ria
A remo��o do prep�cio, que envolve a retirada da pele do p�nis que cobre a glande, � uma pr�tica que n�o come�ou com a religi�o, mas muito antes.
� o procedimento cir�rgico mais antigo do mundo e, embora n�o esteja totalmente claro, acredita-se que tenha se originado no Egito h� cerca de 15 mil anos, segundo o livro An Illustrated Guide to Pediatric Urology ("Um guia ilustrado para urologia pedi�trica", em tradu��o livre), do cirurgi�o pedi�trico e acad�mico Ahmed al Salem.
Al Salem explica que muitas culturas incorporaram a circuncis�o por raz�es que v�o desde a higiene at� os rituais de maioridade, oferecendo cerim�nias aos deuses ou como marcas de identidade cultural.

"A religi�o mandava em tudo, desde nas pr�ticas higi�nicas at� na alimenta��o, no sexo, na pol�tica. Os sistemas religiosos nascem conjuntamente como tudo nasce na cultura, e antigamente eram dif�ceis de separar. Quando tiveram de legislar sobre algumas pr�ticas de higiene na �poca, a religi�o teve um papel fundamental nisso. Porque a lei era a lei de Deus, n�o havia outra", explica Pastorino.
Essa vis�o cont�m nuances, embora n�o seja negada, no juda�smo.
"H� quem diga que, al�m do conceito religioso, sua utilidade sanit�ria e higi�nica gerou maior ades�o a essa pr�tica, sem podermos determinar se a origem foi higi�nica e sanit�ria e depois houve um acordo sobre a diviniza��o ou religiosidade do evento, ou vice-versa. Mas h� uma conjun��o ineg�vel entre a pr�tica da circuncis�o e sa�de e higiene", diz o rabino Daniel Dolinsky.
Nos tempos antigos, os sum�rios e semitas tamb�m circuncidavam os homens.
Maias e astecas tamb�m adotavam a pr�tica, segundo relat�rio publicado em 2007 pelo programa UNAIDS das Na��es Unidas.
Embora difundida, a circuncis�o n�o era universalmente aceita.
Para os antigos gregos, que exercitavam seus corpos e adoravam a nudez masculina, o prep�cio era um s�mbolo de beleza, e a circuncis�o era desaprovada.
"A prefer�ncia est�tica pelo prep�cio mais longo e c�nico � reflexo de um ethos mais profundo envolvendo identidade cultural, moralidade, propriedade, virtude, beleza e sa�de", escreveu o historiador Frederick M. Hodges, especializado em hist�ria da medicina, em um artigo de 2001.
Um prep�cio n�o circuncidado, mas curto, que n�o cobria toda a glande do p�nis, era considerado defeituoso.

"Entre a popula��o judaica, a dificuldade em manter a pr�tica da circuncis�o se tornou um problema particular durante o Per�odo Helen�stico, devido � influ�ncia da cultura helen�stica sobre os judeus que desejavam assimilar a cultura dominante", diz Cynthia Long Westfall, professora de Novo Testamento no McMaster Divinity College, no Canad�, em seu livro Paul and Gender ("Paulo e G�nero", em tradu��o livre).
"Al�m disso, houve um per�odo em que a circuncis�o era ilegal: Ant�oco Epif�nio havia ordenado aos habitantes da Judeia que n�o circuncidassem mais seus meninos. Consequentemente, alguns judeus tentaram esconder sua circuncis�o", acrescenta.
O confronto de S�o Paulo com S�o Pedro
Diferentemente de como funcionava o juda�smo, que n�o buscava converter ningu�m � sua religi�o, Jesus pediu a seus disc�pulos que divulgassem seus ensinamentos o mais longe poss�vel.
Paulo de Tarso, que provavelmente chegou a Jerusal�m na adolesc�ncia ou no in�cio da idade adulta e passou a inf�ncia rodeado de gregos, foi o principal promotor da evangeliza��o ap�s a crucifica��o de Jesus.
Ele viajou pelo que hoje � Israel, L�bano, S�ria, Turquia, Gr�cia e Egito, territ�rios que faziam parte do imp�rio de Alexandre, o Grande, espalhando a mensagem de Jesus sobretudo entre aqueles que chamavam de "gentios", termo que designava n�o-judeus.
Os n�o-judeus viam a circuncis�o como uma mutila��o genital compar�vel � castra��o, diz Long Westfall.
"Por isso, a circuncis�o tinha um estigma no mundo greco-romano, e era um processo muito doloroso para um homem adulto."

