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Estado de Minas

S�timo dia da morte do artista mineiro Marcelo Dolabela ter� poesia em bar de BH

O poeta e ativista cultural fazia a cria��o privada e a frui��o p�blica dialogarem


postado em 24/01/2020 04:00 / atualizado em 23/01/2020 22:12


N�sio Teixeira *
Especial para o Estado de Minas

Amigas e amigos do poeta e artista multim�dia Marcelo Dolabela convidam amanh�, a partir das 22h, no Butiquim Desde 1999 – Rua M�rmore, 758, Santa Teresa, para a cerim�nia de poesia de s�timo dia do artista, morto em 18 de janeiro passado em decorr�ncia de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido em 2018. A missa de s�timo dia ser� celebrada hoje, �s 19h, na par�quia Santo Ant�nio.

Bares, botequins e poesia rimam muito bem com Marcelo Dolabela. Gosto de pensar que meu derradeiro encontro com ele em vida aconteceu ali, numa habitual mesa do bar Xoc Xoc, no Edif�cio Maletta – aquela colada na parede da entrada. (� esquerda, claro!) Foi durante a noite de 27 de junho do ano passado que me encontrei com Marcelo Dolabela – ou simplesmente Dola, pra muita gente. Marcelo, ao lado da companheira N�, apesar de ainda visivelmente emagrecido pelo AVC que o acometera cerca de uns oito meses antes, j� estava com uma dic��o sensivelmente melhor desde o nosso encontro anterior, apenas uns 20 dias atr�s, que ocorrera no bar Ponto Savassi (outro ponto de parada dele, mas sempre aos s�bados e em per�odos mais espor�dicos e c�clicos), com a Luciana Tonelli, amiga e editora.

Sa� muito feliz e otimista daquele encontro na mesa do Xoc Xoc. A ponto de dispensar nova rodada no Ponto Savassi no s�bado seguinte, porque tinha que terminar de corrigir uns trabalhos da universidade e rever um artigo. Pra mim, Dola estava numa curva ascendente de supera��o da doen�a e o velho h�bito de sentar e prosear com ele seguiria adiante, ainda que com cerveja reduzida, pra n�o dizer inexistente. Infelizmente, todavia, n�o foi o que aconteceu. O quadro acabou se revertendo e culminou no falecimento do poeta.

Sua morte deixa uma profunda lacuna n�o s� na produ��o art�stica mineira e nacional, mas tamb�m no movimento da poesia pelo cotidiano belo-horizontino. Afinal, a despeito de um temperamento mais circunspecto de sa�da, Dolabela exercia incr�vel poder de articula��o nas mais v�rias inst�ncias e fronteiras. (Abro par�nteses aqui para dizer que, apesar da n�tida personalidade distinta de cada um, curiosamente, esse elemento de converg�ncia o aproxima, de alguma forma, do m�sico e compositor Fl�vio Henrique, outra saudade que tamb�m nos deixava praticamente na mesma tr�gica data de janeiro, dois anos atr�s. Em ambos havia esse car�ter greg�rio, de converg�ncia m�ltipla de a��es – o que para mim era sempre algo admir�vel: “Como esses caras conseguem achar tempo para dar conta de tanta coisa?”. Acho que vamos ter que tomar muito tempo para conseguir mensurar, se � que isso um dia ser� poss�vel, a perda desses dois artistas.)

E a� voltamos ao ponto. Ou � mesa. Ou ambos. Para al�m do Xoc Xoc ou Ponto Savassi, havia a Cantina do Lucas, La Greppia, Mineirinho 2, Banzai... a mesa de bar parece-me que era esse ponto de converg�ncia onde a vida e a obra po�tica de Marcelo se conectavam com a poesia do cotidiano, t�o defendida por ele. OK. De um lado, havia a casa do poeta, ou melhor, havia o acervo dele. Pra mim, Dolabela n�o morava numa casa, mas em um acervo incr�vel e organizado das mais variadas produ��es art�sticas: poesias, discos, livros, cartazes... Morava e se demorava no acervo para dali rabiscar as obras. Local de cria��o. Como diria o amigo Danilo Jorge, em qualquer pa�s s�rio, Dolabela organizaria esse acervo em um museu ou em uma universidade. Mas houve momentos em que teve de se desfazer de parte dele para poder pagar as contas. Do outro lado, as performances, shows, lan�amentos, a��es, mostras, a sala de aula/oficina... o lugar em que obra e artista encontravam-se plenamente com o p�blico. Local de frui��o.

