Jelson Oliveira
Fil�sofo, professor e coordenador do Programa de P�s-Gradua��o em Filosofia da Pontif�cia Universidade Cat�lica do Paran�

Um dos grandes dilemas do nosso tempo � a falta de empatia. A palavra, cuja raiz � o verbo grego ‘pathos’, que significa sentimento, traduz uma virtude central da nossa vida: a capacidade de sentir o que outra pessoa sentiria, caso estivesse na mesma situa��o vivenciada por ela. Nesse sentido, a empatia � diferente (e eu diria, mais valiosa) do que a simpatia. Simpatia costuma unir as pessoas com as quais n�s j� temos afinidades, ou seja, pessoas com as quais n�s temos algo em comum. J� a empatia n�o costuma acontecer necessariamente por afinidade, j� que ela ocorre por um processo de compreens�o da situa��o vivida pela outra pessoa. Se a simpatia � mais afetiva, portanto, a empatia tem algo de racional: eu preciso conhecer a hist�ria da outra pessoa, me esfor�ar para reconhecer o seu valor para al�m do fato de que eu goste ou n�o dessa pessoa. Como diz o ditado, colocar-se no lugar dos seus amigos � f�cil, dif�cil � cal�ar o cal�ado de um estranho ou at� mesmo de um inimigo. � isto o que a empatia exige de n�s: que a gente se coloque no lugar do outro, mesmo que esse outro seja algu�m que n�s n�o gostamos, que ele tenha uma orienta��o sexual que n�o � a nossa, que tor�a para um time que n�o � o nosso, que fa�a coisas que eu desaprovo. Coloque-se no lugar dele e tente entender por que ele faz, pensa ou age daquela forma. Isso poder� ser muito �til para que voc� se dirija a essa pessoa com gestos mais adequados do ponto de vista dos comportamentos esperados na nossa vida social, entre os quais est� o respeito e o reconhecimento da dignidade de todo ser humano.
Por isso, muitos autores consideram que a empatia � parte da nossa intelig�ncia emocional. Os psic�logos norte-americanos Paul Ekman e Daniel Goleman, por exemplo, chegaram a afirmar que h� tr�s tipos de empatia: a empatia emocional, que ocorre quando conseguimos sentir e compartilhar o que o outro sente, colocando-nos no lugar dele; a empatia cognitiva, que � caracterizada por se comunicar melhor e entender o pensamento do outro e a raz�o desses pensamentos e at� sentimentos; e a empatia compassiva, que � o tipo de empatia que ultrapassa o sentir ou acolher o pensamento do outro, ela faz com que a pessoa emp�tica ajude efetivamente o outro. � nesse �ltimo degrau que a empatia se apresenta como um valor humano central, como uma virtude �tica: colocando-nos no lugar do outro, reconhecendo a sua forma de agir e pensar como leg�timas, n�s somos capazes de ir em dire��o dessa pessoa querendo ajud�-la, fazendo aquilo que seria preciso para socorr�-la em alguma necessidade. Pense em uma pessoa com fome, pense em uma pessoa machucada, pense em um c�ozinho abandonado, pense e sinta o que esses outros seres sentem – quanto mais a gente conseguir se colocar no lugar deles, mais seremos motivados a ajud�-los, porque compreendemos a sua dor.
Nesse sentido, o valor da empatia est� muito pr�ximo do valor da compaix�o. O fil�sofo alem�o Arthur Schopenhauer afirmou que o ego�smo � o contr�rio da compaix�o porque impede a gente de se colocar no lugar do outro, j� que, no ego�smo, pensamos apenas por n�s mesmos e buscamos apenas os nossos interesses. Estamos cegos para a dor do outro, portanto. Por isso, para ele, o ego�smo � a for�a antimoral por excel�ncia, na medida em que n�o h� nada que se oponha t�o drasticamente � moralidade, ou seja, ao bem comum, do que o ego�smo. E n�o tem nada que seja t�o moral quanto a compaix�o, porque ela nos prepara para aceitar e compreender os outros a tal ponto de sermos capazes de agir em seu benef�cio. Por isso, diante de um mundo de dores e sofrimentos, Schopenhauer prop�e uma �tica pr�tica e vivencial baseada na compaix�o. Apesar do ego�smo e da crueldade que fazem parte da exist�ncia humana, a caridade e a compaix�o s�o um contraponto ao ego�smo, que � produzido pelo “eu”ou pelo “ego”, que est� sempre centrado em si mesmo. O ego�smo, por isso, separa os seres humanos, impede que haja uma aproxima��o verdadeira. A compaix�o, por sua vez, aproxima, nos torna mais abertos uns para os outros.
Note-se bem como esse � um valor urgente. Vivemos um tempo em que cada um est� fechado em si mesmo, pensando e cuidando apenas dos seus pr�prios interesses. Essa forma de viver, amplamente difundida pelo regime capitalista neoliberal, que n�o nos prepara para o bem comum, est� t�o fortemente consolidada que n�s j� n�o acreditamos que exista algo para al�m disso. O resultado? Uma sociedade carrancuda, trancafiada em seus muros, v�tima do preconceito, da intoler�ncia e da viol�ncia. Porque sem empatia somos incapazes de criar um mundo comum, no qual a paz e a fraternidade sejam vi�veis.
O psic�logo Carl Rogers escreveu que “ser emp�tico � ver o mundo com os olhos do outro e n�o ver o nosso mundo refletido nos olhos dele”. Precisamos deixar de ser narcisistas, portanto, para poder amar de verdade aqueles que se aproximam de n�s. N�o podemos continuar esperando que o outro seja apenas o espelho daquilo que n�s somos: “Narciso acha feio o que n�o � espelho”, nos advertiu Caetano Veloso naquele que eu considero o verso mais lindo do cancioneiro nacional. Precisamos achar bonito o que o outro � – para al�m daquilo que n�s acreditamos que seja o certo, o adequado, o aceit�vel. Esse � o princ�pio mais f�rtil para uma vida feliz.