Em sua prega��o, Paulo disse a eles que n�o deveriam ser circuncidados; o ap�stolo pregou que a �nica coisa necess�ria para a salva��o de Deus era a f�.
"Esta � a norma que estabele�o em todas as igrejas. Algu�m foi chamado sendo j� circuncidado? N�o esconda a sua condi��o. Algu�m foi chamado sem ser circuncidado? N�o seja circuncidado. N�o vale de nada ser circuncidado ou n�o; importa � cumprir os mandamentos de Deus", escreveu ele em sua primeira carta aos cor�ntios.
"Paulo era um judeu de Tarso, era cidad�o romano, tinha cultura grega, era um cara muito culto e dominava as tr�s culturas — a hebraica, a grega e a romana — e sabia traduzi-las", diz Pastorino.
"Cristo nos resgatou da maldi��o da Lei", disse Paulo em sua carta aos g�latas, se referindo � Lei de Mois�s, que inclu�a a circuncis�o.
Mas sua posi��o n�o foi aceita pelos outros ap�stolos.
Na carta a Tito inclu�da na B�blia crist�, Paulo narrou esse confronto. "Existem muitos rebeldes, charlat�es e enganadores, especialmente aqueles que apoiam a circuncis�o. � preciso calar suas bocas", ele escreveu.

Circuncis�o em n�meros
- 33% da popula��o masculina do mundo com mais de 15 anos � circuncidada;
- 6,3 em cada 10 homens circuncidados s�o mu�ulmanos;
- 0,7 de 10 homens circuncidados s�o judeus;
- 1,2 em cada 10 homens circuncidados s�o americanos que n�o s�o judeus nem mu�ulmanos.
Fonte: UNAIDS
Na Ep�stola aos G�latas, Paulo contou sobre a briga que teve com Pedro um dia em Antioquia, cidade da atual Turquia onde se formou uma grande comunidade de seguidores de Jesus.
Segundo sua vers�o, Pedro costumava fazer refei��es com os gentios, mas quando um grupo de enviados de Santiago chegou � cidade, ele come�ou a se separar deles "por medo dos partid�rios da circuncis�o".
"Eu o culpei por seu comportamento repreens�vel", disse ele aos g�latas.
"Eu disse a Pedro na frente de todos: 'Se voc�, que � judeu, vive como se n�o fosse, por que for�a os gentios a praticar o juda�smo?'"
O momento da reconcilia��o
Segundo o relato do Novo Testamento, alguns dos judeus crist�os mais apegados � tradi��o e � Lei de Mois�s viajaram para Antioquia e disseram aos gentios que se aproximavam daquele cristianismo primitivo que, se eles n�o fossem circuncidados, n�o obteriam a salva��o.
� por isso que Paulo voltou a Jerusal�m e uma reuni�o de ap�stolos foi convocada para resolver a quest�o. Foi o chamado Conc�lio de Jerusal�m.
L�, Paulo falou sobre o grande n�mero de fi�is que conquistou fora da Judeia e sua vis�o prevaleceu.
Aquele que originalmente foi contra, mas depois apoiou, foi o ap�stolo Tiago que disse: "Devemos parar de impedir que os gentios se voltem para Deus".

E Pedro tamb�m cedeu. "Por que agora eles est�o tentando provocar Deus colocando um jugo no pesco�o daqueles disc�pulos que nem n�s nem nossos ancestrais poder�amos suportar? N�o pode ser!"
O conflito termina tamb�m com um pacto entre os ap�stolos: Paulo fica com a prega��o entre os pag�os, e Pedro e Tiago ficam atendendo aos judeus, explica Pastorino.
Os ap�stolos, segundo o relato b�blico, enviaram ent�o uma carta aos n�o-judeus de Antioquia, S�ria e Cil�cia na qual diziam a eles que haviam tomado a decis�o de n�o impor "nenhum fardo sobre eles, exceto os seguintes requisitos: abster-se do que � sacrificado aos �dolos, sangue, carne de animais estrangulados e imoralidade sexual".
Quando a carta chegou a Antioquia, os crentes a leram e celebraram; eles n�o precisariam ser circuncidados.
"Paulo foi um verdadeiro defensor do homem gentio e removeu um s�rio obst�culo � propaga��o do evangelho", observa Long Westfall.
Com o passar dos anos, a linha dura que se limitava aos que j� eram judeus deixou de existir.
Crist�os circuncidados
Apesar da aboli��o dessa pr�tica pelo cristianismo, existem divis�es na �frica que t�m a circuncis�o como rito: o cristianismo copta no Egito, o cristianismo ortodoxo na Eti�pia e a Igreja Nomiya no Qu�nia s�o alguns exemplos.
E embora n�o seja por motivos religiosos, cinco pa�ses do mundo com cultura crist� tiveram ou t�m a maioria de sua popula��o masculina circuncidada.

Um deles � os Estados Unidos. Em 1870, o m�dico Lewis Sayre, um dos fundadores da Associa��o M�dica Americana, come�ou a pratic�-la para prevenir e curar certas doen�as.
Suas publica��es cient�ficas, al�m de sua promo��o da circuncis�o, tornaram a pr�tica universal para quase todos os rec�m-nascidos, diz Al Salem.
E dos Estados Unidos saltou para o Canad� e o Reino Unido, onde aconteceu o mesmo, e depois para a Austr�lia e a Nova Zel�ndia.
Diverg�ncias cient�ficas sobre os riscos e benef�cios da retirada do prep�cio fizeram com que a circuncis�o deixasse de ser praticada por preven��o em rec�m-nascidos, exceto nos Estados Unidos, onde a maioria dos homens tem at� hoje a glande descoberta.