Mas tinha sempre essa mesa de bar no meio do caminho em que cria��o e frui��o sentavam pra conversar e tomar cerveja. Aposto duas geladas e um torresmo do Xoc Xoc como tudo isso era refinado ali nos bares da vida. As mesas do bar funcionavam como uma esp�cie de laborat�rio aberto de Dolabela para quem l� quisesse chegar. Ao redor da mesa, escambo art�stico imaterial nas conversas, mas tamb�m trocas tang�veis: um CD ou livro por outro livro dele, algum convite ou o CD Subst�ncia. Claro que sobrava tempo e tamb�m havia alguma leitura cr�tica do que chegava ou do que estava na ordem do dia. E, nessas horas, quase sempre emergia o Dolabela das teorias engra�adas e dos bord�es cl�ssicos, o que gerou um neologismo entre alguns pares, o dolabelismo, que resumi num haicai “guilhermino” publicado pelo Carlos Barroso: Dolabelismo/pra tudo na vida uma teoria/para cada uma delas um aforismo. Nesses momentos, costumava gesticular com os bra�os e exclamar, como na ocasi�o abaixo:

–  A� n�o xar�! Pegar um texto, clicar no “selecionar tudo” e depois “centralizar” e dizer que � poesia? � bom tamb�m – mas podendo evitar � melhor!

Esse aspecto evidencia outro movimento da poesia cotidiana de Dolabela: a sua pr�pria trajet�ria derivada do “poeta do mime�grafo”, que j� o colocava pra ter que dar conta de tudo mesmo: escrever, editar, publicar, distribuir, num momento hist�rico em que era imperativo que a��o pol�tica e a��o po�tica caminhassem juntas, bra�os dados ou n�o.

Nascido em 17 de setembro de 1957, em Lajinha, a 342 quil�metros de BH, Dolabela veio em meados de 1970 para a capital mineira estudar veterin�ria na UFMG, com a expectativa de voltar � cidade natal e trabalhar no meio rural. Todavia, desde l� j� havia demonstrado inclina��o para as letras e sua experi�ncia inicial como discente na veterin�ria o fez rejeit�-la veementemente – ao ponto, inclusive, de ter se tornado vegetariano. A� migrou para o curso de letras, estreitando tamb�m a conviv�ncia com estudantes de outros cursos da Fafich. Surge dali ent�o o contato com o mime�grafo e o grupo Cemflores, que inclu�a, al�m de Carlos Barroso, “Gatto” Jair Fonseca, Juca, Carlos Augusto Novais, Luciano Cortez, Ilka Boaventura, entre outros.

A meu ver, essa conjun��o de autonomia criativa do poeta e sua inser��o de contato no cotidiano – inclusive pol�tico – de seu entorno social sempre foi um aspecto caro ao Dolabela. Seu arco de interesse po�tico n�o se deteve apenas, ent�o, na chamada “poesia marginal” (que n�o est� necessariamente ligada a, digamos, uma po�tica do mime�grafo), mas seus mais de 40 anos de carreira promovem um pante�o do po�tico: da produ��o em poesia visual ao haicai; do poema improvisado ao soneto alexandrino; do poema-processo � can��o de rock; do livro-objeto ao cinema; da poesia concreta ao v�deo. Precisamente porque a poesia, para Dolabela, deve ocupar inclusive o espa�o da galeria, do muro, da can��o, do palco, da tela do cinema e do v�deo.

– T� falando! A�, ‘aspas’ n�?

“A Cemflores foi – e ainda � – meu jardim de inf�ncia, minha madureza e meu doutorado. Ali – aqui, aprendi tudo (ou quase). Pol�tica e po�tica. Milit�ncia e �nsia. Utopia e poesia. Tudo banhado no �cido de ser a alegria da prova dos nove”, escreveria Dolabela na publica��o Cemflores – Lira dos Quarent'annos (1977-2017). Mais do que embri�o para a��o pol�tica e po�tica, do Cemflores tamb�m vieram tr�s importantes grupos de rock da capital mineira: Dolabela puxou o Diverg�ncia Socialista; Rubinho Troll o Sexo Expl�cito (onde o futuro John “Pato Fu” Ulhoa tocava a guitarra); e Gato Jair o �ltimo N�mero.

Dolabela nutria pela MPB e rock nacionais – afinal, h� essa divis�o? – tamb�m um grande apre�o. Colecionista, adorava organizar e tabular tudo o que tinha. Esse car�ter enciclop�dico, dolabelismo t�pico, se revela n�o s� na poesia, mas tamb�m no Dolabela professor (tipologia po�tica, tipologia do lead jornal�stico...), e sobretudo em produ��es em torno da m�sica, sendo a mais c�lebre delas o ABZ do rock brasileiro, lan�ado em 1987. E a�, para voltar � mesa do Xoc Xoc, Dola estava animado em toda a sua melomania para rever e repotencializar para uma nova edi��o deste trabalho – apesar do car�ter gigantesco do empreendimento.

Mas, para mim, Marcelo n�o se importava com o tamanho das coisas que viria a fazer. Para ele, creio, o mais importante, sempre, era nunca ter medo de fazer tudo que fosse poss�vel em termos po�ticos. Assim, as mesas eram sempre visitadas por outros poetas, m�sicos, artistas, escritores, professores, jornalistas, discentes e ex-discentes, com quem tamb�m sempre desenvolvia alguns projetos – que o digam Ana Gusm�o, Lidyane Ponciano, Brenda Marques Pena, T�lio Travaglia... Muitas parcerias gestadas ali.

Perder o amigo-poeta-m�sico no dia em que o ent�o representante m�ximo da pol�tica cultural brasileira referenciou o nazismo tornava tudo ainda mais dif�cil. Tamb�m por raz�es paternais sa� antes do sarau derradeiro de sua despedida na Casa do Jornalista, totalmente tomada j� nas preliminares por colegas, familiares, amigas e amigos.

Mais tarde, pensando no sarau, envio uma mensagem para a N�: “Sozinho em casa agora/depois de ninar Aurora/ainda n�o consigo acreditar/que meu dileto amigo foi-se embora! Uma honra e privil�gio poder ter compartilhado tantas conversas e aprendizados com o Dola”. No dia seguinte, a resposta: “Tamb�m me sinto honrada. Falo devagar os versos de Drummond: 'Deus me deu esse amor na matureza. E por isso sou grato'”.

Dolabela j� deixa de ser mat�ria (o corpo foi enterrado em sua Lajinha natal) para se tornar energia. Que rima com poesia. Que possa inspirar cotidianos de cria��o e frui��o, al�m dos bares, como o de amanh�, na poesia de s�timo dia! Se “saudade � felicidade que ficou”, sigo sentindo falta dos dolabelismos...

– Eu t� falando! C�s brincam demais!


* Jornalista, professor do Departamento de Comunica��o Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)


Belo Horizonte, adeus

Nasci, como todos, do mesmo ov�rio;
vivi tanto, sem ter anivers�rio;
aprendi a li��o do dicion�rio;
n�o tive endere�o; n�o tive hor�rio;

levei a cruz, fiz meu pr�prio calv�rio;
cri em fortunas, fui tolo e ot�rio;
cumpri minha miss�o e fui mission�rio;
paguei, com meu sangue, o sal do sal�rio;

a usura foi vil sobre meu er�rio,
me fez de escravo, me fez de oper�rio,
me dando, em troca, um festim ordin�rio.

E se digo n�o, sou incendi�rio.
E o que me faltou n�o foi necess�rio,
foi apenas uma data no calend�rio.



Heiddeger's song # 1 e 2

1
palestras escritas em restos de nuvens
transformam as letras em pedras de sal
os ventos que v�m sob os p�s da mem�ria
sopram as p�talas do azul do caos
os anjos que olham os escombros da hist�ria
v�o al�m da lei do bem e do mal

as palavras da tribo o nome de Deus
o eterno carimbo impresso no c�u

2
como falar da verdade
na casa de Sheherazade
como falar de pecado
na casa de enforcado?

como falar consci�ncia
na casa da viol�ncia?
como falar do poeta
de sua obra completa?

como falar de amor
no lar do torturador?
como falar de cultura
na casa da ditadura?

como falar de ru�do
para quem n�o tem mais ouvido?
como falar poesia
depois do fim da utopia?

De puro sangue

eu     enquanto carne
eu     enquanto osso
eu     enquanto karma
eu     enquanto posso

posse de mim mesmo
resto sem um tra�o
resma de meu a�o
a vida sem remorso



Maletta Revisited #86

eu estou nas maravilhas do mundo
no Coliseu da cidade
no naufr�gio dos poetas
ouvindo Scheherazade

� o zum-zum da matilha do mundo
da Muralha da China, o barulho,
a baunilha dos vagabundos

�nica gera��o que ouve
a triste balada dos mouros
o transplante das d�cadas
a arc�dia sem f� e sem ouro.

• • •

o poeta n�o busca obra mas crise
vive para espalhar fome e problema
abre ao sol sua pr�pria valise
e mostra que nem sempre traz poema

o poeta se anula na reprise
se nega quando canta o mesmo tema
por favor se chamar por um avise
para desde j� desviar meu lema

quero trazer as gavetas vazias
nenhuma ideia para o pr�prio texto
que dos pap�is se fartem os cupins

n�o quero meus dias nos folhetins
levem os versos deixem-me o gesto
prefiro morrer a viver manias


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